segunda-feira, 2 de maio de 2011

Egipto: um mês pelo outro lado do país

Embora a viagem tenha sido mais longa... Aqui vai o artigo no Jornal i.


Texto: Teresa Lopes Vieira
Fotografia: Manuel Bon de Sousa

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Contornos da palavra" em Viana do Castelo

Amanhã vou estar, juntamente com a escritora Raquel Ochoa e a moderadora Isabel Campos, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, para uma conversa sobre "Ler o mundo viajando no feminino", às 9h30.


"De 26 a 30 de Abril decorre em Viana do Castelo, a 2ª Edição dos “Contornos da Palavra”, cujo programa, este ano, tem como tema central a “Literatura de Viagens”.
Contornos da Palavra é uma iniciativa da Câmara Municipal de Viana do Castelo que visa marcar um universo de reflexão em torno da palavra centrada em grandes temáticas da literatura, estimulando a literatura e a escrita a partir da partilha de uma reflexão construtiva e da necessidade de mais e melhores leitores.

Esta iniciativa contempla a dinamização de sessões nas escolas do concelho com a presença dos escritores:
Raquel Ochoa, Teresa Lopes Vieira, Gonçalo Cadilhe, Tiago Salazar, David Machado, Pedro Seromenho, Miguel Horta e Tiago Gonçalves. "

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Festival Literatura em Viagem - 2011


Os aerogeradores - sim, acabei de aprender esta palavra - giravam imponentes, movidos pelo vento, exalando energias renováveis pelas brisas da Beira Litoral. Estava uma tarde fantástica na A8, até que tudo começou a correr mal. Um senhor agente de bigode combativo acena-nos ao longe para que tomemos o primeiro desvio à direita. Lá vamos em fila indiana até Pataias (não é assim tão interessante quanto o nome o possa sugerir) até que um ataque de genialidade nos empurra para um caminho alternativo “incomparavelmente mais rápido”. Quem é que quer ir para o Porto, e em vez disso acaba a ver o pôr-do-sol na praia da Nazaré? Boa tarde, o meu nome é Teresa Lopes Vieira.

Às onze da noite chegámos ao hotel com um único pedido: que nos indicassem um lugar para comer. Qualquer lugar. Um moço prestável, de sorriso copy-paste, aconselha-nos gentilmente o restaurante da esquina. Escutámos com atenção e, obviamente, escolhemos outro qualquer. Fartos de cambalear pelos cantos de cansaço, tocámos, hesitantes, a uma campainha de esquina aleatória. Acolheu-nos uma senhora de pálpebras azuis garridas, que trotava à nossa volta em pontinhas dos pés, e nos mimou como se de nossa mãe se tratasse. Era uma sala do género casamentos e baptizados onde, por dez euros cada, comemos fartamente. Mais tarde fomos a rebolar para o hotel. Ia ser assim em Leça e Matosinhos: engordar bem, à moda do Norte, todos os dias.

Mas o principal era o motivo da minha viagem. Aquilo em que já cismava há semanas. Há que compreender isto. Quando eu digo que vou assistir a um festival de literatura, no qual ainda por cima fui convidada a participar, é como uma miúda de 18 anos que recebesse de borla um bilhete para o Festival Sudoeste TMN. Os mais prestigiados autores, aquelas pessoas de cuja figura só normalmente vemos um busto constrangido na lapela de um livro; iam estar lá, passeando como se nada fosse, comportando-se como pessoas normais. Comendo, andando, dormindo, cagando. E eu no meio deles.
Sentavam-se na mesma mesa onde eu ia falar. Uns divagavam sobre a vida, outros liam textos, outros experimentavam o humor. E depois ia chegar a minha vez (quem é esta??). Como tentar igualar em interesse Richard Zimler, best-seller internacional, nesse dia sentado nem mais do que duas cadeiras ao meu lado? Tema: “o futuro é uma viagem da memória”... No fim, decidi-me a falar daquilo que de mais interessante me tinha acontecido nos últimos tempos: algumas viagens, o meu livro.
Penso que terá corrido tudo bem. Não desmaiei nem vomitei, ninguém se foi embora a meio; e eu, por minha vez, adorei poder fazer parte de um evento como este.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

LeV - Literatura em Viagem - 2011


“A Câmara Municipal de Matosinhos vai organizar a 6ª edição do LEV - Literatura em Viagem, um festival internacional de literatura, que se irá realizar entre os dias 16 e 19 de Abril, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca.
Este evento, que pretende contribuir para uma reflexão em torno da importância que a literatura, em interacção com outros domínios da sociedade, assume nos dias de hoje, reúne em torno da literatura de viagens, importantes escritores e personalidades, provenientes dos quatro cantos do mundo, num encontro que promove o livro, a leitura e o diálogo intercultural.”

Luis Sepúlveda, Gonçalo M. Tavares, José Luiz Peixoto, valter hugo mãe, e Ondjaki, são alguns nomes entre os 50 artistas de vários países que irão participar neste evento.

Dia 19 de Abril – terça-feira, às 15h, “O futuro é uma viagem da memória” com António Jorge Gonçalves, C.S. Richardson, Henrique Fialho, Richard Zimler e Teresa Lopes Vieira.
Moderador: Alberto Serra.

sábado, 2 de abril de 2011

Aló, presidente? Sí, presidente.

E eis que a controvérsia atinge de novo este pais tropical à beira das Caraíbas plantado. Imenso e contrastado são dois adjectivos que tanto servem para descrevê-lo a si, como ao seu líder. A Universidade de La Plata, na Argentina, decidiu atribuir um prémio para a liberdade de imprensa ao Presidente da Venezuela Hugo Chávez. Assim o foi, pelo seu “contributo para a comunicação popular”, por “desmontar os monopólios mediáticos vigentes” e pelo seu “inquestionável compromisso na defesa da liberdade do seu povo, na consolidação da unidade latino-americana e na promoção dos direitos humanos e valores democráticos”.

Afirma Bart Jones, jornalista e biógrafo, que a principal razão que o levou a escrever um livro sobre este homem foi a de que a sua vida parecia ter “saído directamente de um filme de Hollywood”. Se bem que o mesmo fosse capaz de não apreciar a analogia, ela não perde por isso o fundamento.
Este líder controverso e polémico, amado por uns e detestado por outros, veio de uma humilde região dos Llanos, tendo passado os seus primeiros anos a viver numa cabana feita de adobe. Seguiu posteriormente carreira na Academia Militar, onde conspirou contra o poder vigente. Na altura do governo de Carlos Andrés Perez, a miséria, a inflação e o desemprego eram incomportáveis; e as riquezas provenientes do petróleo, essas, concentravam-se exclusivamente numa pequena elite. A gota de água foi sem dúvida o Caracazo, uma revolta popular reprimida sangrentamente. Um golpe militar falhado em 92, que o levou à prisão, fez então de Chávez algo parecido com um herói.
Enquanto presidente, continuou ainda a ter inimigos muito poderosos entre as classes dominantes; e sem dúvida fosse essa a explicação para algumas das suas medidas mais extremas. *

Quem o ouvisse falar, nos primeiros anos do seu governo, achá-lo-ia possuído por alguma sorte de feitiço, uma energia mágica expressa através das simples palavras. A sua capacidade de mover massas, sobretudo entre os mais pobres, é ainda hoje aquilo em que reside o seu poder.
Incorreu, porém, naquele que penso ser o artificio fatal para alguém tão extremo e provocador: tornou-se numa caricatura de si próprio, o personagem central de um gigantesco circo de demagogia, populismo, e culto da personalidade. Fugindo ao debate critico de uma sociedade democrática, rodeou-se de um bando de temerosas figuras que aquiescem a qualquer decisão sua, e se deixam responsabilizar por todas as falhas no sistema, sob pena de verem as respectivas carreiras ir por água abaixo. A revolução socialista, que tanto preconizava, não logrou pôr em prática algumas das suas mais importantes reformas. Os seus discursos transformaram-se em desesperadas chorrilhos de chavões anti-imperialistas, tão confusos e generalistas que podiam ser copiados ao infinito e aplicados a qualquer situação.
O medo da oposição levou-o a crer que alguns fins justificavam certos meios. E assim esse pavor se revelou na criação da um one man show de cinco horas na televisão estatal, transmitido todos os Domingos, em que o protagonista/herói é ele próprio. Mas também no encerramento de inúmeros postos de rádio e canais de televisão por cabo; assim como outros tipos de censura, como propostas de restrições às mensagens publicadas nas redes sociais.

Tal como diz John Dines, professor da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, este prémio revela, acima de tudo, ideias diferentes sobre a liberdade de imprensa na América Latina. Eu acrescentaria que estamos perante uma perspectiva ambivalente, em que os dois lados da moeda merecem ser analisados. Considero, porém, que este prémio já teve mais razão de ser em outros tempos do que agora.


*A propósito do fecho da estação televisiva RCTV, veja-se como a informação passada nos media pode por vezes dar azo à contra-informação,emhttp://venezuelanalysis.com/analysis/2221

segunda-feira, 21 de março de 2011

Islão – passado, presente e futuro.

Hans Kung é um teólogo cristão suíço-alemão que defende medidas consideradas polémicas dentro da Igreja, tais como o fim do celibato dos padres, e a abertura do sacerdócio às mulheres. Em 1979, depois da publicação dum livro considerado subversivo sobre a Infalibilidade Papal (o dogma que afirma que o Papa, quando define solenemente algo em matéria de fé ou moral, está sempre correcto), o Vaticano retirou-lhe a permissão para ensinar Teologia em seu nome. Guardou, todavia, o seu lugar na universidade de Tubingen, sendo actualmente presidente da Global Ethic Foundation.

Os séculos passam, o Homem permanece semelhante a si mesmo. A religião continua, nos dias que correm, a servir de pretexto emocional e psicológico com o objectivo real de servir propósitos políticos e económicos. É o caso em alguns países árabes, mas também nos Estados Unidos, por exemplo, em que o Cristianismo é por vezes visto como o Bem, comparativamente ao Islão, frequentemente diabolizado (assim se substituindo, neste caso, o Comunismo pelo Islamismo).
Contra este preconceito bipolar luta Hans Kung, naquele que é o último de três grandes tomos dedicados às religiões monoteístas.


Islão - passado, presente e futuro. Editora: Edições 70

Como ateia convicta, vejo contudo os conhecimentos básicos sobre qualquer grande religião como essenciais para o entendimento do mundo actual e passado. Penso que no caso do Islão isto é particularmente verdade, devido aos conflitos mortais que com ele se relacionam. Vivemos constantemente sob esta “ameaça” (vide, o medo de que a Irmandade Muçulmana ganhe as próximas eleições no Egipto, e como isso foi crucial para o tardio e reticente apoio internacional à revolução em curso), criando a imagem de uma religião obscura, baseada nas manifestações de extremismo que chegam a nós através dos media. O extremismo existe e é grave. E sim, tem vindo a ganhar uma enorme força, o que é de recear tendo em conta os grandes poderes económicos que o amparam, nomeadamente na Arábia Saudita. Mas quem é o comum muçulmano? Muito provavelmente aquele que apenas se preocupa em fazer as suas orações, esmolas e eventuais peregrinações; sem quaisquer planos de conquista mundial ou aspirações a práticas suicidárias.

Segundo Kung, um dos problemas centrais do Islão é o de ter ficado preso na sua própria versão da Idade Média. Ao contrario do Judaísmo e do Cristianismo, não sucumbiu a nenhuma reforma religiosa. “O culpado é a perpetuação de um paradigma para alem da época adequada” que “em condições históricas totalmente diferentes, levará a uma dessincronização e, deste modo, à improdutividade espiritual”. É o caso da ainda aplicação, em certas zonas, de costumes da sharia completamente anacrónicos, tais como o apedrejamento.
Assim, uma das principais causas do conflito inter-religioso é a persistência de modos de pensar datados. Mas isto aplica-se a todas elas. Afinal, o celibato dos padres pode ter sido uma (não a única, obviamente) das razões para tantos casos de pedofilia na Igreja Católica.
Kung defende que a melhor maneira de resolver o problema é apelar ao conhecimento mútuo entre as partes. Não fosse a mensagem do livro, nas suas próprias palavras: “Não há paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não há paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não há diálogo entre as religiões sem pesquisa na base das religiões. Não há sobrevivência no nosso globo sem uma ética global, uma ética mundial compartilhada por crentes e não crentes.”
Este livro pretende ultrapassar os preconceitos, proporcionando um saber efectivo sobre a matéria. Numa excelente e clara abordagem, com discurso limpo e bem estruturado, analisam-se 1400 anos de história, a mensagem, as práticas e os desafios actuais.

segunda-feira, 14 de março de 2011

KIri-kiri Kiri-kiri-ki

Os Homens da Luta são - para aqueles que apenas agora deles ouvem falar, em consequência da sua inusitada vitória na mais recente edição Festival da Canção – dois personagens há alguns anos criados pelo humorista Jel e o seu irmão, para o programa televisivo Vai Tudo Abaixo. Homens do PREC, com nítidas influências Zécafonsianas, revolucionários com propensão para semear a desordem; levaram o troféu para casa neste evento do qual já pouco ou nada se sabia ou queria saber.
Pasmo-me ao deparar-me nas reacções mais indignadas, nomeadamente por parte daqueles que, de resto, têm em outras ocasiões merecido o meu profundo respeito.
Penso que o humor é uma forma de contestação tão legítima como qualquer outra. Mais: democrática e necessária, já que se trata de uma maneira eficaz de despertar consciências (sobretudo as mais jovens, muitas vezes adormecidas). Não é novidade que ultimamente se verifica algum sentimento de apatia e desinteresse por parte da população, relativamente ao que se passa dentro das lutas politicas; sobretudo devido à sua impotência e frustração ao perceber que estas poucas respostas práticas têm trazido aos problemas económicos e sociais. Se o humor é uma forma de reavivar a esperança de que a situação melhore, porque não aceitá-lo?
Posto isto, contrariamente a alguns, não estou minimamente preocupada com a nossa figura neste particular diante dos alemães. Não me parece que a aptidão de Portugal para receber dinheiro da União Europeia tenha o mínimo que ver com a nossa performance no Festival da Eurovisão. Mas se, por um acaso do destino assim o for, acho que muito pelo contrário, se eu fosse alemã adquiriria todo um novo respeito pelos lusitanos. Com efeito, a candidatura dos Homens da Luta parece-me uma proposta bem útil a quem pretende pedinchar dinheiro. Mostra que somos um povo criativo e vanguardista, pouco conformado e com personalidade - tudo qualidades propícias a aliciar os potenciais investidores estrangeiros.
Nas poucas entrevistas que vi com estes humoristas, entristece-me particularmente o distanciamento irónico de alguns jornalistas em relação aos mesmos; bombardeando-os com perguntas sarcásticas, quase como se sentissem ameaçados. A verdade é que o humor é um veículo poderosíssimo para passar certas mensagens, e subestimá-lo não me parece de todo o caminho. Utilizar os meios que se nos apresentam para expressar algo que, de outro modo, se reflectiria em choraminguice e queixumes (ie, a crise) parece-me bastante saudável. Não nos levemos demasiado a sério. Por norma, isso só tende a piorar as coisas. Acho extremamente animador – e daqui retiro o exemplo – que em relação a tempos tão difíceis os portugueses sejam capaz de aclamar uma mensagem positiva e divertida.

Será que os alemães ficariam mais bem impressionados com esta finalista?