Faz mal, entope as veias, e engorda. No entanto, continuamos a voltar a ele, como uma mosca atraída por um pedaço de excrementos canino. De quem falo? Do Mc Donalds, obviamente; uma das maiores armas de sempre no que concerne a arte da manipulação humana. Da qual, confesso, eu mesma sou uma vítima. Admitamos, todos lá damos um pulinho de vez em quando. Nem que seja para tomar um café (que ocasionalmente se transforma em sundae, que se transforma num mega-menu XL combo com triplo queijo e batatas).
Por vezes sinto que a relação psicológica que geralmente a humanidade estabelece com esta cadeia de fast-food será mais ou menos aquela que um bêbado tem com a sua garrafa de whisky. Não que aqui se crie uma relação de dependência tão forte, claro. Mas enfim, suponho que o sentido de degredo seja o mesmo.
Porque tal como o mesmo para o seu copo de whisky, tão reluzente, fresco e apaziguante; é-se atraído para este estabelecimento sempre munido de uma certa incerteza. Caminhamos tranquilamente na rua, regressando do trabalho, suponhamos, quando subitamente a fome aperta. É então que a dúvida se coloca: optar pela solução fácil (o Mac, quase sempre mesmo ali ao lado), ou cozinhar em casa, e não incorrer naquela que é, sem a menor dúvida, uma gigantesca asneira gastronómica? Mas inconscientemente os nossos passos para lá se dirigem, movidos por uma força muito superior. “De qualquer modo, não tenho nada em casa” – dizemos para nós próprios, mesmo que na verdade a nossa dispensa esteja nesse momento a regurgitar os mais saudáveis e verdejantes alimentos.
Chegados lá, como aquele que dá o primeiro gole e sente o liquido estontear-lhe os sentidos, sabe-se que não haverá retorno. Todas aquelas coisas cheias de gordura cheiram maravilhosamente, e dão-nos a espreitar um paraíso calórico repleto de sabores tranquilos e bem familiares. A combinação de molhos parece perfeita, e está ao alcance de cinco euros e um estender de mão. Já todos assistimos aos horríveis documentários sobre as actividades trucidantes e exploradoras por parte das cadeiras de fast-food, nomeadamente esta; já estamos ao corrente de que estes sabores não têm um pingo de natural, e são na realidade fabricados em laboratório… Mas que mal pode fazer uma vez? Só uma vez.
Enchemos a pança com quantidades astronómicas de tudo o que existe no mostruário. Enfardamos, e enfardamos bem, até que a meio do pacote de batatas as coisas deixem de parecer tão maravilhosas como dantes, e um ligeiro sentimento de culpa comece a despoletar, a um cantinho da mente. Mas já que aqui estamos, porque não uma sobremesa. E já que é uma sobremesa, porque não um Mcflurry com extra-chocolate e sprinkles?
Saímos de lá a rebolar, chorando e lamentando o descabido acto. Agora, que o nosso almoço não passa de um monte de pacotes e cascas de aspecto repelente, tudo no Mc Donalds parece terrível: o cheiro nauseabundo a gordura saturada, os alimentos artificiais de providência dúbia, os empregados deprimidos, os adolescentes obesos que serão um dia os nossos filhos, e netos. Como um bêbado que acorda numa valeta, de cara enterrada na sua própria poça de vómito; decidimos determinadamente que esta será a última vez. Mas haverá mais.
terça-feira, 8 de março de 2011
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Estou sim?
Pais que dão dinheiro aos filhos, sobretudo em caso de necessidade, é algo que devemos sempre louvar. Afinal, não é vergonha nenhuma requisitarmos ocasionalmente a ajuda dos mais velhos para, nos tempos difíceis que correm, concluirmos com sucesso os nossos objectivos pessoais e profissionais.
O meu pai, por outro lado, resolveu oferecer-me um telefone da última geração que ele não quer; totalmente negligenciando o facto de que, entre uma croma maquineta com câmara digital, mp3, touch-screen, e que sei eu mais; e os correspondentes 200 euros, talvez preferisse a segunda opção. Talvez, claro, é uma ironia. Preferia mesmo os 200 euros. Não preciso para nada de um nokia-touch-x-press-tune-ninja-blutooth-hip-tip-mega-nice.
“Estás desadaptada – diz-me ele – tens que acompanhar os teus tempos”. Pressinto que, quando alguém com mais vinte e cinco anos do que nós nos começa a dizer isso, é capaz de ser mau sinal. Mas que mal tem o meu perfeitamente aceitável telefone da última década que, além de ter passado três meses no Egipto sem nada lhe acontecer (o mesmo não se poderia dizer de muitos outros) é capaz de enviar mensagens e fazer chamadas na perfeição? Não será isso suficiente? Não. Hoje em dia, um telemóvel serve para tudo menos para fazer chamadas. Trata-se, com efeito, de um dinamicíssimo objecto, que nos permite perder horas a entretermo-nos com coisas que, numa perspectiva fria e racional, correriam o risco de serem consideradas inúteis. No futuro, um telefone que faça chamadas, será algo extremamente uncool.
Digo que o vou pôr à venda no e-bay. Afinal, sempre me pode servir de alguma coisa. 200 euros equivalem a oito jantares fora, meio computador novo... “Não! – reagem as pessoas à minha volta, escandalizadas, como se eu planeasse fazer um aborto – Estás louca? Não vês que hoje em dia é IMPRESCINDIVEL teres um telemóvel desses?”. E é, pelos vistos. Ao que parece, nos dias que correm, toda a gente tem um nokia-mega-hip-tune-x-press-blutooth-nip-tip-ultra. Desde os meus avós, ao Sr. Abel da mercearia, passando por Mabundo, o feiticeiro que vive numa cabana sem electricidade no Botswana.
Dou por mim a contemplar amargamente esta coisa (perdão, este belíssimo exemplar das tecnologias modernas). Para que preciso eu de um nokia-mega-hip-tune-ninja-blutooth-nip-tip-mega? Para ouvir música, dizem-me uns. Mas eu já tenho um mp3. Para tirar fotografias, dizem-me outros. Mas eu já tenho uma câmara. Para mostrar aos meus amigos? Mas eu vou deixar de ter amigos quando eles perceberem que eu só ando com o meu novo telefone na mala para disfarçar, pois secretamente ainda uso o velho.
O meu pai, por outro lado, resolveu oferecer-me um telefone da última geração que ele não quer; totalmente negligenciando o facto de que, entre uma croma maquineta com câmara digital, mp3, touch-screen, e que sei eu mais; e os correspondentes 200 euros, talvez preferisse a segunda opção. Talvez, claro, é uma ironia. Preferia mesmo os 200 euros. Não preciso para nada de um nokia-touch-x-press-tune-ninja-blutooth-hip-tip-mega-nice.
“Estás desadaptada – diz-me ele – tens que acompanhar os teus tempos”. Pressinto que, quando alguém com mais vinte e cinco anos do que nós nos começa a dizer isso, é capaz de ser mau sinal. Mas que mal tem o meu perfeitamente aceitável telefone da última década que, além de ter passado três meses no Egipto sem nada lhe acontecer (o mesmo não se poderia dizer de muitos outros) é capaz de enviar mensagens e fazer chamadas na perfeição? Não será isso suficiente? Não. Hoje em dia, um telemóvel serve para tudo menos para fazer chamadas. Trata-se, com efeito, de um dinamicíssimo objecto, que nos permite perder horas a entretermo-nos com coisas que, numa perspectiva fria e racional, correriam o risco de serem consideradas inúteis. No futuro, um telefone que faça chamadas, será algo extremamente uncool.
Digo que o vou pôr à venda no e-bay. Afinal, sempre me pode servir de alguma coisa. 200 euros equivalem a oito jantares fora, meio computador novo... “Não! – reagem as pessoas à minha volta, escandalizadas, como se eu planeasse fazer um aborto – Estás louca? Não vês que hoje em dia é IMPRESCINDIVEL teres um telemóvel desses?”. E é, pelos vistos. Ao que parece, nos dias que correm, toda a gente tem um nokia-mega-hip-tune-x-press-blutooth-nip-tip-ultra. Desde os meus avós, ao Sr. Abel da mercearia, passando por Mabundo, o feiticeiro que vive numa cabana sem electricidade no Botswana.
Dou por mim a contemplar amargamente esta coisa (perdão, este belíssimo exemplar das tecnologias modernas). Para que preciso eu de um nokia-mega-hip-tune-ninja-blutooth-nip-tip-mega? Para ouvir música, dizem-me uns. Mas eu já tenho um mp3. Para tirar fotografias, dizem-me outros. Mas eu já tenho uma câmara. Para mostrar aos meus amigos? Mas eu vou deixar de ter amigos quando eles perceberem que eu só ando com o meu novo telefone na mala para disfarçar, pois secretamente ainda uso o velho.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
No mínimo, revelador
Numa reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas da semana passada, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Indiano SM Krishna trocou o seu discurso pelo do homólogo Jorge Amado.
Durante vários minutos papagueou frases que, adivinho eu, não fariam para ele qualquer sentido, revelando assim um absoluto desprezo pela posição que preenche e pelas funções que lhe são incumbidas. Mais, pela responsabilidade que é representar um povo, com o seu voto de confiança.
Fossem algumas linhas, a situação era perdoavel. Mas SM Krishna passou longos minutos a discorrer sobre a importância da CPLP, e sobre o facto de Portugal e Brasil se encontrarem juntos ali naquele dia, entre outras questões. Só parou porque um dos seus acessores o avisou, senão continuaria alegremente, suponho, até terminar.
Podia ser uma piada, mas não. É preocupante. A Índia é uma nação desenvolvida em muitas áreas, com peso na cena internacional. Se SM Krishna aparece neste tipo de encontros sem ter o mínimo de noção do que lá se passa, acredito, é possivel que representantes de outras nações façam o mesmo.
É caso para perguntar quem é esta gente, o que anda lá a fazer.
Gosto particularmente do pormenor em que ele levanta a cabecinha, várias vezes, como quem sabe o seu discurso de cor.
Durante vários minutos papagueou frases que, adivinho eu, não fariam para ele qualquer sentido, revelando assim um absoluto desprezo pela posição que preenche e pelas funções que lhe são incumbidas. Mais, pela responsabilidade que é representar um povo, com o seu voto de confiança.
Fossem algumas linhas, a situação era perdoavel. Mas SM Krishna passou longos minutos a discorrer sobre a importância da CPLP, e sobre o facto de Portugal e Brasil se encontrarem juntos ali naquele dia, entre outras questões. Só parou porque um dos seus acessores o avisou, senão continuaria alegremente, suponho, até terminar.
Podia ser uma piada, mas não. É preocupante. A Índia é uma nação desenvolvida em muitas áreas, com peso na cena internacional. Se SM Krishna aparece neste tipo de encontros sem ter o mínimo de noção do que lá se passa, acredito, é possivel que representantes de outras nações façam o mesmo.
É caso para perguntar quem é esta gente, o que anda lá a fazer.
Gosto particularmente do pormenor em que ele levanta a cabecinha, várias vezes, como quem sabe o seu discurso de cor.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O drama do pato
Uma boa notícia para todas aquelas pessoas que estavam a pensar suicidar-se esta semana, O Cisne Negro já chegou às salas de cinema; ou, mais confortavelmente, ao seu site de download ilegal preferido. Precisa de um motivo final para tomar aquele sumo de estricnina? Um empurrãozinho extra para saltar do 12º andar? Tenho a solução ideal para si.
Nina é uma deprimida e solitária bailarina obcecada pelo trabalho que, incompreensivelmente, ainda mais abatida fica quando percebe que acabou de ser escolhida para o papel sonhado por qualquer profissional do seu ramo. Em vez de se alegrar por atingir o auge da sua carreira, passa o tempo inteiro com cara de susto e de choro. A partir daí, como se percebe, o ambiente só poderia ficar ainda mais pesado. Surgem então vários personagens que se vêm juntar à festa. Um professor tarado sexual com fetiches sádico-controladores, uma mãe dominadora com passatempos bizarros, e uma colega junkie-lésbica que não olha a meios para lhe conseguia roubar o lugar. Às tantas, percebe-se que Nina sofre do que seria clinicamente definido por esquizofrenia. As suas alucinações consistem essencialmente em ouvir vozes e ver partes do seu corpo esvaírem-se em sangue. Mais nada? Claro que sim. Muito e muito mais, ao ponto de sairmos da sala a achar que o mundo não tem solução, e a vida é um grande poço vazio sem fundo. Mas seria indelicado revelar demasiado aos que ainda pretendem assistir a esta tão reputada película. Resta-me apenas fazer uma observação, para aqueles que depois disto optarão por uma comédia light da próxima vez que forem ao cinema, mas que mesmo assim gostariam de saber um pouco mais sobre o filme, para o poderem discutir no seu círculo de amigos: sangue, sexo, e alucinações. São estas as palavras-chave, e tudo o que precisam de saber sobre O Cisne Negro.
Percebo que o objectivo tenha sido o de expor o “lado negro” do mundo do ballet. Temo, no entanto, que o realizador tenha ido um pouco longe demais.
Estou plenamente consciente do risco de com isto vir a ser detestada pelos intelectuais da sétima arte, que considerem este um filme visualmente espectacular, e o desempenho da actriz principal como sendo magnífico. Não digo que não. Afinal, sou tudo menos uma especialista, e admito que a minha sensibilidade dentro do género possa ser demasiado rudimentar, ao ponto de preferir o entretenimento sobre a inatingível peça artística, destinada apenas às elites mais iluminadas. Apenas digo é que talvez seja melhor assistir-se ao mesmo acompanhado de uma garrafa da Vodka, ou uma carteira de Prozac.
Nina é uma deprimida e solitária bailarina obcecada pelo trabalho que, incompreensivelmente, ainda mais abatida fica quando percebe que acabou de ser escolhida para o papel sonhado por qualquer profissional do seu ramo. Em vez de se alegrar por atingir o auge da sua carreira, passa o tempo inteiro com cara de susto e de choro. A partir daí, como se percebe, o ambiente só poderia ficar ainda mais pesado. Surgem então vários personagens que se vêm juntar à festa. Um professor tarado sexual com fetiches sádico-controladores, uma mãe dominadora com passatempos bizarros, e uma colega junkie-lésbica que não olha a meios para lhe conseguia roubar o lugar. Às tantas, percebe-se que Nina sofre do que seria clinicamente definido por esquizofrenia. As suas alucinações consistem essencialmente em ouvir vozes e ver partes do seu corpo esvaírem-se em sangue. Mais nada? Claro que sim. Muito e muito mais, ao ponto de sairmos da sala a achar que o mundo não tem solução, e a vida é um grande poço vazio sem fundo. Mas seria indelicado revelar demasiado aos que ainda pretendem assistir a esta tão reputada película. Resta-me apenas fazer uma observação, para aqueles que depois disto optarão por uma comédia light da próxima vez que forem ao cinema, mas que mesmo assim gostariam de saber um pouco mais sobre o filme, para o poderem discutir no seu círculo de amigos: sangue, sexo, e alucinações. São estas as palavras-chave, e tudo o que precisam de saber sobre O Cisne Negro.
Percebo que o objectivo tenha sido o de expor o “lado negro” do mundo do ballet. Temo, no entanto, que o realizador tenha ido um pouco longe demais.
Estou plenamente consciente do risco de com isto vir a ser detestada pelos intelectuais da sétima arte, que considerem este um filme visualmente espectacular, e o desempenho da actriz principal como sendo magnífico. Não digo que não. Afinal, sou tudo menos uma especialista, e admito que a minha sensibilidade dentro do género possa ser demasiado rudimentar, ao ponto de preferir o entretenimento sobre a inatingível peça artística, destinada apenas às elites mais iluminadas. Apenas digo é que talvez seja melhor assistir-se ao mesmo acompanhado de uma garrafa da Vodka, ou uma carteira de Prozac.
sábado, 29 de janeiro de 2011
O Egipto contra Hosni Mubarak
Atravessei o Cairo na manhã de dia 25, há cinco dias atrás; uma calma anormal povoava a outrora fervilhante megalópole Egípcia, subitamente esvaziada e silenciosa. Centenas de carros blindados ladeavam as estradas, e homens fardados aguardavam ansiosamente juntos dos mesmos. “Não saias à rua – avisava-me, por sms, uma amiga local – hoje é demasiado perigoso”. Pensei que talvez fosse exagero. Só percebi que não assim o era quando vi a poucos metros de mim as multidões quebrarem barreiras policiais, gritando entusiasticamente, assobiando contra os canhões de água e bombas de gás lacrimogéneo. Os egípcios, povo naturalmente calmo e paciente, tinham finalmente despertado, após um pesado sono de três décadas.
Era o Dia da Polícia. Sim, o governo decidira dedicar um feriado a esta instituição, símbolo por excelência de um Estado autocrata, e opressor dos direitos fundamentais. Por reacção ao que consideraram uma flagrante afronta, milhares de pessoas invadiram a Midan Tahrir – que, à letra, significa Praça da Libertação – reclamando a queda do governo de Hosni Mubarak. Aquele que foi denominado o Dia da Ira ficou para a História, como uma das maiores manifestações nacionais jamais vistas. Uma nova geração, vendo abater-se sobre si o mesmo destino que coubera aos seus pais, resolveu pôr um fim ao regime. Comunicaram através do Twiter, Facebook, e blogs. Trinta anos do mesmo homem no poder apenas trouxeram fome, desemprego, e opressão.
No dia 26, na véspera da minha partida, as coisas não fizeram senão aquecer. Emociono-me ao ver a minha viagem de três meses ao Egipto terminar assim. Assistindo ao fim de uma era. Ouviam-se os gritos, as sirenes da polícia e das ambulâncias. Do cimo do hotel, na Midan Talaat Harb, era possível ver bandos de homens carregando enormes paus; eram polícias à paisana, pagos ao dia para se infiltrarem nas manifestações. Volta e meia, pegavam num cidadão aleatório, e enfiavam-no numa carrinha. Ninguém sabia para onde iam. Podia-se, no entanto, adivinhar; ali são bem conhecidas as torturas e espancamentos que acontecem recorrentemente nas esquadras.
Regresso a Lisboa no dia 27, para aprender que, em três meses, nada de significativo mudou. É sempre essa a sensação, quando se chega de uma longa viagem. A crise continua a afectar os portugueses, o governo parece alienado da realidade, e houve umas eleições às quais não se ligou muito. Espantosamente, o acontecimento mais marcante parece ter sido a morte de um colunista do social, por parte de um aspirante a manequim.
Acordo no dia 28 da manhã, em Lisboa. Meio aturdida, concluo que não reconheço este quarto de hotel; depois de despertar totalmente, porém, percebo que afinal não estou mais em viajem pelo Egipto, mas sim em casa. Mal sabia que me aguardava um longo dia junto à televisão. De olhos cravados na Al Jazeera, sigo passo a passo os acontecimentos do dia. Mal posso acreditar; as ruas e as praças pelas quais ainda há pouco caminhei estão irreconhecíveis. O governo mandou abaixo a Internet, e as comunicações por telemóvel (entre as quais, a Vodafone); mas isso não fez senão aumentar a motivação das pessoas para a mudança. O povo incendiou a sede do PND. A Sexta-feira da Ira, como se iria chamar, alastrou as manifestações sem precedente pelo Egipto fora. Agora já não é apenas o Cairo, mas Alexandria, o Suez, Mansoura... O país inteiro parece estar a experienciar aquele que é o início de uma revolução. Sinto um nó no estômago, tenho as mãos a tremer; pois três meses são suficientes para criar uma empatia significativa. Olho para aquelas caras e tento, estupidamente, reconhecer alguma; não seria fácil, pois os egípcios são 80 milhões. Cidadãos corajosos, enfrentando uma força policial intransigente e brutal, reclamam eleições livres, e a queda do actual regime. O que vai acontecer, ninguém sabe. Apenas que nada nunca será o mesmo.
Num discurso prepotente e hipócrita, Mubarak mostrou-se ontem ao mundo como um líder generoso e compreensivo. Certamente não foi ele que mandou espancar o seu povo, não foi ele que ficou com todo o dinheiro que lhe era devido, e também não foi ele, suponho, que mandou encerrar as telecomunicações, negando-lhes a liberdade de expressão? Os Estados Unidos, receosos de perder o seu principal aliado na zona, para uma oposição que julgam ser de maioria islamita, entraram no jogo tentando manter a fachada de que tudo estava bem; apoiando teimosamente esse castelo de cartas que é o (que resta do) governo actual. Será interessante acompanhar os futuros desenvolvimentos. Por quanto tempo se manterá este teatro?
Os egípcios ganharam a força que lhes faltava, graças ao exemplo da Tunísia. Ver que eles também tinham esse poder, e que não estavam sozinhos, foi o melhor incentivo. Mostrar-lhes que o mundo está com eles, é o que podemos fazer para que agora se dê uma viragem definitiva.
Era o Dia da Polícia. Sim, o governo decidira dedicar um feriado a esta instituição, símbolo por excelência de um Estado autocrata, e opressor dos direitos fundamentais. Por reacção ao que consideraram uma flagrante afronta, milhares de pessoas invadiram a Midan Tahrir – que, à letra, significa Praça da Libertação – reclamando a queda do governo de Hosni Mubarak. Aquele que foi denominado o Dia da Ira ficou para a História, como uma das maiores manifestações nacionais jamais vistas. Uma nova geração, vendo abater-se sobre si o mesmo destino que coubera aos seus pais, resolveu pôr um fim ao regime. Comunicaram através do Twiter, Facebook, e blogs. Trinta anos do mesmo homem no poder apenas trouxeram fome, desemprego, e opressão.
No dia 26, na véspera da minha partida, as coisas não fizeram senão aquecer. Emociono-me ao ver a minha viagem de três meses ao Egipto terminar assim. Assistindo ao fim de uma era. Ouviam-se os gritos, as sirenes da polícia e das ambulâncias. Do cimo do hotel, na Midan Talaat Harb, era possível ver bandos de homens carregando enormes paus; eram polícias à paisana, pagos ao dia para se infiltrarem nas manifestações. Volta e meia, pegavam num cidadão aleatório, e enfiavam-no numa carrinha. Ninguém sabia para onde iam. Podia-se, no entanto, adivinhar; ali são bem conhecidas as torturas e espancamentos que acontecem recorrentemente nas esquadras.
Regresso a Lisboa no dia 27, para aprender que, em três meses, nada de significativo mudou. É sempre essa a sensação, quando se chega de uma longa viagem. A crise continua a afectar os portugueses, o governo parece alienado da realidade, e houve umas eleições às quais não se ligou muito. Espantosamente, o acontecimento mais marcante parece ter sido a morte de um colunista do social, por parte de um aspirante a manequim.
Acordo no dia 28 da manhã, em Lisboa. Meio aturdida, concluo que não reconheço este quarto de hotel; depois de despertar totalmente, porém, percebo que afinal não estou mais em viajem pelo Egipto, mas sim em casa. Mal sabia que me aguardava um longo dia junto à televisão. De olhos cravados na Al Jazeera, sigo passo a passo os acontecimentos do dia. Mal posso acreditar; as ruas e as praças pelas quais ainda há pouco caminhei estão irreconhecíveis. O governo mandou abaixo a Internet, e as comunicações por telemóvel (entre as quais, a Vodafone); mas isso não fez senão aumentar a motivação das pessoas para a mudança. O povo incendiou a sede do PND. A Sexta-feira da Ira, como se iria chamar, alastrou as manifestações sem precedente pelo Egipto fora. Agora já não é apenas o Cairo, mas Alexandria, o Suez, Mansoura... O país inteiro parece estar a experienciar aquele que é o início de uma revolução. Sinto um nó no estômago, tenho as mãos a tremer; pois três meses são suficientes para criar uma empatia significativa. Olho para aquelas caras e tento, estupidamente, reconhecer alguma; não seria fácil, pois os egípcios são 80 milhões. Cidadãos corajosos, enfrentando uma força policial intransigente e brutal, reclamam eleições livres, e a queda do actual regime. O que vai acontecer, ninguém sabe. Apenas que nada nunca será o mesmo.
Num discurso prepotente e hipócrita, Mubarak mostrou-se ontem ao mundo como um líder generoso e compreensivo. Certamente não foi ele que mandou espancar o seu povo, não foi ele que ficou com todo o dinheiro que lhe era devido, e também não foi ele, suponho, que mandou encerrar as telecomunicações, negando-lhes a liberdade de expressão? Os Estados Unidos, receosos de perder o seu principal aliado na zona, para uma oposição que julgam ser de maioria islamita, entraram no jogo tentando manter a fachada de que tudo estava bem; apoiando teimosamente esse castelo de cartas que é o (que resta do) governo actual. Será interessante acompanhar os futuros desenvolvimentos. Por quanto tempo se manterá este teatro?
Os egípcios ganharam a força que lhes faltava, graças ao exemplo da Tunísia. Ver que eles também tinham esse poder, e que não estavam sozinhos, foi o melhor incentivo. Mostrar-lhes que o mundo está com eles, é o que podemos fazer para que agora se dê uma viragem definitiva.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Portugal… fala-me sobre isso.
Uma das perguntas mais frequentes, feita a quem viaja, é a inevitável: “de onde vens?” São os habitantes locais das terras por onde se passa que mais exprimem a sua curiosidade em relação a tal. O português fora da Europa, contrariamente à geral maioria, tem face a esta questão uns bons quinze minutos de explicações a dar. Com efeito, salvo algumas referências futebolísticas, a maioria dos interlocutores tem uma de duas reacções à nacionalidade lusitana. Ou fica a olhar para nós inexpressivamente, por breves segundos, até mudar de assunto (significa que não sabe do que é que se trata, e tem vergonha de o assumir). Ou espera que desenvolvamos o tema, dizendo por exemplo onde fica esse país de nome tão estranho, que língua se fala lá, e se por acaso faz muito frio.
Ora, isto é geralmente um grande choque para o português, que esperava que o seu lugar na União Europeia lhe desse finalmente alguma notoriedade entre os grandes. Vivemos, no nosso quotidiano, uma triste ilusão. Sentados em frente à televisão, fazendo zapping entre os telejornais das oito, e vendo Angela Merkel dar palmadinhas nas costas a José Sócrates, julgaríamos estar no centro dos acontecimentos, e gozar de um valor estratégico inigualável, a nível internacional. A realidade, porém, é bem diferente. No fundo, dizer a alguém que se é Português, no Mundo, é mais ou menos o mesmo do que dizer que se é do Butão, ou do Gabão: ninguém faz a mínima ideia do que estamos a falar, ou se faz, apenas lhe conhece o nome.
No entanto, e apesar das vicissitudes, é ao viajar que cresce o amor pelo pequeno rectângulo. Porque contrariamente a outros europeus, como franceses ou alemães, que têm uma relação relativamente pacifica com o seu próprio país; o português tem uma extremamente conturbada com o seu. É apenas ao falar de Portugal, que se dá conta de quantas coisas boas lá tem. E é assim que tem verdadeiramente pena daqueles que acham que somos uma ilha a Sul de Espanha, ou mesmo um qualquer estado amazónico no Brasil. Portugal visto de fora parece, de facto, sensivelmente espectacular. Tem praia, bom tempo, lugares bonitos, preços acessíveis... No meio disto tudo, há uma grande tendência para esquecer a crise, o desemprego, e um salário mínimo cujo valor tende para o africano. Muito cedo, deste modo, uma conversa sobre de onde somos se transforma num apanágio nacionalista. Fala-se do fado, garantindo ser a música mais bonita do mundo. Faz-nos muita falta a praia, mesmo que neste momento seja Inverno e esteja um frio inconcebível. Esquece-se de até que ponto se estava deprimido com a rotina, como eventualmente se embirrava com a família, ou se estava completamente farto dos amigos e colegas. Pensa-se que os políticos, afinal, não são assim tau maus. Tem-se muitas saudades da comida portuguesa, e é frequente largar-se frases do género: “Ah, agora umas pataniscas e um caldo verde é que era”; mesmo que na vida real, em casa, se comesse todos os dias massa com atum ou Mc Donalds.
No fundo, a melhor maneira de amar Portugal é sair dele por uns tempos.

E quando finalmente se encontra alguém que torça por nós, a alegria é imensa. Mesmo que a ortografia não seja a melhor.
Ora, isto é geralmente um grande choque para o português, que esperava que o seu lugar na União Europeia lhe desse finalmente alguma notoriedade entre os grandes. Vivemos, no nosso quotidiano, uma triste ilusão. Sentados em frente à televisão, fazendo zapping entre os telejornais das oito, e vendo Angela Merkel dar palmadinhas nas costas a José Sócrates, julgaríamos estar no centro dos acontecimentos, e gozar de um valor estratégico inigualável, a nível internacional. A realidade, porém, é bem diferente. No fundo, dizer a alguém que se é Português, no Mundo, é mais ou menos o mesmo do que dizer que se é do Butão, ou do Gabão: ninguém faz a mínima ideia do que estamos a falar, ou se faz, apenas lhe conhece o nome.
No entanto, e apesar das vicissitudes, é ao viajar que cresce o amor pelo pequeno rectângulo. Porque contrariamente a outros europeus, como franceses ou alemães, que têm uma relação relativamente pacifica com o seu próprio país; o português tem uma extremamente conturbada com o seu. É apenas ao falar de Portugal, que se dá conta de quantas coisas boas lá tem. E é assim que tem verdadeiramente pena daqueles que acham que somos uma ilha a Sul de Espanha, ou mesmo um qualquer estado amazónico no Brasil. Portugal visto de fora parece, de facto, sensivelmente espectacular. Tem praia, bom tempo, lugares bonitos, preços acessíveis... No meio disto tudo, há uma grande tendência para esquecer a crise, o desemprego, e um salário mínimo cujo valor tende para o africano. Muito cedo, deste modo, uma conversa sobre de onde somos se transforma num apanágio nacionalista. Fala-se do fado, garantindo ser a música mais bonita do mundo. Faz-nos muita falta a praia, mesmo que neste momento seja Inverno e esteja um frio inconcebível. Esquece-se de até que ponto se estava deprimido com a rotina, como eventualmente se embirrava com a família, ou se estava completamente farto dos amigos e colegas. Pensa-se que os políticos, afinal, não são assim tau maus. Tem-se muitas saudades da comida portuguesa, e é frequente largar-se frases do género: “Ah, agora umas pataniscas e um caldo verde é que era”; mesmo que na vida real, em casa, se comesse todos os dias massa com atum ou Mc Donalds.
No fundo, a melhor maneira de amar Portugal é sair dele por uns tempos.
E quando finalmente se encontra alguém que torça por nós, a alegria é imensa. Mesmo que a ortografia não seja a melhor.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Felicidade é...
Ficar-se atolado no deserto, enquanto se ouve o Corão.
Atente ao penduricalho que vai aos abanões lá à frente. Representa o nome de Allah. Crendo ou não, bem que precisámos d'Ele nesta aventura.
Atente ao penduricalho que vai aos abanões lá à frente. Representa o nome de Allah. Crendo ou não, bem que precisámos d'Ele nesta aventura.
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