A propósito do 70º aniversário da banda desenhada Tintin em Portugal, voltei a lembrar-me dos famosos bonecos que passavam na RTP: Les aventures de Tintin – objectif Lune, que fizeram as maravilhas das manhãs de fim-de-semana de toda uma geração. Pondo aqui algumas questões de parte para outro tipo de discussão (Será que Tintin era homossexual? E o Capitão Haddock, sofria de alcoolismo?), ir-me-ei agora centrar neste tema tão saudosista que é o dos grandes ícones da nossa infância.
É com enorme nostalgia que recordo esse, e outros que tais: Widget, o Guardião da Terra, o Pai Castor, Heathcliff o gato, e, claro, o Bocas. Na altura dos quatro canais, era bem fácil a um punhado de pequenos e maravilhosos bonecos influenciar todos e todas. E, assim, as crianças do país inteiro uniam-se em torno de umas quantas figuras muito características. Quando fossemos grandes, queríamos ser como eles.
Eu, que não tenho filhos (nem faço tenção de ter tão cedo, para grande infortúnio da minha avó), não possuo na verdade muita informação no que diz respeito ao que se passa hoje em dia dentro dos cérebros mais jovens. Mas presumo que muitos fiquem confusos com a quantidade de programas infantis que se encontram à sua disposição. Quais serão os seus modelos, quais serão os seus heróis? A par do Nodi, e Bob o Construtor, não conheço nenhum; mas presumo que existam muitos mais. Um enorme exército de diversificadíssimas personagens, fruto originário de uma grande baralhação mental.
Porque, em vinte anos, as coisas mudaram bastante. Com as Playstation, os 300 canais de televisão, e a Internet; as crianças crescem bombardeadas por muito mais informação e possibilidades do que antigamente. Onde estava a rudimentar Megadrive com o Sonic aos pulinhos, aparece agora uma infinita panóplia de jogos interactivos em que personagens absolutamente realistas morrem das mais variadas e impiedosas maneiras, em batalhas inclementes e sanguinárias, munidas de armas de uma complexidade extrema (não esquecer que os autores do atentado de 11 de Setembro foram eles próprios treinados, entre outras coisas, por um simples jogo de computador).
E longe vão os anos em que todas as criancinhas portuguesas sintonizavam a TVI ao mesmo tempo, à hora do lanche, para ver a Casa do Tio Carlos.
No dia em que mostrarmos aos nossos filhos coisas como esta:
Eles rir-se-ão, condescendentemente, como nós fazíamos quando os nossos pais ou avós nos tentavam impingir os seus peluches de trapo esfarrapados, ou ensinar-nos o “Jogo da Glória”.
E em relação a este
Para quem, como eu, ainda tinha dúvidas:
Welke os kan ons iets leren?
Boes Boes
Boes Boes
En een fietsband repareren?
Boes Boes
Boes Boes
Rock 'n Roll en ook nog de Samba
danst hij met je mee
Wie laat zich niet koeioneren?
Boes Boes
Boes Boes
Boes Boes
Boes Boes
Sim, também só agora é que reparei que escutávamos o genérico deste famoso desenho animado em holandês. Coisas como esta são susceptíveis de dar todo um novo twist à vida de uma pessoa
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
As amigas porteiras
É frequentemente dito por portugueses que habitam outros países, à laia de queixume, que viver numa grande cidade europeia pode ser uma experiência difícil e solitária; por os seus habitantes serem muito mais metidos com eles próprios, e pouco afáveis para com os desconhecidos, do que nós. Não é estranho escutar, para esse efeito, algum comentário indignado, tal como: “Vivi três anos no mesmo apartamento em Paris, e nunca conheci os meus vizinhos!”. Assim ilustrando até que ponto é “frio e insensível” o clima nessas cidades; por oposição a Portugal, um pequeno país em que toda a gente se conhece.
Ora, eu não vejo mal nenhum no facto de alguém nunca ter conhecido os seus vizinhos. Vivendo em Portugal, conheço os meus, e não se pode dizer que seja uma pessoa mais feliz por isso. Bem vistas as coisas, até preferia que muitos deles fossem “frios e insensíveis”.
Vivo numa rua em pleno centro de Lisboa, dominada por uma sociedade paralela de porteiras, a cujos olhos perscrutadores e ouvido afinado nenhum pormenor escapa, e que conhecem a história de vida completa de cada um dos moradores. Andam aos pares - como polícias à paisana - chinelando sinuosamente e bamboleando os seus largos traseiros pela rua, ao mesmo tempo que trespassam os transeuntes com o olhar, e limpam ao avental as mãos sujas de cozido. Algumas possuem mesmo um banquinho instalado em pleno passeio, no qual se sentam o dia todo, para melhor contemplar o que se passa, ao mesmo tempo que murmuram comentários umas para as outras. Dando, claro, uma ocasional olhadela nas revistas de intrigas cor-de-rosa.
Posto isto, há também o cabeleireiro, ao virar da esquina. Mas suponho que, para os interessados, esse não seja uma fonte de informação tão segura. Pois, apesar dos louvados esforços das suas diligentes funcionárias, as informações por estas últimas providenciadas são susceptíveis de estarem incorrectas. De facto, da última vez que lá fui, houve uma senhora que me perguntou como é que estava o meu filho (e eu não tenho filhos).
Existe também o café, o ponto de encontro por excelência da coscuvilhice, no qual são passadas em revista as últimas notícias do bairro. Os empregados escutam atentamente a conversa, e vão por sua vez fazer o briefing às porteiras, ou às cabeleireiras, assim democratizando o acesso à informação na zona. Não é de estranhar, portanto, que o morador venha a saber (mesmo não o querendo) da vida de pessoas que não conhece, e pormenores sobre indivíduos com os quais não partilha, nem faz tenções de partilhar, a mínima intimidade.
Porque na minha rua, eu sei perfeitamente quem são os meus vizinhos (assim como quantos filhos têm, as respectivas profissões, e as vezes que mandar arranjar a casa de banho), mas devo dizer no entanto que isso não contribui em nada para a minha felicidade.
Depois de viver um ano e meio em Amesterdão, nunca soube quem eram os meus vizinhos. Mas também não se ouviam sussurros, nem comentários cada vez que algum deles passava. Em Amesterdão, os empregados do restaurante em frente não conheciam os senhores da Farmácia ao lado. Mas se algum laço se estabelecesse entre eles, não seria porventura para dizerem mal ou se queixarem uns dos outros, mas sim uma relação cordial ou uma amizade.
É assim tão negativo viver numa sociedade com limites pessoais de respeito mútuo, na qual a vida dos outros não possui grande importância para o nosso desenvolvimento pessoal?
Ora, eu não vejo mal nenhum no facto de alguém nunca ter conhecido os seus vizinhos. Vivendo em Portugal, conheço os meus, e não se pode dizer que seja uma pessoa mais feliz por isso. Bem vistas as coisas, até preferia que muitos deles fossem “frios e insensíveis”.
Vivo numa rua em pleno centro de Lisboa, dominada por uma sociedade paralela de porteiras, a cujos olhos perscrutadores e ouvido afinado nenhum pormenor escapa, e que conhecem a história de vida completa de cada um dos moradores. Andam aos pares - como polícias à paisana - chinelando sinuosamente e bamboleando os seus largos traseiros pela rua, ao mesmo tempo que trespassam os transeuntes com o olhar, e limpam ao avental as mãos sujas de cozido. Algumas possuem mesmo um banquinho instalado em pleno passeio, no qual se sentam o dia todo, para melhor contemplar o que se passa, ao mesmo tempo que murmuram comentários umas para as outras. Dando, claro, uma ocasional olhadela nas revistas de intrigas cor-de-rosa.
Posto isto, há também o cabeleireiro, ao virar da esquina. Mas suponho que, para os interessados, esse não seja uma fonte de informação tão segura. Pois, apesar dos louvados esforços das suas diligentes funcionárias, as informações por estas últimas providenciadas são susceptíveis de estarem incorrectas. De facto, da última vez que lá fui, houve uma senhora que me perguntou como é que estava o meu filho (e eu não tenho filhos).
Existe também o café, o ponto de encontro por excelência da coscuvilhice, no qual são passadas em revista as últimas notícias do bairro. Os empregados escutam atentamente a conversa, e vão por sua vez fazer o briefing às porteiras, ou às cabeleireiras, assim democratizando o acesso à informação na zona. Não é de estranhar, portanto, que o morador venha a saber (mesmo não o querendo) da vida de pessoas que não conhece, e pormenores sobre indivíduos com os quais não partilha, nem faz tenções de partilhar, a mínima intimidade.
Porque na minha rua, eu sei perfeitamente quem são os meus vizinhos (assim como quantos filhos têm, as respectivas profissões, e as vezes que mandar arranjar a casa de banho), mas devo dizer no entanto que isso não contribui em nada para a minha felicidade.
Depois de viver um ano e meio em Amesterdão, nunca soube quem eram os meus vizinhos. Mas também não se ouviam sussurros, nem comentários cada vez que algum deles passava. Em Amesterdão, os empregados do restaurante em frente não conheciam os senhores da Farmácia ao lado. Mas se algum laço se estabelecesse entre eles, não seria porventura para dizerem mal ou se queixarem uns dos outros, mas sim uma relação cordial ou uma amizade.
É assim tão negativo viver numa sociedade com limites pessoais de respeito mútuo, na qual a vida dos outros não possui grande importância para o nosso desenvolvimento pessoal?
terça-feira, 14 de setembro de 2010
"Burn a Quran day"
Para grande alívio da comunidade internacional, o dia 11 de Setembro decorreu este fim-de-semana sem incidentes de maior importância. Isto é, ninguém queimo os 200 livros do Alcorão, como tanto o teria desejado o pastor Terry Jones.
O mundo está cheio de “almas iluminadas”, e de pessoas que julgam ser detentoras da verdade absoluta. Muitas facilmente passam despercebidas, resguardando-se no seu pequeno universo pessoal de ideias preconcebidas e ódios recalcados. Outras, como Terry Jones, fazem questão de espernear e de demonstrar aos quatro ventos, para que todos vejam, até que ponto é que certas partes de países ditos evoluídos ainda vivem mentalmente na Idade da Pedra.
Este pastor evangélico do estado da Florida lançou a semana passada um apelo internacional. Diz ele e os seus seguidores que o Alcorão, e o Islão por acréscimo, são “obras do Diabo”, e foram responsáveis pelo massacre do 11 de Setembro. Assim sendo, apelou a que esse mesmo dia deste ano se tornasse no “Dia Internacional da queima do Alcorão”. Finalmente, pressionado pela Casa Branca, e verificando que a sua ideia não fora tão bem abraçada como porventura o esperasse, decidiu abandonar o seu ambicioso projecto.
Para quem ainda não percebeu – e pelos vistos ainda são alguns – o 11 de Setembro foi levado a cabo por fundamentalistas extremistas radicais, que seguem algumas partes do Alcorão à letra, nomeadamente aquelas em que o profeta Maomé incita à guerra contra os infiéis (na altura, ano 600 d.C., estava-se maioritariamente a falar de tribos pagãs nómadas do que é hoje a Arábia Saudita). 1300 anos de evolução depois, o Muçulmano comum reconhece estes versículos como próprios àquela época, não fazendo qualquer sentido no mundo actual. Estava-se de facto num período de guerra sem lei, em que tanto muçulmanos, como cristãos, como judeus, matavam diariamente sem qualquer problema, pois tal era o modo básico de sobrevivência.
De facto, a própria Bíblia faz sucessivas referências às gloriosas batalhas (massacres) que o povo de Israel levou a cabo contra os seus inimigos cananeus, filisteus, etc.
Como é óbvio, a maioria dos muçulmanos não pertence à Al Qaeda. Actualmente, ao Islão correspondem outros valores como a fé, a penitência (jejum no Ramadão), a caridade, a fraternidade, etc. Ou seja, dizer que todo o Islão está empenhado na Jihad será mais ou menos a mesma coisa do que dizer que todos os católicos são o pastor Terry Jones – que ainda vive na época da Santa Inquisição. Pois seguramente que o mesmo não se importaria que se largasse de novo uma bomba no meio de Badgad, para matar uns quantos “infiéis”.
Vários séculos depois da época dos profetas, o mundo é um lugar onde o diálogo entre as nações é possível, e a tolerância existe como pressuposto básico para a coexistência entre as várias culturas. O problema não está no Alcorão, nem mesmo sequer numa mesquita; o problema está sim no “medo do desconhecido” que é alimentado hoje em dia entre o Ocidente e o mundo islâmico. Lá por acreditarmos numa coisa, isso não faz de nós detentores da verdade absoluta. Existirão sempre outros pontos de vista, e não aceitar isso será dar azo a uma guerra ideológica absurda, com consequências fatais. Acções extremistas, como queimar livros sagrados, devem ser evitadas. Nem que seja (e penso que foi este o único argumento que convenceu Terry Jones) para não dar o mau exemplo ao “desconhecido”.
Não sendo crente, faço no entanto um esforço para respeitar todas as religiões. Em última análise, penso que todas elas pressupõem a existência de valores que são qualidades básicas do ser humano. Não seria nisso que nos deveríamos centrar?
O mundo está cheio de “almas iluminadas”, e de pessoas que julgam ser detentoras da verdade absoluta. Muitas facilmente passam despercebidas, resguardando-se no seu pequeno universo pessoal de ideias preconcebidas e ódios recalcados. Outras, como Terry Jones, fazem questão de espernear e de demonstrar aos quatro ventos, para que todos vejam, até que ponto é que certas partes de países ditos evoluídos ainda vivem mentalmente na Idade da Pedra.
Este pastor evangélico do estado da Florida lançou a semana passada um apelo internacional. Diz ele e os seus seguidores que o Alcorão, e o Islão por acréscimo, são “obras do Diabo”, e foram responsáveis pelo massacre do 11 de Setembro. Assim sendo, apelou a que esse mesmo dia deste ano se tornasse no “Dia Internacional da queima do Alcorão”. Finalmente, pressionado pela Casa Branca, e verificando que a sua ideia não fora tão bem abraçada como porventura o esperasse, decidiu abandonar o seu ambicioso projecto.
Para quem ainda não percebeu – e pelos vistos ainda são alguns – o 11 de Setembro foi levado a cabo por fundamentalistas extremistas radicais, que seguem algumas partes do Alcorão à letra, nomeadamente aquelas em que o profeta Maomé incita à guerra contra os infiéis (na altura, ano 600 d.C., estava-se maioritariamente a falar de tribos pagãs nómadas do que é hoje a Arábia Saudita). 1300 anos de evolução depois, o Muçulmano comum reconhece estes versículos como próprios àquela época, não fazendo qualquer sentido no mundo actual. Estava-se de facto num período de guerra sem lei, em que tanto muçulmanos, como cristãos, como judeus, matavam diariamente sem qualquer problema, pois tal era o modo básico de sobrevivência.
De facto, a própria Bíblia faz sucessivas referências às gloriosas batalhas (massacres) que o povo de Israel levou a cabo contra os seus inimigos cananeus, filisteus, etc.
Como é óbvio, a maioria dos muçulmanos não pertence à Al Qaeda. Actualmente, ao Islão correspondem outros valores como a fé, a penitência (jejum no Ramadão), a caridade, a fraternidade, etc. Ou seja, dizer que todo o Islão está empenhado na Jihad será mais ou menos a mesma coisa do que dizer que todos os católicos são o pastor Terry Jones – que ainda vive na época da Santa Inquisição. Pois seguramente que o mesmo não se importaria que se largasse de novo uma bomba no meio de Badgad, para matar uns quantos “infiéis”.
Vários séculos depois da época dos profetas, o mundo é um lugar onde o diálogo entre as nações é possível, e a tolerância existe como pressuposto básico para a coexistência entre as várias culturas. O problema não está no Alcorão, nem mesmo sequer numa mesquita; o problema está sim no “medo do desconhecido” que é alimentado hoje em dia entre o Ocidente e o mundo islâmico. Lá por acreditarmos numa coisa, isso não faz de nós detentores da verdade absoluta. Existirão sempre outros pontos de vista, e não aceitar isso será dar azo a uma guerra ideológica absurda, com consequências fatais. Acções extremistas, como queimar livros sagrados, devem ser evitadas. Nem que seja (e penso que foi este o único argumento que convenceu Terry Jones) para não dar o mau exemplo ao “desconhecido”.
Não sendo crente, faço no entanto um esforço para respeitar todas as religiões. Em última análise, penso que todas elas pressupõem a existência de valores que são qualidades básicas do ser humano. Não seria nisso que nos deveríamos centrar?
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Mission: reisgawté.
Qualquer drama da vida real é susceptível de inspirar um ambicioso produtor de Hollywood, e, como tal, parece-me que já se tornou óbvio que mais cedo ou mais tarde a história dos 33 mineiros chilenos soterrados a 700 metros de profundidade não tardará a ser explorada, num mega-blockbuster internacional.
Com efeito, há que reparar que esta tragédia, não obstante o facto de ser manifestamente um autêntico terror para aqueles que a vivem, tem todos os ingredientes para aqueloutros, que nela vêm uma possível galinha dos ovos de ouro cinematográfica.
A própria comunicação social não tardou, nesse aspecto, a fazer o seu papel. Já nos pôs a par das pequenas curiosidades relativas aos protagonistas deste lamentável acidente, através de reportagens sobre o dia-a-dia das mulheres dos ditos cujos, mostrando fotografias do mais novo e do mais velho dentre eles, e explicando quem são os engenheiros da NASA que os irão salvar.
O filme vai ser bastante simples de realizar, até porque grande parte do enredo se constrói por si só.
É claro que a trama não começa no Chile, como seria de supor caso a produção viesse a ser outra, mas em Nova Iorque. Estamos em casa de Jack, um bonito e bondoso engenheiro da NASA, que vive com a mulher, filhos, e cão, que gostam todos muito dele. Inesperadamente, é chamado para uma missão dificílima: resgatar 33 mineiros soterrados. É o único que o poderá fazer, pois apenas ele possui a técnica e a coragem necessárias. Para isso, terá que se deslocar a uma terra muito distante e desconhecida, que é deveras atrasada, e que precisa urgentemente da ajuda americana: o Txeeléi.
Despede-se da família, ao som de uma orquestra, e segue viagem, de cabelo ao vento. Ao chegar, depara-se com um cenário catastrófico: pobreza, corrupção, violência. E, claro, graças ao teor impuro da água, apanha logo uma valente dor de barriga. Mas nada para o bravo Jack.
É só aqui que se começa a contar a história destes povos misteriosos dos quais nunca ninguém ouviu falar. E dos trabalhadores que, por obra de uma empresa mineira corrupta e mal qualificada, ficaram soterrados a 700 metros de profundidade. A imagem destes homens é, obviamente, mostrada através de uma visão imperialisto-colonialista, graças à qual aparecem como gente rude e pouco desenvolvida. O que não será muito difícil de fazer, já que eles estão a viver numa gruta.
Surge a necessidade de explorar a história do ponto de vista humano, mostrando o drama da sobrevivência do mais novo e do mais velho dos mineiros. O mais novo, Juanitow, é um jovem de 16 anos que tem uma vida inteira pela frente, caso consiga escapar vivo. A mãe e a irmã chorosas sofrem por ele lá em cima, sendo que o seu pai já tinha em tempos falecido num acidente do mesmo tipo. O mais velho, Carrlows, é um homem bravo e calmo, velho índio paternalista, que acaba por exercer essa mesma função junto de Juanitow, e os dois tornam-se grandes companheiros. Tem a sua mulher lá em cima, que chora, juntamente com a família do mais novo.
Ao acompanhar o drama destas famílias, Jack começa a criar um laço emocional com elas (isto é ilustrado pelas cenas em que ele tenta mostrar às mulheres como falar com os mineiros através de vídeo-conferência, caso em que terá também de explicar o que é um vídeo, o que é um microfone, o que é um computador, etc). Assim sendo, começa a perceber que os chilenos são “pessoas como ele” que “também têm sentimentos”. O pequeno Juanitow, por exemplo, com o seu espírito vivaz e esperto, faz-lhe lembrar o seu próprio filho, Jack Jr, que ficou em Nova Iorque.
E, graças às suas extraordinárias qualidades didácticas, Jack consegue ensinar o jovem Juanitow e o velho Carrlows a ler e escrever, através de vídeo-conferência.
Assim cresce a necessidade de salvar estes pobres homens. Mas o atrasado governo deste país (de cujo nome, entretanto, já ninguém se lembra), e os seus corruptos dirigentes, são incapazes de o fazer sem a sua ajuda. Assim Jack apressa-se em construir a sua super-broca-mega-potente que irá perfurar as rudes terras andinas, penetrando heroicamente no subsolo em busca dos mineiros. E justo na altura em que pensava que iam todos morrer, incluindo ele próprio, eis que aparece, por entre os escombros de terra empedrada, a cabeça do pequeno Juanitow, assim como a do Carrlows. A orquestra recomeça a tocar.
Fazem todos uma grande festa para celebrar o sucesso desta missão, abraçando-se e chorando copiosamente; comem enchilladas e bebem tequilla, mesmo se isso são coisas tipicamente mexicanas.
E no fim Jack regressa a sua casa, levando como lembrança presentes oferecidos pelas mulheres dos mineiros: uma piñata e um sombrrerow.
Com efeito, há que reparar que esta tragédia, não obstante o facto de ser manifestamente um autêntico terror para aqueles que a vivem, tem todos os ingredientes para aqueloutros, que nela vêm uma possível galinha dos ovos de ouro cinematográfica.
A própria comunicação social não tardou, nesse aspecto, a fazer o seu papel. Já nos pôs a par das pequenas curiosidades relativas aos protagonistas deste lamentável acidente, através de reportagens sobre o dia-a-dia das mulheres dos ditos cujos, mostrando fotografias do mais novo e do mais velho dentre eles, e explicando quem são os engenheiros da NASA que os irão salvar.
O filme vai ser bastante simples de realizar, até porque grande parte do enredo se constrói por si só.
É claro que a trama não começa no Chile, como seria de supor caso a produção viesse a ser outra, mas em Nova Iorque. Estamos em casa de Jack, um bonito e bondoso engenheiro da NASA, que vive com a mulher, filhos, e cão, que gostam todos muito dele. Inesperadamente, é chamado para uma missão dificílima: resgatar 33 mineiros soterrados. É o único que o poderá fazer, pois apenas ele possui a técnica e a coragem necessárias. Para isso, terá que se deslocar a uma terra muito distante e desconhecida, que é deveras atrasada, e que precisa urgentemente da ajuda americana: o Txeeléi.
Despede-se da família, ao som de uma orquestra, e segue viagem, de cabelo ao vento. Ao chegar, depara-se com um cenário catastrófico: pobreza, corrupção, violência. E, claro, graças ao teor impuro da água, apanha logo uma valente dor de barriga. Mas nada para o bravo Jack.
É só aqui que se começa a contar a história destes povos misteriosos dos quais nunca ninguém ouviu falar. E dos trabalhadores que, por obra de uma empresa mineira corrupta e mal qualificada, ficaram soterrados a 700 metros de profundidade. A imagem destes homens é, obviamente, mostrada através de uma visão imperialisto-colonialista, graças à qual aparecem como gente rude e pouco desenvolvida. O que não será muito difícil de fazer, já que eles estão a viver numa gruta.
Surge a necessidade de explorar a história do ponto de vista humano, mostrando o drama da sobrevivência do mais novo e do mais velho dos mineiros. O mais novo, Juanitow, é um jovem de 16 anos que tem uma vida inteira pela frente, caso consiga escapar vivo. A mãe e a irmã chorosas sofrem por ele lá em cima, sendo que o seu pai já tinha em tempos falecido num acidente do mesmo tipo. O mais velho, Carrlows, é um homem bravo e calmo, velho índio paternalista, que acaba por exercer essa mesma função junto de Juanitow, e os dois tornam-se grandes companheiros. Tem a sua mulher lá em cima, que chora, juntamente com a família do mais novo.
Ao acompanhar o drama destas famílias, Jack começa a criar um laço emocional com elas (isto é ilustrado pelas cenas em que ele tenta mostrar às mulheres como falar com os mineiros através de vídeo-conferência, caso em que terá também de explicar o que é um vídeo, o que é um microfone, o que é um computador, etc). Assim sendo, começa a perceber que os chilenos são “pessoas como ele” que “também têm sentimentos”. O pequeno Juanitow, por exemplo, com o seu espírito vivaz e esperto, faz-lhe lembrar o seu próprio filho, Jack Jr, que ficou em Nova Iorque.
E, graças às suas extraordinárias qualidades didácticas, Jack consegue ensinar o jovem Juanitow e o velho Carrlows a ler e escrever, através de vídeo-conferência.
Assim cresce a necessidade de salvar estes pobres homens. Mas o atrasado governo deste país (de cujo nome, entretanto, já ninguém se lembra), e os seus corruptos dirigentes, são incapazes de o fazer sem a sua ajuda. Assim Jack apressa-se em construir a sua super-broca-mega-potente que irá perfurar as rudes terras andinas, penetrando heroicamente no subsolo em busca dos mineiros. E justo na altura em que pensava que iam todos morrer, incluindo ele próprio, eis que aparece, por entre os escombros de terra empedrada, a cabeça do pequeno Juanitow, assim como a do Carrlows. A orquestra recomeça a tocar.
Fazem todos uma grande festa para celebrar o sucesso desta missão, abraçando-se e chorando copiosamente; comem enchilladas e bebem tequilla, mesmo se isso são coisas tipicamente mexicanas.
E no fim Jack regressa a sua casa, levando como lembrança presentes oferecidos pelas mulheres dos mineiros: uma piñata e um sombrrerow.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Enquanto isso, mesmo aqui ao lado...
Saímos de casa com as chaves do carro na mão, a caminho da praia. Passamos os olhos pela bancada de revistas, e enquanto pedimos uma garrafa de água e um maço de cigarros folheamos as notícias. Uma mulher sem nariz. Um membro do governo discursa demagogicamente sobre a retoma económica portuguesa. Uma mulher sem orelhas. Mais um incêndio em São Pedro do Sul. Uma mulher vai ser morta à pedrada. Nada de novo.
E quem eram aquelas? No caminho para a Costa da Caparica, entre os telefonemas do escritório e a música na rádio, já nem nos lembramos. Ah, nada de novo… Provavelmente só mais uma história de talibãs, coisas que se passam do outro lado do mundo, ao fundo de uma outra vida. Por isso viramos as costas, metemos a mudança, e perguntamo-nos se temos moedas para a portagem.
Mas elas não vão à praia:

Bibi Aisha: foi torturada e abusada pela família do marido, com quem fora forçada a casar. Depois de tentar fugir de casa, o tribunal talibã decidiu cortar-lhe o nariz e as orelhas por ter “ferido a honra da família”.
Sakineh Mohammadi Ashtiani: condenada à morte por lapidação, pelo crime de adultério.
Não nos podemos realmente culpar, pelo menos directamente, por situações como estas passarem ao lado muita gente. Hoje em dia, graças a uma sobredosagem de informação, fazer a triagem pode ser uma tarefa difícil. Sobretudo quando se está cansado após um dia de trabalho que nos sugou a alma, e tornou apáticos em relação ao mundo que nos rodeia. Bibi Aisha e Ashtiani passam facilmente despercebidas no meio de tantas outras notícias sobre os incêndios, quezilas políticas, e o crime-mistério da moda. Talvez a culpa seja um pouco dos órgãos de comunicação social, que dão menos importância ao que se passa lá fora, por muito mais importante que seja. Ou de quem manda neles, e que obriga a que as notícias sejam expostas de uma determinada maneira. Ou nossa, que mandamos nas audiências.
Que as mulheres são, em certos países, torturadas até à morte só por serem mulheres, já não é grande novidade (mas o que eu queria mesmo era saber se o Duarte Lima teve ou não algum envolvimento na morte da senhora Rosalina Ribeiro, e por isso mudo de canal).
Se temos acesso a um certo nível de vida, há que tomar consciência de que, a não mais do que seis horas de voo de onde nos encontramos, outros seres humanos estão a ser sujeitos a condições degradantes, pelo simples facto de terem nascido com o sexo “errado”. Na era da informação, com os meios que temos ao nosso dispor, cabe a cada cidadão divulgar estas situações para que elas não se arrastem.

Para quem tem dúvidas em relação ao que é a morte por lapidação, começa assim.
E quem eram aquelas? No caminho para a Costa da Caparica, entre os telefonemas do escritório e a música na rádio, já nem nos lembramos. Ah, nada de novo… Provavelmente só mais uma história de talibãs, coisas que se passam do outro lado do mundo, ao fundo de uma outra vida. Por isso viramos as costas, metemos a mudança, e perguntamo-nos se temos moedas para a portagem.
Mas elas não vão à praia:

Bibi Aisha: foi torturada e abusada pela família do marido, com quem fora forçada a casar. Depois de tentar fugir de casa, o tribunal talibã decidiu cortar-lhe o nariz e as orelhas por ter “ferido a honra da família”.
Sakineh Mohammadi Ashtiani: condenada à morte por lapidação, pelo crime de adultério.Não nos podemos realmente culpar, pelo menos directamente, por situações como estas passarem ao lado muita gente. Hoje em dia, graças a uma sobredosagem de informação, fazer a triagem pode ser uma tarefa difícil. Sobretudo quando se está cansado após um dia de trabalho que nos sugou a alma, e tornou apáticos em relação ao mundo que nos rodeia. Bibi Aisha e Ashtiani passam facilmente despercebidas no meio de tantas outras notícias sobre os incêndios, quezilas políticas, e o crime-mistério da moda. Talvez a culpa seja um pouco dos órgãos de comunicação social, que dão menos importância ao que se passa lá fora, por muito mais importante que seja. Ou de quem manda neles, e que obriga a que as notícias sejam expostas de uma determinada maneira. Ou nossa, que mandamos nas audiências.
Que as mulheres são, em certos países, torturadas até à morte só por serem mulheres, já não é grande novidade (mas o que eu queria mesmo era saber se o Duarte Lima teve ou não algum envolvimento na morte da senhora Rosalina Ribeiro, e por isso mudo de canal).
Se temos acesso a um certo nível de vida, há que tomar consciência de que, a não mais do que seis horas de voo de onde nos encontramos, outros seres humanos estão a ser sujeitos a condições degradantes, pelo simples facto de terem nascido com o sexo “errado”. Na era da informação, com os meios que temos ao nosso dispor, cabe a cada cidadão divulgar estas situações para que elas não se arrastem.

Para quem tem dúvidas em relação ao que é a morte por lapidação, começa assim.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Pessoas que têm amigos famosos imaginários
Numa altura em que o país está em crise, e metade do Mundo a ser dizimada por catástrofes naturais de proporções bíblicas, sinto que me cabe a mim chamar à atenção para um não menos preocupante flagelo da humanidade: aquelas pessoas que falam de gente famosa usando apenas o seu primeiro nome, mesmo não a conhecendo de lado nenhum.
Ora imaginemos um exemplo. Os interlocutores aqui sou eu, e uma Pessoa que tem um Amigo Famoso Imaginário (PTAFI):
Eu: Então, vais ficar em casa hoje à noite?
PTAFI: Épá não, vou jantar fora, mas antes queria ver o programa da Diana.
Eu: De quem?
PTAFI: Da Diana! Aquele que dá na SIC, ao fim da tarde – responde o meu interlocutor, com um ar de superioridade, como se eu fosse mesmo uma ignorante por não conhecer a “Diana”.
Nota: esta pessoa conheceu uma vez a Diana Chaves, num jantar, pois tem uma prima cujo namorado é por sua vez irmão da tia da vizinha desta figura pública. Desde então nunca mais a viu, e isso foi há dois anos atrás.
Indivíduos incomodativos deste tipo aparecem, infelizmente, com crescente frequência; pelo menos no meu dia-a-dia. Não entendendo este fenómeno, mas deparando-me nele com cada vez maior assiduidade, decidi dedicar-lhe neste pequeno espaço algumas linhas de reflexão.
Será assim tão difícil para certas pessoas perceber que este comportamento é na verdade profundamente irritante, e não imensamentemente cool como eles possam talvez julgar?
Começo a perceber que, chegando a uma certa idade, há quem não se conforme com o caminho que a sua vida começa a seguir. Não se é convidado para festas do jet-set, não se aparece na televisão, não se contribui significativamente para a sociedade (pelo menos não o suficiente para se ser reconhecido por isso na praça pública). (Atenção: a meu ver, isto não coloca problema de espécie alguma. Existem muitas outras maneiras de se ser um ser humano completo e feliz, esta não contando necessariamente entre elas. No entanto, pelos vistos, muitos parecem não partilhar desta opinião). Assim sendo, só resta e estes indivíduos fingir desesperadamente, tentando construir uma imagem errónea de si mesmos. Possivelmente para se sentirem mais conformados com a sua suposta malfadada existência.
E, assim sendo, falam de pessoas famosas com a maior familiaridade, como se de facto partilhassem uma relação íntima com elas. O que as leva a crer, subentendo, que isso as torna pessoas muitíssimo interessantes.
Correndo o risco de parecer demasiado revolucionária na minha maneira de pensar, atrevo-me no entanto a afirmar que não me parece, nem por um segundo, que este tipo de atitudes sejam abonatórias a favor de ninguém. Com a facilidade com que se é famoso hoje em dia, e tendo em conta que para isso nem sequer são necessários muitos requisitos, não percebo porque é que estas pessoas, que têm amigos famosos imaginários, não se tornam elas mesmos famosas de uma vez por todas. Já que isso parece ter um fascínio qualquer para as suas existências.
E agora, se me permitem, tenho de me retirar, para assistir ao Telejornal. É que estou curiosa em relação ao que o José vai dizer hoje, em relação à ameaça que o Pedro fez de chumbar o Orçamento de Estado para 2011.
Ora imaginemos um exemplo. Os interlocutores aqui sou eu, e uma Pessoa que tem um Amigo Famoso Imaginário (PTAFI):
Eu: Então, vais ficar em casa hoje à noite?
PTAFI: Épá não, vou jantar fora, mas antes queria ver o programa da Diana.
Eu: De quem?
PTAFI: Da Diana! Aquele que dá na SIC, ao fim da tarde – responde o meu interlocutor, com um ar de superioridade, como se eu fosse mesmo uma ignorante por não conhecer a “Diana”.
Nota: esta pessoa conheceu uma vez a Diana Chaves, num jantar, pois tem uma prima cujo namorado é por sua vez irmão da tia da vizinha desta figura pública. Desde então nunca mais a viu, e isso foi há dois anos atrás.
Indivíduos incomodativos deste tipo aparecem, infelizmente, com crescente frequência; pelo menos no meu dia-a-dia. Não entendendo este fenómeno, mas deparando-me nele com cada vez maior assiduidade, decidi dedicar-lhe neste pequeno espaço algumas linhas de reflexão.
Será assim tão difícil para certas pessoas perceber que este comportamento é na verdade profundamente irritante, e não imensamentemente cool como eles possam talvez julgar?
Começo a perceber que, chegando a uma certa idade, há quem não se conforme com o caminho que a sua vida começa a seguir. Não se é convidado para festas do jet-set, não se aparece na televisão, não se contribui significativamente para a sociedade (pelo menos não o suficiente para se ser reconhecido por isso na praça pública). (Atenção: a meu ver, isto não coloca problema de espécie alguma. Existem muitas outras maneiras de se ser um ser humano completo e feliz, esta não contando necessariamente entre elas. No entanto, pelos vistos, muitos parecem não partilhar desta opinião). Assim sendo, só resta e estes indivíduos fingir desesperadamente, tentando construir uma imagem errónea de si mesmos. Possivelmente para se sentirem mais conformados com a sua suposta malfadada existência.
E, assim sendo, falam de pessoas famosas com a maior familiaridade, como se de facto partilhassem uma relação íntima com elas. O que as leva a crer, subentendo, que isso as torna pessoas muitíssimo interessantes.
Correndo o risco de parecer demasiado revolucionária na minha maneira de pensar, atrevo-me no entanto a afirmar que não me parece, nem por um segundo, que este tipo de atitudes sejam abonatórias a favor de ninguém. Com a facilidade com que se é famoso hoje em dia, e tendo em conta que para isso nem sequer são necessários muitos requisitos, não percebo porque é que estas pessoas, que têm amigos famosos imaginários, não se tornam elas mesmos famosas de uma vez por todas. Já que isso parece ter um fascínio qualquer para as suas existências.
E agora, se me permitem, tenho de me retirar, para assistir ao Telejornal. É que estou curiosa em relação ao que o José vai dizer hoje, em relação à ameaça que o Pedro fez de chumbar o Orçamento de Estado para 2011.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O maior loser
O calor aperta, e é nesta altura que surgem inevitavelmente os mais profundos dramas relacionados com a forma física, ou com a falta dela. Se, durante o resto do ano, o nosso corpo pouco trabalhado se conseguiu esquivar da luz do dia graças às generosas camadas de tecido, o Verão chega impiedoso, e vem impossibilitar qualquer disfarce. Rebentou a bolha de negação, feita das camisolas, que tão amorosamente nos envolveu estes meses todos; e somos obrigados a enfrentar a realidade: já lá vão longe os tempos de adolescência. A nova geração é um exército de gafanhotos bronzeados, com mais meio metro e menos dez quilos do que nós.
Por isso atiro com o biquíni para o fundo do armário, e decido que o mundo lá fora é demasiado duro para mim. Arrasto-me, de chinelos e pijama da Hello Kitty, para a sala. E decido passar o dia em casa a ver televisão, com o objectivo final de me transformar numa almôndega. Acompanham-me uma tablete de chocolate e dois pacotes de batatas fritas. Pelo menos eles não fazem perguntas.
Mas eis senão quando, entre a Oprah e o Doctor Phil (sim, eu tive o cuidado de escolher, como modelos visuais, outras pessoas menos atraentes do que eu; faz-me sentir melhor como ser humano), me deparo com isto:
The Biggest Loser é um concurso no qual os vários participantes, homens e mulheres que sofrem de obesidade, estão dispostos a perder cerca de trinta quilos no espaço de algumas semanas, com o objectivo final de ganharem uma pipa de massa, e um corpo decente (além da esperança de, afinal, morrerem um bocadinho mais tarde). Quem os vê, e quem os vir nas emissões finais (sim, sim, eu vi) reconhecerá que o programa realmente funciona, e os finalistas retornam a casa praticamente irreconhecíveis.
A ideia que resta por detrás disto tudo é que aqueles que secretamente usávamos como referência/desculpa para não fazermos exercício físico nem dieta – “Pelo menos não sou assim. Olha, aquela pessoa faz 5 de mim. Ainda tenho um longo caminho a percorrer para me tornar gordo/a, etc” – deixam de o ser. Tudo graças ao poder da motivação (e, como é o caso, talvez também à perspectiva de ganharem o prémio final de 200 000 dólares).
Eis, portanto, algo capaz de agitar as nossas consciências preguiçosas, e de suscitar dúvidas existenciais naqueles que já tinham aceite com tranquilidade a derrota na luta contra o poder da gravidade, como consequência inevitável do decorrer dos anos. Não vale a pensa inventar mais desculpas, porque até estes conseguem mexer os rabos das cadeiras. O dedo acusador do ecrã aponta directamente nesta direcção, e não há esquiva possível. Eles fizeram-no, e, agora, já não há razão para não o fazermos.
Se foi a sociedade de consumo, aliada à globalização, que nos transformou numa população de obesos devoradores de Mc Donalds? Foi. Mas também vai ser ela a transformar-nos num batalhão de clones do He-man.
Por isso atiro com o biquíni para o fundo do armário, e decido que o mundo lá fora é demasiado duro para mim. Arrasto-me, de chinelos e pijama da Hello Kitty, para a sala. E decido passar o dia em casa a ver televisão, com o objectivo final de me transformar numa almôndega. Acompanham-me uma tablete de chocolate e dois pacotes de batatas fritas. Pelo menos eles não fazem perguntas.
Mas eis senão quando, entre a Oprah e o Doctor Phil (sim, eu tive o cuidado de escolher, como modelos visuais, outras pessoas menos atraentes do que eu; faz-me sentir melhor como ser humano), me deparo com isto:
The Biggest Loser é um concurso no qual os vários participantes, homens e mulheres que sofrem de obesidade, estão dispostos a perder cerca de trinta quilos no espaço de algumas semanas, com o objectivo final de ganharem uma pipa de massa, e um corpo decente (além da esperança de, afinal, morrerem um bocadinho mais tarde). Quem os vê, e quem os vir nas emissões finais (sim, sim, eu vi) reconhecerá que o programa realmente funciona, e os finalistas retornam a casa praticamente irreconhecíveis.
A ideia que resta por detrás disto tudo é que aqueles que secretamente usávamos como referência/desculpa para não fazermos exercício físico nem dieta – “Pelo menos não sou assim. Olha, aquela pessoa faz 5 de mim. Ainda tenho um longo caminho a percorrer para me tornar gordo/a, etc” – deixam de o ser. Tudo graças ao poder da motivação (e, como é o caso, talvez também à perspectiva de ganharem o prémio final de 200 000 dólares).
Eis, portanto, algo capaz de agitar as nossas consciências preguiçosas, e de suscitar dúvidas existenciais naqueles que já tinham aceite com tranquilidade a derrota na luta contra o poder da gravidade, como consequência inevitável do decorrer dos anos. Não vale a pensa inventar mais desculpas, porque até estes conseguem mexer os rabos das cadeiras. O dedo acusador do ecrã aponta directamente nesta direcção, e não há esquiva possível. Eles fizeram-no, e, agora, já não há razão para não o fazermos.
Se foi a sociedade de consumo, aliada à globalização, que nos transformou numa população de obesos devoradores de Mc Donalds? Foi. Mas também vai ser ela a transformar-nos num batalhão de clones do He-man.
Subscrever:
Mensagens (Atom)