No decorrer de uma consulta de rotina, deparo-me no facto de que serei obrigada, proximamente, a fazer uma microcirurgia a laser. Nada de grave, apenas uma pequena operação, que pode evitar males maiores. Tem seguro? Pergunta a médica. Não, respondo eu (e não tenho, de momento, por razões que não me cabe aqui explicar). Ao que a senhora contesta imediatamente, levantando a voz, de sobrolho franzido, e postura prepotente: Pois, mas devia ter. (Quem é a senhora para me dizer o que eu devia ou não fazer – seria a resposta ideal, mas em vez disso calo-me, como boa paciente submissa e temente). Ao que se segue o seguinte diálogo:
- Então, como não pode fazê-lo pelo privado, tem de vir ter comigo no dia x às 9h30 da manhã, ao Hospital y. Arranje a morada de alguém lá ao pé, que eu espero por si na consulta de x.
- Está bem, obrigada – respondo eu, mais por cortesia do que pelo facto de me sentir propriamente obrigada a alguma coisa.
- Não tem que me agradecer, ofereça-me antes um livro seu, que ainda não me ofereceu nada.
Fiquei, imediatamente, com muita pena desta senhora doutora, que nunca tinha recebido nenhum presente meu! Como fui capaz de tal negligência? Para além dos cem euros por consulta, e das 3 horas na sala de espera, havia-me completamente esquecido de que, em decorrência lógica do simples facto de ser sua paciente, devia também trazer a Suma Divindade do Olimpo oferendas, para lhe acalmar a ira. Ou seja, se ganhamos 1/10º do seu salário, e somos tratados a despachar, devemos ainda pagar-lhe dízimos, à boa maneira medieval.
Claro, mas a médica mesmo assim foi uma porreira – pensava eu, ao entrar nesse dia no malogrado hospital, a quilómetros e quilómetros da minha casa – atende-me aqui, mesmo sabendo que não vivo no xy#*% (ao contrário do que agora diz a minha ficha). Espero meia hora. Nada. Ninguém sabe da doutora. Mas os médicos chegam sempre atrasados, vá-se lá saber porquê, enfim, é natural. Uma hora. Nada. Em vez disso, entretenho-me a observar o corredor (sim, estou de pé, e o consultório é ao lado de uma casa de banho) vão passando grupos de jovens estagiários aflitos, e médicas brejeiras dando-lhes indicações em altos berros, no que se parece com a série televisiva Grey’s Anatomy, versão Bairro das Fontainhas. Há também os velhotes queixosos em cadeiras de rodas, a quem as enfermeiras tratam condescendentemente, como se fossem crianças de 4 anos. Pessoas que levam respostas tortas dos funcionários, e que não se atrevem a dizer nada, por humildade, e por medo de verem o seu serviço atrasado ainda mais. Gente, gente. Tudo isto e muito mais, porque entretanto já passaram duas horas. Cadeiras para quê? É um hospital público, o povo que aguente, durante horas, de pé ou sentado no chão. Como alternativa, tem uma minúscula e atulhada sala de espera em que os pacientes enlatados - gemendo, tossindo, chorando, coçando-se - podem ver os vírus condensarem-se nos vidros embaciados pelas suas simultâneas respirações. Apesar de ser um facto que aí dentro está muito mais quentinho.
E eis senão quando, aparece um senhor da secretaria.
- Era só para a informar, de que a doutora afinal não vem – diz ele, num tom displicente e casual, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.
- Mas ela já na quinta-feira passada não apareceu, e disse-me que voltasse hoje! – contesta timidamente uma senhora de idade ao meu lado.
Que voltasse para a semana. Porque, afinal de contas, a graça da sua presença não é concedida todos os dias, mesmo que a tal se tenha comprometido. Se lhe tivéssemos dado um presente, talvez fosse mais simpática?
Daqui se depreende que a coisa funcione mais ou menos assim: o paciente perde um dia de trabalho, desmarca compromissos, muda a sua vida, acorda cedo para ir para xy*#& às nove da manhã, fica 3 horas à espera em pé, em condições sensivelmente sinistras; e o médico, se calhar, quando lhe apetecer, talvez, se digne a aparecer. Se não, teremos de voltar noutro dia, e fazer tudo de novo, quantas vezes for preciso. A responsabilidade não é de ninguém, e é tudo muito normal.
Porque no que ao nosso sistema de saúde diz respeito, ainda se funciona por castas.
sábado, 16 de outubro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Tentando comprar maçãs
Há quem goste de preencher os seus tempos livres com actividades físicas estimulantes. Estou de acordo. Passar a semana inteira sentado num escritório pode ser deveras entediante, e a inércia, como todos sabemos, não é saudável, e faz mal ao colesterol. Assim sendo, chegando-se ao fim-de-semana, uma boa maneira de desentorpecer os músculos e combater a inacção é fazer jogging no parque, montar a cavalo, ou até mesmo surf. Eu, por outro lado, prefiro passar o meu tempo nas caixas rápidas do supermercado Pão de Açúcar.
Com efeito, cada vez que terminei grande parte do trabalho para a semana, percebo que se escasseiam as desculpas para sobreviver à base de Mc Donals, Pizza Huts; e outras coisas que vão contribuindo para que daqui a uns anos as minhas veias se pareçam, de tão entupidas, com uma manhã no IC19. E assim sendo, decidindo que está na hora de começar a ingerir alimentos saudáveis, vou ao Pão de Açúcar, onde existem estas magnificas caixas rápidas (parece que também as há no Continente, só que essas para mim já ficam um pouco fora de mão). Entre mim e as caixas-rápidas-self-service-faça-você-mesmo deste supermercado já existe todo um historial, que remonta a largos anos. Mas prometo ser breve.
Acontece que, dando de caras com o facto de todas as outras estarem ocupadas com filas de 20 metros, é inevitável que nos lancemos nesta magnifica aventura, que promete “ser super prática, e fazer-nos poupar imenso tempo”. É mentira.
Primeiro, porque mesmo que à nossa frente apenas estejam 4 ou 5 pessoas, o que cria assim a ilusão de que nos vamos despachar relativamente cedo, é com grande desagrado que constatamos, ao aproximar-nos, que na verdade apenas existem duas caixas a funcionar, e as dez restantes estão fora de serviço devido a “problemas técnicos”. Depois, percebemos que nos cabe esperar um bom bocado porque à nossa frente estão muitas pessoas de idade (ninguém mandou vir fazer compras a um feriado de manhã), que demoram a compreender como funcionam estes novos métodos. É frequente vê-las semi-cerrar os olhos, esbracejando, confusas, à frente do ecrã, à medida que vão lentamente passando os produtos pelo sensor. Não seria assim tão mau, se não tivessem decidido comprar meio supermercado.
Quando, meia hora depois, alguma caixa se liberta, embirramos com a pessoa à nossa frente, porque olha para o boneco em vez de perceber que já podia avançar. Tocamos-lhe ao de leve no ombro, dizemos “olhe” com um ar enjoado, e suspiramos muito, resmungando baixinho “andam a dormir”. No entanto, quando chega a nossa vez, constatamos com desespero que o nosso campo de visão não nos permite ver que caixa fica livre nem quando, o que faz com que andemos de um lado para o outro, muito aflitos, de pescoço esticado, a tentar perceber se já podemos avançar. Nessa altura, não é raro termos já alguém atrás de nós a tocar-nos ao de leve no ombro, e a dizer “olhe”.
Chegou finalmente a nossa vez, e caminhamos, apressada e entusiasticamente, para o lugar. Mas é aqui que surgem questões e dúvidas existenciais que nunca dantes se nos tinham posto na vida. Contemplando abismados o ecrã, percebemos que não fazemos na realidade a mínima ideia se o que temos à nossa frente são “maçãs fuji”, “maçãs golden”, ou “maçãs golden vida Auchan”.

E as peras que escolhemos, serão “pêra william’s ou “pêra rocha do oeste”? Quando achávamos que as coisas não podiam piorar, eis que os produtos não passam no scanner; e, finalmente, a máquina começa a emitir mensagens sem sentido, e a apitar altíssimo. Carregamos, em pânico, no botãozinho que chama a senhora. Começamos a sentir uma grande pressão, e olhares matadores atrás de nós.
Quando a assistente finalmente chega, diz-nos, ao fim de uma breve análise, que não há nada a fazer. A nossa caixa deixou simplesmente de funcionar, devido a problemas técnicos. Face a isto, resta-nos, se ainda o quisermos, esperar mais 20 horas numa das outras. E assim se passa um magnífico feriado.
Com efeito, cada vez que terminei grande parte do trabalho para a semana, percebo que se escasseiam as desculpas para sobreviver à base de Mc Donals, Pizza Huts; e outras coisas que vão contribuindo para que daqui a uns anos as minhas veias se pareçam, de tão entupidas, com uma manhã no IC19. E assim sendo, decidindo que está na hora de começar a ingerir alimentos saudáveis, vou ao Pão de Açúcar, onde existem estas magnificas caixas rápidas (parece que também as há no Continente, só que essas para mim já ficam um pouco fora de mão). Entre mim e as caixas-rápidas-self-service-faça-você-mesmo deste supermercado já existe todo um historial, que remonta a largos anos. Mas prometo ser breve.
Acontece que, dando de caras com o facto de todas as outras estarem ocupadas com filas de 20 metros, é inevitável que nos lancemos nesta magnifica aventura, que promete “ser super prática, e fazer-nos poupar imenso tempo”. É mentira.
Primeiro, porque mesmo que à nossa frente apenas estejam 4 ou 5 pessoas, o que cria assim a ilusão de que nos vamos despachar relativamente cedo, é com grande desagrado que constatamos, ao aproximar-nos, que na verdade apenas existem duas caixas a funcionar, e as dez restantes estão fora de serviço devido a “problemas técnicos”. Depois, percebemos que nos cabe esperar um bom bocado porque à nossa frente estão muitas pessoas de idade (ninguém mandou vir fazer compras a um feriado de manhã), que demoram a compreender como funcionam estes novos métodos. É frequente vê-las semi-cerrar os olhos, esbracejando, confusas, à frente do ecrã, à medida que vão lentamente passando os produtos pelo sensor. Não seria assim tão mau, se não tivessem decidido comprar meio supermercado.
Quando, meia hora depois, alguma caixa se liberta, embirramos com a pessoa à nossa frente, porque olha para o boneco em vez de perceber que já podia avançar. Tocamos-lhe ao de leve no ombro, dizemos “olhe” com um ar enjoado, e suspiramos muito, resmungando baixinho “andam a dormir”. No entanto, quando chega a nossa vez, constatamos com desespero que o nosso campo de visão não nos permite ver que caixa fica livre nem quando, o que faz com que andemos de um lado para o outro, muito aflitos, de pescoço esticado, a tentar perceber se já podemos avançar. Nessa altura, não é raro termos já alguém atrás de nós a tocar-nos ao de leve no ombro, e a dizer “olhe”.
Chegou finalmente a nossa vez, e caminhamos, apressada e entusiasticamente, para o lugar. Mas é aqui que surgem questões e dúvidas existenciais que nunca dantes se nos tinham posto na vida. Contemplando abismados o ecrã, percebemos que não fazemos na realidade a mínima ideia se o que temos à nossa frente são “maçãs fuji”, “maçãs golden”, ou “maçãs golden vida Auchan”.

E as peras que escolhemos, serão “pêra william’s ou “pêra rocha do oeste”? Quando achávamos que as coisas não podiam piorar, eis que os produtos não passam no scanner; e, finalmente, a máquina começa a emitir mensagens sem sentido, e a apitar altíssimo. Carregamos, em pânico, no botãozinho que chama a senhora. Começamos a sentir uma grande pressão, e olhares matadores atrás de nós.
Quando a assistente finalmente chega, diz-nos, ao fim de uma breve análise, que não há nada a fazer. A nossa caixa deixou simplesmente de funcionar, devido a problemas técnicos. Face a isto, resta-nos, se ainda o quisermos, esperar mais 20 horas numa das outras. E assim se passa um magnífico feriado.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Amigos de infância
A propósito do 70º aniversário da banda desenhada Tintin em Portugal, voltei a lembrar-me dos famosos bonecos que passavam na RTP: Les aventures de Tintin – objectif Lune, que fizeram as maravilhas das manhãs de fim-de-semana de toda uma geração. Pondo aqui algumas questões de parte para outro tipo de discussão (Será que Tintin era homossexual? E o Capitão Haddock, sofria de alcoolismo?), ir-me-ei agora centrar neste tema tão saudosista que é o dos grandes ícones da nossa infância.
É com enorme nostalgia que recordo esse, e outros que tais: Widget, o Guardião da Terra, o Pai Castor, Heathcliff o gato, e, claro, o Bocas. Na altura dos quatro canais, era bem fácil a um punhado de pequenos e maravilhosos bonecos influenciar todos e todas. E, assim, as crianças do país inteiro uniam-se em torno de umas quantas figuras muito características. Quando fossemos grandes, queríamos ser como eles.
Eu, que não tenho filhos (nem faço tenção de ter tão cedo, para grande infortúnio da minha avó), não possuo na verdade muita informação no que diz respeito ao que se passa hoje em dia dentro dos cérebros mais jovens. Mas presumo que muitos fiquem confusos com a quantidade de programas infantis que se encontram à sua disposição. Quais serão os seus modelos, quais serão os seus heróis? A par do Nodi, e Bob o Construtor, não conheço nenhum; mas presumo que existam muitos mais. Um enorme exército de diversificadíssimas personagens, fruto originário de uma grande baralhação mental.
Porque, em vinte anos, as coisas mudaram bastante. Com as Playstation, os 300 canais de televisão, e a Internet; as crianças crescem bombardeadas por muito mais informação e possibilidades do que antigamente. Onde estava a rudimentar Megadrive com o Sonic aos pulinhos, aparece agora uma infinita panóplia de jogos interactivos em que personagens absolutamente realistas morrem das mais variadas e impiedosas maneiras, em batalhas inclementes e sanguinárias, munidas de armas de uma complexidade extrema (não esquecer que os autores do atentado de 11 de Setembro foram eles próprios treinados, entre outras coisas, por um simples jogo de computador).
E longe vão os anos em que todas as criancinhas portuguesas sintonizavam a TVI ao mesmo tempo, à hora do lanche, para ver a Casa do Tio Carlos.
No dia em que mostrarmos aos nossos filhos coisas como esta:
Eles rir-se-ão, condescendentemente, como nós fazíamos quando os nossos pais ou avós nos tentavam impingir os seus peluches de trapo esfarrapados, ou ensinar-nos o “Jogo da Glória”.
E em relação a este
Para quem, como eu, ainda tinha dúvidas:
Welke os kan ons iets leren?
Boes Boes
Boes Boes
En een fietsband repareren?
Boes Boes
Boes Boes
Rock 'n Roll en ook nog de Samba
danst hij met je mee
Wie laat zich niet koeioneren?
Boes Boes
Boes Boes
Boes Boes
Boes Boes
Sim, também só agora é que reparei que escutávamos o genérico deste famoso desenho animado em holandês. Coisas como esta são susceptíveis de dar todo um novo twist à vida de uma pessoa
É com enorme nostalgia que recordo esse, e outros que tais: Widget, o Guardião da Terra, o Pai Castor, Heathcliff o gato, e, claro, o Bocas. Na altura dos quatro canais, era bem fácil a um punhado de pequenos e maravilhosos bonecos influenciar todos e todas. E, assim, as crianças do país inteiro uniam-se em torno de umas quantas figuras muito características. Quando fossemos grandes, queríamos ser como eles.
Eu, que não tenho filhos (nem faço tenção de ter tão cedo, para grande infortúnio da minha avó), não possuo na verdade muita informação no que diz respeito ao que se passa hoje em dia dentro dos cérebros mais jovens. Mas presumo que muitos fiquem confusos com a quantidade de programas infantis que se encontram à sua disposição. Quais serão os seus modelos, quais serão os seus heróis? A par do Nodi, e Bob o Construtor, não conheço nenhum; mas presumo que existam muitos mais. Um enorme exército de diversificadíssimas personagens, fruto originário de uma grande baralhação mental.
Porque, em vinte anos, as coisas mudaram bastante. Com as Playstation, os 300 canais de televisão, e a Internet; as crianças crescem bombardeadas por muito mais informação e possibilidades do que antigamente. Onde estava a rudimentar Megadrive com o Sonic aos pulinhos, aparece agora uma infinita panóplia de jogos interactivos em que personagens absolutamente realistas morrem das mais variadas e impiedosas maneiras, em batalhas inclementes e sanguinárias, munidas de armas de uma complexidade extrema (não esquecer que os autores do atentado de 11 de Setembro foram eles próprios treinados, entre outras coisas, por um simples jogo de computador).
E longe vão os anos em que todas as criancinhas portuguesas sintonizavam a TVI ao mesmo tempo, à hora do lanche, para ver a Casa do Tio Carlos.
No dia em que mostrarmos aos nossos filhos coisas como esta:
Eles rir-se-ão, condescendentemente, como nós fazíamos quando os nossos pais ou avós nos tentavam impingir os seus peluches de trapo esfarrapados, ou ensinar-nos o “Jogo da Glória”.
E em relação a este
Para quem, como eu, ainda tinha dúvidas:
Welke os kan ons iets leren?
Boes Boes
Boes Boes
En een fietsband repareren?
Boes Boes
Boes Boes
Rock 'n Roll en ook nog de Samba
danst hij met je mee
Wie laat zich niet koeioneren?
Boes Boes
Boes Boes
Boes Boes
Boes Boes
Sim, também só agora é que reparei que escutávamos o genérico deste famoso desenho animado em holandês. Coisas como esta são susceptíveis de dar todo um novo twist à vida de uma pessoa
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
As amigas porteiras
É frequentemente dito por portugueses que habitam outros países, à laia de queixume, que viver numa grande cidade europeia pode ser uma experiência difícil e solitária; por os seus habitantes serem muito mais metidos com eles próprios, e pouco afáveis para com os desconhecidos, do que nós. Não é estranho escutar, para esse efeito, algum comentário indignado, tal como: “Vivi três anos no mesmo apartamento em Paris, e nunca conheci os meus vizinhos!”. Assim ilustrando até que ponto é “frio e insensível” o clima nessas cidades; por oposição a Portugal, um pequeno país em que toda a gente se conhece.
Ora, eu não vejo mal nenhum no facto de alguém nunca ter conhecido os seus vizinhos. Vivendo em Portugal, conheço os meus, e não se pode dizer que seja uma pessoa mais feliz por isso. Bem vistas as coisas, até preferia que muitos deles fossem “frios e insensíveis”.
Vivo numa rua em pleno centro de Lisboa, dominada por uma sociedade paralela de porteiras, a cujos olhos perscrutadores e ouvido afinado nenhum pormenor escapa, e que conhecem a história de vida completa de cada um dos moradores. Andam aos pares - como polícias à paisana - chinelando sinuosamente e bamboleando os seus largos traseiros pela rua, ao mesmo tempo que trespassam os transeuntes com o olhar, e limpam ao avental as mãos sujas de cozido. Algumas possuem mesmo um banquinho instalado em pleno passeio, no qual se sentam o dia todo, para melhor contemplar o que se passa, ao mesmo tempo que murmuram comentários umas para as outras. Dando, claro, uma ocasional olhadela nas revistas de intrigas cor-de-rosa.
Posto isto, há também o cabeleireiro, ao virar da esquina. Mas suponho que, para os interessados, esse não seja uma fonte de informação tão segura. Pois, apesar dos louvados esforços das suas diligentes funcionárias, as informações por estas últimas providenciadas são susceptíveis de estarem incorrectas. De facto, da última vez que lá fui, houve uma senhora que me perguntou como é que estava o meu filho (e eu não tenho filhos).
Existe também o café, o ponto de encontro por excelência da coscuvilhice, no qual são passadas em revista as últimas notícias do bairro. Os empregados escutam atentamente a conversa, e vão por sua vez fazer o briefing às porteiras, ou às cabeleireiras, assim democratizando o acesso à informação na zona. Não é de estranhar, portanto, que o morador venha a saber (mesmo não o querendo) da vida de pessoas que não conhece, e pormenores sobre indivíduos com os quais não partilha, nem faz tenções de partilhar, a mínima intimidade.
Porque na minha rua, eu sei perfeitamente quem são os meus vizinhos (assim como quantos filhos têm, as respectivas profissões, e as vezes que mandar arranjar a casa de banho), mas devo dizer no entanto que isso não contribui em nada para a minha felicidade.
Depois de viver um ano e meio em Amesterdão, nunca soube quem eram os meus vizinhos. Mas também não se ouviam sussurros, nem comentários cada vez que algum deles passava. Em Amesterdão, os empregados do restaurante em frente não conheciam os senhores da Farmácia ao lado. Mas se algum laço se estabelecesse entre eles, não seria porventura para dizerem mal ou se queixarem uns dos outros, mas sim uma relação cordial ou uma amizade.
É assim tão negativo viver numa sociedade com limites pessoais de respeito mútuo, na qual a vida dos outros não possui grande importância para o nosso desenvolvimento pessoal?
Ora, eu não vejo mal nenhum no facto de alguém nunca ter conhecido os seus vizinhos. Vivendo em Portugal, conheço os meus, e não se pode dizer que seja uma pessoa mais feliz por isso. Bem vistas as coisas, até preferia que muitos deles fossem “frios e insensíveis”.
Vivo numa rua em pleno centro de Lisboa, dominada por uma sociedade paralela de porteiras, a cujos olhos perscrutadores e ouvido afinado nenhum pormenor escapa, e que conhecem a história de vida completa de cada um dos moradores. Andam aos pares - como polícias à paisana - chinelando sinuosamente e bamboleando os seus largos traseiros pela rua, ao mesmo tempo que trespassam os transeuntes com o olhar, e limpam ao avental as mãos sujas de cozido. Algumas possuem mesmo um banquinho instalado em pleno passeio, no qual se sentam o dia todo, para melhor contemplar o que se passa, ao mesmo tempo que murmuram comentários umas para as outras. Dando, claro, uma ocasional olhadela nas revistas de intrigas cor-de-rosa.
Posto isto, há também o cabeleireiro, ao virar da esquina. Mas suponho que, para os interessados, esse não seja uma fonte de informação tão segura. Pois, apesar dos louvados esforços das suas diligentes funcionárias, as informações por estas últimas providenciadas são susceptíveis de estarem incorrectas. De facto, da última vez que lá fui, houve uma senhora que me perguntou como é que estava o meu filho (e eu não tenho filhos).
Existe também o café, o ponto de encontro por excelência da coscuvilhice, no qual são passadas em revista as últimas notícias do bairro. Os empregados escutam atentamente a conversa, e vão por sua vez fazer o briefing às porteiras, ou às cabeleireiras, assim democratizando o acesso à informação na zona. Não é de estranhar, portanto, que o morador venha a saber (mesmo não o querendo) da vida de pessoas que não conhece, e pormenores sobre indivíduos com os quais não partilha, nem faz tenções de partilhar, a mínima intimidade.
Porque na minha rua, eu sei perfeitamente quem são os meus vizinhos (assim como quantos filhos têm, as respectivas profissões, e as vezes que mandar arranjar a casa de banho), mas devo dizer no entanto que isso não contribui em nada para a minha felicidade.
Depois de viver um ano e meio em Amesterdão, nunca soube quem eram os meus vizinhos. Mas também não se ouviam sussurros, nem comentários cada vez que algum deles passava. Em Amesterdão, os empregados do restaurante em frente não conheciam os senhores da Farmácia ao lado. Mas se algum laço se estabelecesse entre eles, não seria porventura para dizerem mal ou se queixarem uns dos outros, mas sim uma relação cordial ou uma amizade.
É assim tão negativo viver numa sociedade com limites pessoais de respeito mútuo, na qual a vida dos outros não possui grande importância para o nosso desenvolvimento pessoal?
terça-feira, 14 de setembro de 2010
"Burn a Quran day"
Para grande alívio da comunidade internacional, o dia 11 de Setembro decorreu este fim-de-semana sem incidentes de maior importância. Isto é, ninguém queimo os 200 livros do Alcorão, como tanto o teria desejado o pastor Terry Jones.
O mundo está cheio de “almas iluminadas”, e de pessoas que julgam ser detentoras da verdade absoluta. Muitas facilmente passam despercebidas, resguardando-se no seu pequeno universo pessoal de ideias preconcebidas e ódios recalcados. Outras, como Terry Jones, fazem questão de espernear e de demonstrar aos quatro ventos, para que todos vejam, até que ponto é que certas partes de países ditos evoluídos ainda vivem mentalmente na Idade da Pedra.
Este pastor evangélico do estado da Florida lançou a semana passada um apelo internacional. Diz ele e os seus seguidores que o Alcorão, e o Islão por acréscimo, são “obras do Diabo”, e foram responsáveis pelo massacre do 11 de Setembro. Assim sendo, apelou a que esse mesmo dia deste ano se tornasse no “Dia Internacional da queima do Alcorão”. Finalmente, pressionado pela Casa Branca, e verificando que a sua ideia não fora tão bem abraçada como porventura o esperasse, decidiu abandonar o seu ambicioso projecto.
Para quem ainda não percebeu – e pelos vistos ainda são alguns – o 11 de Setembro foi levado a cabo por fundamentalistas extremistas radicais, que seguem algumas partes do Alcorão à letra, nomeadamente aquelas em que o profeta Maomé incita à guerra contra os infiéis (na altura, ano 600 d.C., estava-se maioritariamente a falar de tribos pagãs nómadas do que é hoje a Arábia Saudita). 1300 anos de evolução depois, o Muçulmano comum reconhece estes versículos como próprios àquela época, não fazendo qualquer sentido no mundo actual. Estava-se de facto num período de guerra sem lei, em que tanto muçulmanos, como cristãos, como judeus, matavam diariamente sem qualquer problema, pois tal era o modo básico de sobrevivência.
De facto, a própria Bíblia faz sucessivas referências às gloriosas batalhas (massacres) que o povo de Israel levou a cabo contra os seus inimigos cananeus, filisteus, etc.
Como é óbvio, a maioria dos muçulmanos não pertence à Al Qaeda. Actualmente, ao Islão correspondem outros valores como a fé, a penitência (jejum no Ramadão), a caridade, a fraternidade, etc. Ou seja, dizer que todo o Islão está empenhado na Jihad será mais ou menos a mesma coisa do que dizer que todos os católicos são o pastor Terry Jones – que ainda vive na época da Santa Inquisição. Pois seguramente que o mesmo não se importaria que se largasse de novo uma bomba no meio de Badgad, para matar uns quantos “infiéis”.
Vários séculos depois da época dos profetas, o mundo é um lugar onde o diálogo entre as nações é possível, e a tolerância existe como pressuposto básico para a coexistência entre as várias culturas. O problema não está no Alcorão, nem mesmo sequer numa mesquita; o problema está sim no “medo do desconhecido” que é alimentado hoje em dia entre o Ocidente e o mundo islâmico. Lá por acreditarmos numa coisa, isso não faz de nós detentores da verdade absoluta. Existirão sempre outros pontos de vista, e não aceitar isso será dar azo a uma guerra ideológica absurda, com consequências fatais. Acções extremistas, como queimar livros sagrados, devem ser evitadas. Nem que seja (e penso que foi este o único argumento que convenceu Terry Jones) para não dar o mau exemplo ao “desconhecido”.
Não sendo crente, faço no entanto um esforço para respeitar todas as religiões. Em última análise, penso que todas elas pressupõem a existência de valores que são qualidades básicas do ser humano. Não seria nisso que nos deveríamos centrar?
O mundo está cheio de “almas iluminadas”, e de pessoas que julgam ser detentoras da verdade absoluta. Muitas facilmente passam despercebidas, resguardando-se no seu pequeno universo pessoal de ideias preconcebidas e ódios recalcados. Outras, como Terry Jones, fazem questão de espernear e de demonstrar aos quatro ventos, para que todos vejam, até que ponto é que certas partes de países ditos evoluídos ainda vivem mentalmente na Idade da Pedra.
Este pastor evangélico do estado da Florida lançou a semana passada um apelo internacional. Diz ele e os seus seguidores que o Alcorão, e o Islão por acréscimo, são “obras do Diabo”, e foram responsáveis pelo massacre do 11 de Setembro. Assim sendo, apelou a que esse mesmo dia deste ano se tornasse no “Dia Internacional da queima do Alcorão”. Finalmente, pressionado pela Casa Branca, e verificando que a sua ideia não fora tão bem abraçada como porventura o esperasse, decidiu abandonar o seu ambicioso projecto.
Para quem ainda não percebeu – e pelos vistos ainda são alguns – o 11 de Setembro foi levado a cabo por fundamentalistas extremistas radicais, que seguem algumas partes do Alcorão à letra, nomeadamente aquelas em que o profeta Maomé incita à guerra contra os infiéis (na altura, ano 600 d.C., estava-se maioritariamente a falar de tribos pagãs nómadas do que é hoje a Arábia Saudita). 1300 anos de evolução depois, o Muçulmano comum reconhece estes versículos como próprios àquela época, não fazendo qualquer sentido no mundo actual. Estava-se de facto num período de guerra sem lei, em que tanto muçulmanos, como cristãos, como judeus, matavam diariamente sem qualquer problema, pois tal era o modo básico de sobrevivência.
De facto, a própria Bíblia faz sucessivas referências às gloriosas batalhas (massacres) que o povo de Israel levou a cabo contra os seus inimigos cananeus, filisteus, etc.
Como é óbvio, a maioria dos muçulmanos não pertence à Al Qaeda. Actualmente, ao Islão correspondem outros valores como a fé, a penitência (jejum no Ramadão), a caridade, a fraternidade, etc. Ou seja, dizer que todo o Islão está empenhado na Jihad será mais ou menos a mesma coisa do que dizer que todos os católicos são o pastor Terry Jones – que ainda vive na época da Santa Inquisição. Pois seguramente que o mesmo não se importaria que se largasse de novo uma bomba no meio de Badgad, para matar uns quantos “infiéis”.
Vários séculos depois da época dos profetas, o mundo é um lugar onde o diálogo entre as nações é possível, e a tolerância existe como pressuposto básico para a coexistência entre as várias culturas. O problema não está no Alcorão, nem mesmo sequer numa mesquita; o problema está sim no “medo do desconhecido” que é alimentado hoje em dia entre o Ocidente e o mundo islâmico. Lá por acreditarmos numa coisa, isso não faz de nós detentores da verdade absoluta. Existirão sempre outros pontos de vista, e não aceitar isso será dar azo a uma guerra ideológica absurda, com consequências fatais. Acções extremistas, como queimar livros sagrados, devem ser evitadas. Nem que seja (e penso que foi este o único argumento que convenceu Terry Jones) para não dar o mau exemplo ao “desconhecido”.
Não sendo crente, faço no entanto um esforço para respeitar todas as religiões. Em última análise, penso que todas elas pressupõem a existência de valores que são qualidades básicas do ser humano. Não seria nisso que nos deveríamos centrar?
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Mission: reisgawté.
Qualquer drama da vida real é susceptível de inspirar um ambicioso produtor de Hollywood, e, como tal, parece-me que já se tornou óbvio que mais cedo ou mais tarde a história dos 33 mineiros chilenos soterrados a 700 metros de profundidade não tardará a ser explorada, num mega-blockbuster internacional.
Com efeito, há que reparar que esta tragédia, não obstante o facto de ser manifestamente um autêntico terror para aqueles que a vivem, tem todos os ingredientes para aqueloutros, que nela vêm uma possível galinha dos ovos de ouro cinematográfica.
A própria comunicação social não tardou, nesse aspecto, a fazer o seu papel. Já nos pôs a par das pequenas curiosidades relativas aos protagonistas deste lamentável acidente, através de reportagens sobre o dia-a-dia das mulheres dos ditos cujos, mostrando fotografias do mais novo e do mais velho dentre eles, e explicando quem são os engenheiros da NASA que os irão salvar.
O filme vai ser bastante simples de realizar, até porque grande parte do enredo se constrói por si só.
É claro que a trama não começa no Chile, como seria de supor caso a produção viesse a ser outra, mas em Nova Iorque. Estamos em casa de Jack, um bonito e bondoso engenheiro da NASA, que vive com a mulher, filhos, e cão, que gostam todos muito dele. Inesperadamente, é chamado para uma missão dificílima: resgatar 33 mineiros soterrados. É o único que o poderá fazer, pois apenas ele possui a técnica e a coragem necessárias. Para isso, terá que se deslocar a uma terra muito distante e desconhecida, que é deveras atrasada, e que precisa urgentemente da ajuda americana: o Txeeléi.
Despede-se da família, ao som de uma orquestra, e segue viagem, de cabelo ao vento. Ao chegar, depara-se com um cenário catastrófico: pobreza, corrupção, violência. E, claro, graças ao teor impuro da água, apanha logo uma valente dor de barriga. Mas nada para o bravo Jack.
É só aqui que se começa a contar a história destes povos misteriosos dos quais nunca ninguém ouviu falar. E dos trabalhadores que, por obra de uma empresa mineira corrupta e mal qualificada, ficaram soterrados a 700 metros de profundidade. A imagem destes homens é, obviamente, mostrada através de uma visão imperialisto-colonialista, graças à qual aparecem como gente rude e pouco desenvolvida. O que não será muito difícil de fazer, já que eles estão a viver numa gruta.
Surge a necessidade de explorar a história do ponto de vista humano, mostrando o drama da sobrevivência do mais novo e do mais velho dos mineiros. O mais novo, Juanitow, é um jovem de 16 anos que tem uma vida inteira pela frente, caso consiga escapar vivo. A mãe e a irmã chorosas sofrem por ele lá em cima, sendo que o seu pai já tinha em tempos falecido num acidente do mesmo tipo. O mais velho, Carrlows, é um homem bravo e calmo, velho índio paternalista, que acaba por exercer essa mesma função junto de Juanitow, e os dois tornam-se grandes companheiros. Tem a sua mulher lá em cima, que chora, juntamente com a família do mais novo.
Ao acompanhar o drama destas famílias, Jack começa a criar um laço emocional com elas (isto é ilustrado pelas cenas em que ele tenta mostrar às mulheres como falar com os mineiros através de vídeo-conferência, caso em que terá também de explicar o que é um vídeo, o que é um microfone, o que é um computador, etc). Assim sendo, começa a perceber que os chilenos são “pessoas como ele” que “também têm sentimentos”. O pequeno Juanitow, por exemplo, com o seu espírito vivaz e esperto, faz-lhe lembrar o seu próprio filho, Jack Jr, que ficou em Nova Iorque.
E, graças às suas extraordinárias qualidades didácticas, Jack consegue ensinar o jovem Juanitow e o velho Carrlows a ler e escrever, através de vídeo-conferência.
Assim cresce a necessidade de salvar estes pobres homens. Mas o atrasado governo deste país (de cujo nome, entretanto, já ninguém se lembra), e os seus corruptos dirigentes, são incapazes de o fazer sem a sua ajuda. Assim Jack apressa-se em construir a sua super-broca-mega-potente que irá perfurar as rudes terras andinas, penetrando heroicamente no subsolo em busca dos mineiros. E justo na altura em que pensava que iam todos morrer, incluindo ele próprio, eis que aparece, por entre os escombros de terra empedrada, a cabeça do pequeno Juanitow, assim como a do Carrlows. A orquestra recomeça a tocar.
Fazem todos uma grande festa para celebrar o sucesso desta missão, abraçando-se e chorando copiosamente; comem enchilladas e bebem tequilla, mesmo se isso são coisas tipicamente mexicanas.
E no fim Jack regressa a sua casa, levando como lembrança presentes oferecidos pelas mulheres dos mineiros: uma piñata e um sombrrerow.
Com efeito, há que reparar que esta tragédia, não obstante o facto de ser manifestamente um autêntico terror para aqueles que a vivem, tem todos os ingredientes para aqueloutros, que nela vêm uma possível galinha dos ovos de ouro cinematográfica.
A própria comunicação social não tardou, nesse aspecto, a fazer o seu papel. Já nos pôs a par das pequenas curiosidades relativas aos protagonistas deste lamentável acidente, através de reportagens sobre o dia-a-dia das mulheres dos ditos cujos, mostrando fotografias do mais novo e do mais velho dentre eles, e explicando quem são os engenheiros da NASA que os irão salvar.
O filme vai ser bastante simples de realizar, até porque grande parte do enredo se constrói por si só.
É claro que a trama não começa no Chile, como seria de supor caso a produção viesse a ser outra, mas em Nova Iorque. Estamos em casa de Jack, um bonito e bondoso engenheiro da NASA, que vive com a mulher, filhos, e cão, que gostam todos muito dele. Inesperadamente, é chamado para uma missão dificílima: resgatar 33 mineiros soterrados. É o único que o poderá fazer, pois apenas ele possui a técnica e a coragem necessárias. Para isso, terá que se deslocar a uma terra muito distante e desconhecida, que é deveras atrasada, e que precisa urgentemente da ajuda americana: o Txeeléi.
Despede-se da família, ao som de uma orquestra, e segue viagem, de cabelo ao vento. Ao chegar, depara-se com um cenário catastrófico: pobreza, corrupção, violência. E, claro, graças ao teor impuro da água, apanha logo uma valente dor de barriga. Mas nada para o bravo Jack.
É só aqui que se começa a contar a história destes povos misteriosos dos quais nunca ninguém ouviu falar. E dos trabalhadores que, por obra de uma empresa mineira corrupta e mal qualificada, ficaram soterrados a 700 metros de profundidade. A imagem destes homens é, obviamente, mostrada através de uma visão imperialisto-colonialista, graças à qual aparecem como gente rude e pouco desenvolvida. O que não será muito difícil de fazer, já que eles estão a viver numa gruta.
Surge a necessidade de explorar a história do ponto de vista humano, mostrando o drama da sobrevivência do mais novo e do mais velho dos mineiros. O mais novo, Juanitow, é um jovem de 16 anos que tem uma vida inteira pela frente, caso consiga escapar vivo. A mãe e a irmã chorosas sofrem por ele lá em cima, sendo que o seu pai já tinha em tempos falecido num acidente do mesmo tipo. O mais velho, Carrlows, é um homem bravo e calmo, velho índio paternalista, que acaba por exercer essa mesma função junto de Juanitow, e os dois tornam-se grandes companheiros. Tem a sua mulher lá em cima, que chora, juntamente com a família do mais novo.
Ao acompanhar o drama destas famílias, Jack começa a criar um laço emocional com elas (isto é ilustrado pelas cenas em que ele tenta mostrar às mulheres como falar com os mineiros através de vídeo-conferência, caso em que terá também de explicar o que é um vídeo, o que é um microfone, o que é um computador, etc). Assim sendo, começa a perceber que os chilenos são “pessoas como ele” que “também têm sentimentos”. O pequeno Juanitow, por exemplo, com o seu espírito vivaz e esperto, faz-lhe lembrar o seu próprio filho, Jack Jr, que ficou em Nova Iorque.
E, graças às suas extraordinárias qualidades didácticas, Jack consegue ensinar o jovem Juanitow e o velho Carrlows a ler e escrever, através de vídeo-conferência.
Assim cresce a necessidade de salvar estes pobres homens. Mas o atrasado governo deste país (de cujo nome, entretanto, já ninguém se lembra), e os seus corruptos dirigentes, são incapazes de o fazer sem a sua ajuda. Assim Jack apressa-se em construir a sua super-broca-mega-potente que irá perfurar as rudes terras andinas, penetrando heroicamente no subsolo em busca dos mineiros. E justo na altura em que pensava que iam todos morrer, incluindo ele próprio, eis que aparece, por entre os escombros de terra empedrada, a cabeça do pequeno Juanitow, assim como a do Carrlows. A orquestra recomeça a tocar.
Fazem todos uma grande festa para celebrar o sucesso desta missão, abraçando-se e chorando copiosamente; comem enchilladas e bebem tequilla, mesmo se isso são coisas tipicamente mexicanas.
E no fim Jack regressa a sua casa, levando como lembrança presentes oferecidos pelas mulheres dos mineiros: uma piñata e um sombrrerow.
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