E eis que a controvérsia atinge de novo este pais tropical à beira das Caraíbas plantado. Imenso e contrastado são dois adjectivos que tanto servem para descrevê-lo a si, como ao seu líder. A Universidade de La Plata, na Argentina, decidiu atribuir um prémio para a liberdade de imprensa ao Presidente da Venezuela Hugo Chávez. Assim o foi, pelo seu “contributo para a comunicação popular”, por “desmontar os monopólios mediáticos vigentes” e pelo seu “inquestionável compromisso na defesa da liberdade do seu povo, na consolidação da unidade latino-americana e na promoção dos direitos humanos e valores democráticos”.
Afirma Bart Jones, jornalista e biógrafo, que a principal razão que o levou a escrever um livro sobre este homem foi a de que a sua vida parecia ter “saído directamente de um filme de Hollywood”. Se bem que o mesmo fosse capaz de não apreciar a analogia, ela não perde por isso o fundamento.
Este líder controverso e polémico, amado por uns e detestado por outros, veio de uma humilde região dos Llanos, tendo passado os seus primeiros anos a viver numa cabana feita de adobe. Seguiu posteriormente carreira na Academia Militar, onde conspirou contra o poder vigente. Na altura do governo de Carlos Andrés Perez, a miséria, a inflação e o desemprego eram incomportáveis; e as riquezas provenientes do petróleo, essas, concentravam-se exclusivamente numa pequena elite. A gota de água foi sem dúvida o Caracazo, uma revolta popular reprimida sangrentamente. Um golpe militar falhado em 92, que o levou à prisão, fez então de Chávez algo parecido com um herói.
Enquanto presidente, continuou ainda a ter inimigos muito poderosos entre as classes dominantes; e sem dúvida fosse essa a explicação para algumas das suas medidas mais extremas. *
Quem o ouvisse falar, nos primeiros anos do seu governo, achá-lo-ia possuído por alguma sorte de feitiço, uma energia mágica expressa através das simples palavras. A sua capacidade de mover massas, sobretudo entre os mais pobres, é ainda hoje aquilo em que reside o seu poder.
Incorreu, porém, naquele que penso ser o artificio fatal para alguém tão extremo e provocador: tornou-se numa caricatura de si próprio, o personagem central de um gigantesco circo de demagogia, populismo, e culto da personalidade. Fugindo ao debate critico de uma sociedade democrática, rodeou-se de um bando de temerosas figuras que aquiescem a qualquer decisão sua, e se deixam responsabilizar por todas as falhas no sistema, sob pena de verem as respectivas carreiras ir por água abaixo. A revolução socialista, que tanto preconizava, não logrou pôr em prática algumas das suas mais importantes reformas. Os seus discursos transformaram-se em desesperadas chorrilhos de chavões anti-imperialistas, tão confusos e generalistas que podiam ser copiados ao infinito e aplicados a qualquer situação.
O medo da oposição levou-o a crer que alguns fins justificavam certos meios. E assim esse pavor se revelou na criação da um one man show de cinco horas na televisão estatal, transmitido todos os Domingos, em que o protagonista/herói é ele próprio. Mas também no encerramento de inúmeros postos de rádio e canais de televisão por cabo; assim como outros tipos de censura, como propostas de restrições às mensagens publicadas nas redes sociais.
Tal como diz John Dines, professor da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, este prémio revela, acima de tudo, ideias diferentes sobre a liberdade de imprensa na América Latina. Eu acrescentaria que estamos perante uma perspectiva ambivalente, em que os dois lados da moeda merecem ser analisados. Considero, porém, que este prémio já teve mais razão de ser em outros tempos do que agora.
*A propósito do fecho da estação televisiva RCTV, veja-se como a informação passada nos media pode por vezes dar azo à contra-informação,emhttp://venezuelanalysis.com/analysis/2221
sábado, 2 de abril de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
Islão – passado, presente e futuro.
Hans Kung é um teólogo cristão suíço-alemão que defende medidas consideradas polémicas dentro da Igreja, tais como o fim do celibato dos padres, e a abertura do sacerdócio às mulheres. Em 1979, depois da publicação dum livro considerado subversivo sobre a Infalibilidade Papal (o dogma que afirma que o Papa, quando define solenemente algo em matéria de fé ou moral, está sempre correcto), o Vaticano retirou-lhe a permissão para ensinar Teologia em seu nome. Guardou, todavia, o seu lugar na universidade de Tubingen, sendo actualmente presidente da Global Ethic Foundation.
Os séculos passam, o Homem permanece semelhante a si mesmo. A religião continua, nos dias que correm, a servir de pretexto emocional e psicológico com o objectivo real de servir propósitos políticos e económicos. É o caso em alguns países árabes, mas também nos Estados Unidos, por exemplo, em que o Cristianismo é por vezes visto como o Bem, comparativamente ao Islão, frequentemente diabolizado (assim se substituindo, neste caso, o Comunismo pelo Islamismo).
Contra este preconceito bipolar luta Hans Kung, naquele que é o último de três grandes tomos dedicados às religiões monoteístas.

Islão - passado, presente e futuro. Editora: Edições 70
Como ateia convicta, vejo contudo os conhecimentos básicos sobre qualquer grande religião como essenciais para o entendimento do mundo actual e passado. Penso que no caso do Islão isto é particularmente verdade, devido aos conflitos mortais que com ele se relacionam. Vivemos constantemente sob esta “ameaça” (vide, o medo de que a Irmandade Muçulmana ganhe as próximas eleições no Egipto, e como isso foi crucial para o tardio e reticente apoio internacional à revolução em curso), criando a imagem de uma religião obscura, baseada nas manifestações de extremismo que chegam a nós através dos media. O extremismo existe e é grave. E sim, tem vindo a ganhar uma enorme força, o que é de recear tendo em conta os grandes poderes económicos que o amparam, nomeadamente na Arábia Saudita. Mas quem é o comum muçulmano? Muito provavelmente aquele que apenas se preocupa em fazer as suas orações, esmolas e eventuais peregrinações; sem quaisquer planos de conquista mundial ou aspirações a práticas suicidárias.
Segundo Kung, um dos problemas centrais do Islão é o de ter ficado preso na sua própria versão da Idade Média. Ao contrario do Judaísmo e do Cristianismo, não sucumbiu a nenhuma reforma religiosa. “O culpado é a perpetuação de um paradigma para alem da época adequada” que “em condições históricas totalmente diferentes, levará a uma dessincronização e, deste modo, à improdutividade espiritual”. É o caso da ainda aplicação, em certas zonas, de costumes da sharia completamente anacrónicos, tais como o apedrejamento.
Assim, uma das principais causas do conflito inter-religioso é a persistência de modos de pensar datados. Mas isto aplica-se a todas elas. Afinal, o celibato dos padres pode ter sido uma (não a única, obviamente) das razões para tantos casos de pedofilia na Igreja Católica.
Kung defende que a melhor maneira de resolver o problema é apelar ao conhecimento mútuo entre as partes. Não fosse a mensagem do livro, nas suas próprias palavras: “Não há paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não há paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não há diálogo entre as religiões sem pesquisa na base das religiões. Não há sobrevivência no nosso globo sem uma ética global, uma ética mundial compartilhada por crentes e não crentes.”
Este livro pretende ultrapassar os preconceitos, proporcionando um saber efectivo sobre a matéria. Numa excelente e clara abordagem, com discurso limpo e bem estruturado, analisam-se 1400 anos de história, a mensagem, as práticas e os desafios actuais.
Os séculos passam, o Homem permanece semelhante a si mesmo. A religião continua, nos dias que correm, a servir de pretexto emocional e psicológico com o objectivo real de servir propósitos políticos e económicos. É o caso em alguns países árabes, mas também nos Estados Unidos, por exemplo, em que o Cristianismo é por vezes visto como o Bem, comparativamente ao Islão, frequentemente diabolizado (assim se substituindo, neste caso, o Comunismo pelo Islamismo).
Contra este preconceito bipolar luta Hans Kung, naquele que é o último de três grandes tomos dedicados às religiões monoteístas.

Islão - passado, presente e futuro. Editora: Edições 70
Como ateia convicta, vejo contudo os conhecimentos básicos sobre qualquer grande religião como essenciais para o entendimento do mundo actual e passado. Penso que no caso do Islão isto é particularmente verdade, devido aos conflitos mortais que com ele se relacionam. Vivemos constantemente sob esta “ameaça” (vide, o medo de que a Irmandade Muçulmana ganhe as próximas eleições no Egipto, e como isso foi crucial para o tardio e reticente apoio internacional à revolução em curso), criando a imagem de uma religião obscura, baseada nas manifestações de extremismo que chegam a nós através dos media. O extremismo existe e é grave. E sim, tem vindo a ganhar uma enorme força, o que é de recear tendo em conta os grandes poderes económicos que o amparam, nomeadamente na Arábia Saudita. Mas quem é o comum muçulmano? Muito provavelmente aquele que apenas se preocupa em fazer as suas orações, esmolas e eventuais peregrinações; sem quaisquer planos de conquista mundial ou aspirações a práticas suicidárias.
Segundo Kung, um dos problemas centrais do Islão é o de ter ficado preso na sua própria versão da Idade Média. Ao contrario do Judaísmo e do Cristianismo, não sucumbiu a nenhuma reforma religiosa. “O culpado é a perpetuação de um paradigma para alem da época adequada” que “em condições históricas totalmente diferentes, levará a uma dessincronização e, deste modo, à improdutividade espiritual”. É o caso da ainda aplicação, em certas zonas, de costumes da sharia completamente anacrónicos, tais como o apedrejamento.
Assim, uma das principais causas do conflito inter-religioso é a persistência de modos de pensar datados. Mas isto aplica-se a todas elas. Afinal, o celibato dos padres pode ter sido uma (não a única, obviamente) das razões para tantos casos de pedofilia na Igreja Católica.
Kung defende que a melhor maneira de resolver o problema é apelar ao conhecimento mútuo entre as partes. Não fosse a mensagem do livro, nas suas próprias palavras: “Não há paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não há paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não há diálogo entre as religiões sem pesquisa na base das religiões. Não há sobrevivência no nosso globo sem uma ética global, uma ética mundial compartilhada por crentes e não crentes.”
Este livro pretende ultrapassar os preconceitos, proporcionando um saber efectivo sobre a matéria. Numa excelente e clara abordagem, com discurso limpo e bem estruturado, analisam-se 1400 anos de história, a mensagem, as práticas e os desafios actuais.
segunda-feira, 14 de março de 2011
KIri-kiri Kiri-kiri-ki
Os Homens da Luta são - para aqueles que apenas agora deles ouvem falar, em consequência da sua inusitada vitória na mais recente edição Festival da Canção – dois personagens há alguns anos criados pelo humorista Jel e o seu irmão, para o programa televisivo Vai Tudo Abaixo. Homens do PREC, com nítidas influências Zécafonsianas, revolucionários com propensão para semear a desordem; levaram o troféu para casa neste evento do qual já pouco ou nada se sabia ou queria saber.
Pasmo-me ao deparar-me nas reacções mais indignadas, nomeadamente por parte daqueles que, de resto, têm em outras ocasiões merecido o meu profundo respeito.
Penso que o humor é uma forma de contestação tão legítima como qualquer outra. Mais: democrática e necessária, já que se trata de uma maneira eficaz de despertar consciências (sobretudo as mais jovens, muitas vezes adormecidas). Não é novidade que ultimamente se verifica algum sentimento de apatia e desinteresse por parte da população, relativamente ao que se passa dentro das lutas politicas; sobretudo devido à sua impotência e frustração ao perceber que estas poucas respostas práticas têm trazido aos problemas económicos e sociais. Se o humor é uma forma de reavivar a esperança de que a situação melhore, porque não aceitá-lo?
Posto isto, contrariamente a alguns, não estou minimamente preocupada com a nossa figura neste particular diante dos alemães. Não me parece que a aptidão de Portugal para receber dinheiro da União Europeia tenha o mínimo que ver com a nossa performance no Festival da Eurovisão. Mas se, por um acaso do destino assim o for, acho que muito pelo contrário, se eu fosse alemã adquiriria todo um novo respeito pelos lusitanos. Com efeito, a candidatura dos Homens da Luta parece-me uma proposta bem útil a quem pretende pedinchar dinheiro. Mostra que somos um povo criativo e vanguardista, pouco conformado e com personalidade - tudo qualidades propícias a aliciar os potenciais investidores estrangeiros.
Nas poucas entrevistas que vi com estes humoristas, entristece-me particularmente o distanciamento irónico de alguns jornalistas em relação aos mesmos; bombardeando-os com perguntas sarcásticas, quase como se sentissem ameaçados. A verdade é que o humor é um veículo poderosíssimo para passar certas mensagens, e subestimá-lo não me parece de todo o caminho. Utilizar os meios que se nos apresentam para expressar algo que, de outro modo, se reflectiria em choraminguice e queixumes (ie, a crise) parece-me bastante saudável. Não nos levemos demasiado a sério. Por norma, isso só tende a piorar as coisas. Acho extremamente animador – e daqui retiro o exemplo – que em relação a tempos tão difíceis os portugueses sejam capaz de aclamar uma mensagem positiva e divertida.
Será que os alemães ficariam mais bem impressionados com esta finalista?
Pasmo-me ao deparar-me nas reacções mais indignadas, nomeadamente por parte daqueles que, de resto, têm em outras ocasiões merecido o meu profundo respeito.
Penso que o humor é uma forma de contestação tão legítima como qualquer outra. Mais: democrática e necessária, já que se trata de uma maneira eficaz de despertar consciências (sobretudo as mais jovens, muitas vezes adormecidas). Não é novidade que ultimamente se verifica algum sentimento de apatia e desinteresse por parte da população, relativamente ao que se passa dentro das lutas politicas; sobretudo devido à sua impotência e frustração ao perceber que estas poucas respostas práticas têm trazido aos problemas económicos e sociais. Se o humor é uma forma de reavivar a esperança de que a situação melhore, porque não aceitá-lo?
Posto isto, contrariamente a alguns, não estou minimamente preocupada com a nossa figura neste particular diante dos alemães. Não me parece que a aptidão de Portugal para receber dinheiro da União Europeia tenha o mínimo que ver com a nossa performance no Festival da Eurovisão. Mas se, por um acaso do destino assim o for, acho que muito pelo contrário, se eu fosse alemã adquiriria todo um novo respeito pelos lusitanos. Com efeito, a candidatura dos Homens da Luta parece-me uma proposta bem útil a quem pretende pedinchar dinheiro. Mostra que somos um povo criativo e vanguardista, pouco conformado e com personalidade - tudo qualidades propícias a aliciar os potenciais investidores estrangeiros.
Nas poucas entrevistas que vi com estes humoristas, entristece-me particularmente o distanciamento irónico de alguns jornalistas em relação aos mesmos; bombardeando-os com perguntas sarcásticas, quase como se sentissem ameaçados. A verdade é que o humor é um veículo poderosíssimo para passar certas mensagens, e subestimá-lo não me parece de todo o caminho. Utilizar os meios que se nos apresentam para expressar algo que, de outro modo, se reflectiria em choraminguice e queixumes (ie, a crise) parece-me bastante saudável. Não nos levemos demasiado a sério. Por norma, isso só tende a piorar as coisas. Acho extremamente animador – e daqui retiro o exemplo – que em relação a tempos tão difíceis os portugueses sejam capaz de aclamar uma mensagem positiva e divertida.
Será que os alemães ficariam mais bem impressionados com esta finalista?
terça-feira, 8 de março de 2011
Vacas - Gordura - Morte
Faz mal, entope as veias, e engorda. No entanto, continuamos a voltar a ele, como uma mosca atraída por um pedaço de excrementos canino. De quem falo? Do Mc Donalds, obviamente; uma das maiores armas de sempre no que concerne a arte da manipulação humana. Da qual, confesso, eu mesma sou uma vítima. Admitamos, todos lá damos um pulinho de vez em quando. Nem que seja para tomar um café (que ocasionalmente se transforma em sundae, que se transforma num mega-menu XL combo com triplo queijo e batatas).
Por vezes sinto que a relação psicológica que geralmente a humanidade estabelece com esta cadeia de fast-food será mais ou menos aquela que um bêbado tem com a sua garrafa de whisky. Não que aqui se crie uma relação de dependência tão forte, claro. Mas enfim, suponho que o sentido de degredo seja o mesmo.
Porque tal como o mesmo para o seu copo de whisky, tão reluzente, fresco e apaziguante; é-se atraído para este estabelecimento sempre munido de uma certa incerteza. Caminhamos tranquilamente na rua, regressando do trabalho, suponhamos, quando subitamente a fome aperta. É então que a dúvida se coloca: optar pela solução fácil (o Mac, quase sempre mesmo ali ao lado), ou cozinhar em casa, e não incorrer naquela que é, sem a menor dúvida, uma gigantesca asneira gastronómica? Mas inconscientemente os nossos passos para lá se dirigem, movidos por uma força muito superior. “De qualquer modo, não tenho nada em casa” – dizemos para nós próprios, mesmo que na verdade a nossa dispensa esteja nesse momento a regurgitar os mais saudáveis e verdejantes alimentos.
Chegados lá, como aquele que dá o primeiro gole e sente o liquido estontear-lhe os sentidos, sabe-se que não haverá retorno. Todas aquelas coisas cheias de gordura cheiram maravilhosamente, e dão-nos a espreitar um paraíso calórico repleto de sabores tranquilos e bem familiares. A combinação de molhos parece perfeita, e está ao alcance de cinco euros e um estender de mão. Já todos assistimos aos horríveis documentários sobre as actividades trucidantes e exploradoras por parte das cadeiras de fast-food, nomeadamente esta; já estamos ao corrente de que estes sabores não têm um pingo de natural, e são na realidade fabricados em laboratório… Mas que mal pode fazer uma vez? Só uma vez.
Enchemos a pança com quantidades astronómicas de tudo o que existe no mostruário. Enfardamos, e enfardamos bem, até que a meio do pacote de batatas as coisas deixem de parecer tão maravilhosas como dantes, e um ligeiro sentimento de culpa comece a despoletar, a um cantinho da mente. Mas já que aqui estamos, porque não uma sobremesa. E já que é uma sobremesa, porque não um Mcflurry com extra-chocolate e sprinkles?
Saímos de lá a rebolar, chorando e lamentando o descabido acto. Agora, que o nosso almoço não passa de um monte de pacotes e cascas de aspecto repelente, tudo no Mc Donalds parece terrível: o cheiro nauseabundo a gordura saturada, os alimentos artificiais de providência dúbia, os empregados deprimidos, os adolescentes obesos que serão um dia os nossos filhos, e netos. Como um bêbado que acorda numa valeta, de cara enterrada na sua própria poça de vómito; decidimos determinadamente que esta será a última vez. Mas haverá mais.
Por vezes sinto que a relação psicológica que geralmente a humanidade estabelece com esta cadeia de fast-food será mais ou menos aquela que um bêbado tem com a sua garrafa de whisky. Não que aqui se crie uma relação de dependência tão forte, claro. Mas enfim, suponho que o sentido de degredo seja o mesmo.
Porque tal como o mesmo para o seu copo de whisky, tão reluzente, fresco e apaziguante; é-se atraído para este estabelecimento sempre munido de uma certa incerteza. Caminhamos tranquilamente na rua, regressando do trabalho, suponhamos, quando subitamente a fome aperta. É então que a dúvida se coloca: optar pela solução fácil (o Mac, quase sempre mesmo ali ao lado), ou cozinhar em casa, e não incorrer naquela que é, sem a menor dúvida, uma gigantesca asneira gastronómica? Mas inconscientemente os nossos passos para lá se dirigem, movidos por uma força muito superior. “De qualquer modo, não tenho nada em casa” – dizemos para nós próprios, mesmo que na verdade a nossa dispensa esteja nesse momento a regurgitar os mais saudáveis e verdejantes alimentos.
Chegados lá, como aquele que dá o primeiro gole e sente o liquido estontear-lhe os sentidos, sabe-se que não haverá retorno. Todas aquelas coisas cheias de gordura cheiram maravilhosamente, e dão-nos a espreitar um paraíso calórico repleto de sabores tranquilos e bem familiares. A combinação de molhos parece perfeita, e está ao alcance de cinco euros e um estender de mão. Já todos assistimos aos horríveis documentários sobre as actividades trucidantes e exploradoras por parte das cadeiras de fast-food, nomeadamente esta; já estamos ao corrente de que estes sabores não têm um pingo de natural, e são na realidade fabricados em laboratório… Mas que mal pode fazer uma vez? Só uma vez.
Enchemos a pança com quantidades astronómicas de tudo o que existe no mostruário. Enfardamos, e enfardamos bem, até que a meio do pacote de batatas as coisas deixem de parecer tão maravilhosas como dantes, e um ligeiro sentimento de culpa comece a despoletar, a um cantinho da mente. Mas já que aqui estamos, porque não uma sobremesa. E já que é uma sobremesa, porque não um Mcflurry com extra-chocolate e sprinkles?
Saímos de lá a rebolar, chorando e lamentando o descabido acto. Agora, que o nosso almoço não passa de um monte de pacotes e cascas de aspecto repelente, tudo no Mc Donalds parece terrível: o cheiro nauseabundo a gordura saturada, os alimentos artificiais de providência dúbia, os empregados deprimidos, os adolescentes obesos que serão um dia os nossos filhos, e netos. Como um bêbado que acorda numa valeta, de cara enterrada na sua própria poça de vómito; decidimos determinadamente que esta será a última vez. Mas haverá mais.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Estou sim?
Pais que dão dinheiro aos filhos, sobretudo em caso de necessidade, é algo que devemos sempre louvar. Afinal, não é vergonha nenhuma requisitarmos ocasionalmente a ajuda dos mais velhos para, nos tempos difíceis que correm, concluirmos com sucesso os nossos objectivos pessoais e profissionais.
O meu pai, por outro lado, resolveu oferecer-me um telefone da última geração que ele não quer; totalmente negligenciando o facto de que, entre uma croma maquineta com câmara digital, mp3, touch-screen, e que sei eu mais; e os correspondentes 200 euros, talvez preferisse a segunda opção. Talvez, claro, é uma ironia. Preferia mesmo os 200 euros. Não preciso para nada de um nokia-touch-x-press-tune-ninja-blutooth-hip-tip-mega-nice.
“Estás desadaptada – diz-me ele – tens que acompanhar os teus tempos”. Pressinto que, quando alguém com mais vinte e cinco anos do que nós nos começa a dizer isso, é capaz de ser mau sinal. Mas que mal tem o meu perfeitamente aceitável telefone da última década que, além de ter passado três meses no Egipto sem nada lhe acontecer (o mesmo não se poderia dizer de muitos outros) é capaz de enviar mensagens e fazer chamadas na perfeição? Não será isso suficiente? Não. Hoje em dia, um telemóvel serve para tudo menos para fazer chamadas. Trata-se, com efeito, de um dinamicíssimo objecto, que nos permite perder horas a entretermo-nos com coisas que, numa perspectiva fria e racional, correriam o risco de serem consideradas inúteis. No futuro, um telefone que faça chamadas, será algo extremamente uncool.
Digo que o vou pôr à venda no e-bay. Afinal, sempre me pode servir de alguma coisa. 200 euros equivalem a oito jantares fora, meio computador novo... “Não! – reagem as pessoas à minha volta, escandalizadas, como se eu planeasse fazer um aborto – Estás louca? Não vês que hoje em dia é IMPRESCINDIVEL teres um telemóvel desses?”. E é, pelos vistos. Ao que parece, nos dias que correm, toda a gente tem um nokia-mega-hip-tune-x-press-blutooth-nip-tip-ultra. Desde os meus avós, ao Sr. Abel da mercearia, passando por Mabundo, o feiticeiro que vive numa cabana sem electricidade no Botswana.
Dou por mim a contemplar amargamente esta coisa (perdão, este belíssimo exemplar das tecnologias modernas). Para que preciso eu de um nokia-mega-hip-tune-ninja-blutooth-nip-tip-mega? Para ouvir música, dizem-me uns. Mas eu já tenho um mp3. Para tirar fotografias, dizem-me outros. Mas eu já tenho uma câmara. Para mostrar aos meus amigos? Mas eu vou deixar de ter amigos quando eles perceberem que eu só ando com o meu novo telefone na mala para disfarçar, pois secretamente ainda uso o velho.
O meu pai, por outro lado, resolveu oferecer-me um telefone da última geração que ele não quer; totalmente negligenciando o facto de que, entre uma croma maquineta com câmara digital, mp3, touch-screen, e que sei eu mais; e os correspondentes 200 euros, talvez preferisse a segunda opção. Talvez, claro, é uma ironia. Preferia mesmo os 200 euros. Não preciso para nada de um nokia-touch-x-press-tune-ninja-blutooth-hip-tip-mega-nice.
“Estás desadaptada – diz-me ele – tens que acompanhar os teus tempos”. Pressinto que, quando alguém com mais vinte e cinco anos do que nós nos começa a dizer isso, é capaz de ser mau sinal. Mas que mal tem o meu perfeitamente aceitável telefone da última década que, além de ter passado três meses no Egipto sem nada lhe acontecer (o mesmo não se poderia dizer de muitos outros) é capaz de enviar mensagens e fazer chamadas na perfeição? Não será isso suficiente? Não. Hoje em dia, um telemóvel serve para tudo menos para fazer chamadas. Trata-se, com efeito, de um dinamicíssimo objecto, que nos permite perder horas a entretermo-nos com coisas que, numa perspectiva fria e racional, correriam o risco de serem consideradas inúteis. No futuro, um telefone que faça chamadas, será algo extremamente uncool.
Digo que o vou pôr à venda no e-bay. Afinal, sempre me pode servir de alguma coisa. 200 euros equivalem a oito jantares fora, meio computador novo... “Não! – reagem as pessoas à minha volta, escandalizadas, como se eu planeasse fazer um aborto – Estás louca? Não vês que hoje em dia é IMPRESCINDIVEL teres um telemóvel desses?”. E é, pelos vistos. Ao que parece, nos dias que correm, toda a gente tem um nokia-mega-hip-tune-x-press-blutooth-nip-tip-ultra. Desde os meus avós, ao Sr. Abel da mercearia, passando por Mabundo, o feiticeiro que vive numa cabana sem electricidade no Botswana.
Dou por mim a contemplar amargamente esta coisa (perdão, este belíssimo exemplar das tecnologias modernas). Para que preciso eu de um nokia-mega-hip-tune-ninja-blutooth-nip-tip-mega? Para ouvir música, dizem-me uns. Mas eu já tenho um mp3. Para tirar fotografias, dizem-me outros. Mas eu já tenho uma câmara. Para mostrar aos meus amigos? Mas eu vou deixar de ter amigos quando eles perceberem que eu só ando com o meu novo telefone na mala para disfarçar, pois secretamente ainda uso o velho.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
No mínimo, revelador
Numa reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas da semana passada, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Indiano SM Krishna trocou o seu discurso pelo do homólogo Jorge Amado.
Durante vários minutos papagueou frases que, adivinho eu, não fariam para ele qualquer sentido, revelando assim um absoluto desprezo pela posição que preenche e pelas funções que lhe são incumbidas. Mais, pela responsabilidade que é representar um povo, com o seu voto de confiança.
Fossem algumas linhas, a situação era perdoavel. Mas SM Krishna passou longos minutos a discorrer sobre a importância da CPLP, e sobre o facto de Portugal e Brasil se encontrarem juntos ali naquele dia, entre outras questões. Só parou porque um dos seus acessores o avisou, senão continuaria alegremente, suponho, até terminar.
Podia ser uma piada, mas não. É preocupante. A Índia é uma nação desenvolvida em muitas áreas, com peso na cena internacional. Se SM Krishna aparece neste tipo de encontros sem ter o mínimo de noção do que lá se passa, acredito, é possivel que representantes de outras nações façam o mesmo.
É caso para perguntar quem é esta gente, o que anda lá a fazer.
Gosto particularmente do pormenor em que ele levanta a cabecinha, várias vezes, como quem sabe o seu discurso de cor.
Durante vários minutos papagueou frases que, adivinho eu, não fariam para ele qualquer sentido, revelando assim um absoluto desprezo pela posição que preenche e pelas funções que lhe são incumbidas. Mais, pela responsabilidade que é representar um povo, com o seu voto de confiança.
Fossem algumas linhas, a situação era perdoavel. Mas SM Krishna passou longos minutos a discorrer sobre a importância da CPLP, e sobre o facto de Portugal e Brasil se encontrarem juntos ali naquele dia, entre outras questões. Só parou porque um dos seus acessores o avisou, senão continuaria alegremente, suponho, até terminar.
Podia ser uma piada, mas não. É preocupante. A Índia é uma nação desenvolvida em muitas áreas, com peso na cena internacional. Se SM Krishna aparece neste tipo de encontros sem ter o mínimo de noção do que lá se passa, acredito, é possivel que representantes de outras nações façam o mesmo.
É caso para perguntar quem é esta gente, o que anda lá a fazer.
Gosto particularmente do pormenor em que ele levanta a cabecinha, várias vezes, como quem sabe o seu discurso de cor.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O drama do pato
Uma boa notícia para todas aquelas pessoas que estavam a pensar suicidar-se esta semana, O Cisne Negro já chegou às salas de cinema; ou, mais confortavelmente, ao seu site de download ilegal preferido. Precisa de um motivo final para tomar aquele sumo de estricnina? Um empurrãozinho extra para saltar do 12º andar? Tenho a solução ideal para si.
Nina é uma deprimida e solitária bailarina obcecada pelo trabalho que, incompreensivelmente, ainda mais abatida fica quando percebe que acabou de ser escolhida para o papel sonhado por qualquer profissional do seu ramo. Em vez de se alegrar por atingir o auge da sua carreira, passa o tempo inteiro com cara de susto e de choro. A partir daí, como se percebe, o ambiente só poderia ficar ainda mais pesado. Surgem então vários personagens que se vêm juntar à festa. Um professor tarado sexual com fetiches sádico-controladores, uma mãe dominadora com passatempos bizarros, e uma colega junkie-lésbica que não olha a meios para lhe conseguia roubar o lugar. Às tantas, percebe-se que Nina sofre do que seria clinicamente definido por esquizofrenia. As suas alucinações consistem essencialmente em ouvir vozes e ver partes do seu corpo esvaírem-se em sangue. Mais nada? Claro que sim. Muito e muito mais, ao ponto de sairmos da sala a achar que o mundo não tem solução, e a vida é um grande poço vazio sem fundo. Mas seria indelicado revelar demasiado aos que ainda pretendem assistir a esta tão reputada película. Resta-me apenas fazer uma observação, para aqueles que depois disto optarão por uma comédia light da próxima vez que forem ao cinema, mas que mesmo assim gostariam de saber um pouco mais sobre o filme, para o poderem discutir no seu círculo de amigos: sangue, sexo, e alucinações. São estas as palavras-chave, e tudo o que precisam de saber sobre O Cisne Negro.
Percebo que o objectivo tenha sido o de expor o “lado negro” do mundo do ballet. Temo, no entanto, que o realizador tenha ido um pouco longe demais.
Estou plenamente consciente do risco de com isto vir a ser detestada pelos intelectuais da sétima arte, que considerem este um filme visualmente espectacular, e o desempenho da actriz principal como sendo magnífico. Não digo que não. Afinal, sou tudo menos uma especialista, e admito que a minha sensibilidade dentro do género possa ser demasiado rudimentar, ao ponto de preferir o entretenimento sobre a inatingível peça artística, destinada apenas às elites mais iluminadas. Apenas digo é que talvez seja melhor assistir-se ao mesmo acompanhado de uma garrafa da Vodka, ou uma carteira de Prozac.
Nina é uma deprimida e solitária bailarina obcecada pelo trabalho que, incompreensivelmente, ainda mais abatida fica quando percebe que acabou de ser escolhida para o papel sonhado por qualquer profissional do seu ramo. Em vez de se alegrar por atingir o auge da sua carreira, passa o tempo inteiro com cara de susto e de choro. A partir daí, como se percebe, o ambiente só poderia ficar ainda mais pesado. Surgem então vários personagens que se vêm juntar à festa. Um professor tarado sexual com fetiches sádico-controladores, uma mãe dominadora com passatempos bizarros, e uma colega junkie-lésbica que não olha a meios para lhe conseguia roubar o lugar. Às tantas, percebe-se que Nina sofre do que seria clinicamente definido por esquizofrenia. As suas alucinações consistem essencialmente em ouvir vozes e ver partes do seu corpo esvaírem-se em sangue. Mais nada? Claro que sim. Muito e muito mais, ao ponto de sairmos da sala a achar que o mundo não tem solução, e a vida é um grande poço vazio sem fundo. Mas seria indelicado revelar demasiado aos que ainda pretendem assistir a esta tão reputada película. Resta-me apenas fazer uma observação, para aqueles que depois disto optarão por uma comédia light da próxima vez que forem ao cinema, mas que mesmo assim gostariam de saber um pouco mais sobre o filme, para o poderem discutir no seu círculo de amigos: sangue, sexo, e alucinações. São estas as palavras-chave, e tudo o que precisam de saber sobre O Cisne Negro.
Percebo que o objectivo tenha sido o de expor o “lado negro” do mundo do ballet. Temo, no entanto, que o realizador tenha ido um pouco longe demais.
Estou plenamente consciente do risco de com isto vir a ser detestada pelos intelectuais da sétima arte, que considerem este um filme visualmente espectacular, e o desempenho da actriz principal como sendo magnífico. Não digo que não. Afinal, sou tudo menos uma especialista, e admito que a minha sensibilidade dentro do género possa ser demasiado rudimentar, ao ponto de preferir o entretenimento sobre a inatingível peça artística, destinada apenas às elites mais iluminadas. Apenas digo é que talvez seja melhor assistir-se ao mesmo acompanhado de uma garrafa da Vodka, ou uma carteira de Prozac.
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