domingo, 21 de agosto de 2011
Londres, o rescaldo
Aqui está uma entrevista elucidativa, que nos mostra a perspectiva daqueles que estiveram na origem de alguns actos de vandalismo.
Segundo o famoso blogger David Allen Green, todos temos tendência a olhar para este género de tumultos como para uma confirmação da nossa opinião política já previamente construída: seja ela um preconceito racial ou social (no caso dos conservadores de extrema direita) seja uma questão social latente (no caso da esquerda). Porque no fundo, quando confrontados com estes acontecimentos, todos acham que sabem o que realmente os causou. E assim sendo, estes motins nada mais fazem do que confirmar e reforçar os preconceitos já existentes.
Nesse sentido, o seu suposto efeito desejado (chamar a atenção para, ou a revolta contra, uma determinada ordem social) não teria sido alcançado, mas sim o seu oposto.
No entanto, penso que valerá a pena olhar para a entrevista, e ver um pouco além da atitude displicente destes rapazes para quem estes foram apenas “dias como qualquer outro”. E reflectir um pouco, como o sugere a reportagem, sobre o facto de os mesmos, ainda que perfeitamente conscientes da situação de risco (alguém, incluindo a policia, podia identificá-los através destas imagens) terem querido dar uma voz ao protesto. Mesmo tratando-se de actos perfeitamente selvagens e egoístas, a verdade é que as causas não podem ser ignoradas. Citando o próprio repórter: “o facto de estarem isolados não é uma desculpa, mas sim parte do contexto”.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Se não podes vencê-los, junta-te a eles
“- Vamos correr?
- ‘Bora.
- Para onde?
- Para a praia!”
Parece uma ideia genial, não parece? Mas não é.
Primeiro erro estratégico: “vou cedo, para apanhar a praia vazia”.
Já pintava o cenário idílico de um areal extenso, a costa serena e límpida, e escassos banhistas aqui e ali, começando a surgir por entre as brumas matinais.
Mas a minha ingenuidade, constato, não tem limites, no que toca a planos lúdico-desportivos estivais.
Sou também levada a concluir que a minha ideia de “cedo” pode ser o “normal” dos outros (e, assim sendo, eu não sou uma pessoa normal).
Penetrava eu nas belas dunas, quando, em vez da célebre maresia que tanto enche os pulmões de oxigénio, fustigou-me as narinas um cheiro a lula frita e cebola refogada. Mas não me deixei derrotar. Depois de meses de vida sedentária, decidira revoltar-me, e obrigar-me a praticar o desporto de que todos necessitamos. E sim, é Verão, como tal há que aproveitar ao máximo os atributos do nosso clima. O facto de não ver o mar há quase dois meses chocava a adolescente fútil de cujos vestígios sobrevivem moribundos em mim, que se queria bronzeada e saudável, e para quem a desculpa “estou cheia de trabalho” não servia.
Na areia, lutando para encontrar espaço para a toalha, constatei que o horizonte se desdobrava em centenas de guarda-sóis coloridos. O cheiro a lulas misturava-se agora com um aroma a suores mistos e cremes solares. Instalei-me ao lado de uma família de emigrantes luso-franceses, e escutando o som do seu radiofone a pilhas da última geração, suspirei. No ranking de cenários idílicos, este não estava certamente entre os primeiros.
Mas ia correr, disso ninguém me podia impedir. A parte da motivação estava ultrapassada, e agora seria demasiado mau perder o momentum.
Dei então início a uma gincana que se poderia comparar a uma prova de equitação olímpica, versão Ser Humano. Para avançar dois metros tinha de saltar por cima das senhoras brancas e volumosas sentadas de chapéu à beira-mar, das crianças semi-nuas que corriam suicidáriamente na minha direcção, e desviar-me das barrigas proeminentes de alguns banhistas mais adeptos da lula guisada. Sentia que estava num jogo de computador, em que eu era o desafortunado personagem principal. E não estava a passar de nível.
Será que a população portuguesa triplicou nos últimos meses? Perguntei-me.
Ou será simplesmente que, no Verão, o português comum passa cem por cento do seu tempo na praia, como se fosse outro trabalho qualquer, ao qual ele sente a necessidade de se dedicar com o mesmo afinco? A segunda, penso, é a resposta correcta. Por isso, resolvi não ir contra o sistema. Afinal, eu também sou portuguesa. No meu próximo dia livre, não vou esquecer que às nove em ponto tenho de estar na areia, mas não para correr. Na mala do carro levo o guarda-sol e a lancheira com sandes de rojões e minis. Faço também questão de levar a cadeira desdobrável, e os putos (que não tenho, mas arranjo uns). O desporto, esse, fica mais para Setembro.
- ‘Bora.
- Para onde?
- Para a praia!”
Parece uma ideia genial, não parece? Mas não é.
Primeiro erro estratégico: “vou cedo, para apanhar a praia vazia”.
Já pintava o cenário idílico de um areal extenso, a costa serena e límpida, e escassos banhistas aqui e ali, começando a surgir por entre as brumas matinais.
Mas a minha ingenuidade, constato, não tem limites, no que toca a planos lúdico-desportivos estivais.
Sou também levada a concluir que a minha ideia de “cedo” pode ser o “normal” dos outros (e, assim sendo, eu não sou uma pessoa normal).
Penetrava eu nas belas dunas, quando, em vez da célebre maresia que tanto enche os pulmões de oxigénio, fustigou-me as narinas um cheiro a lula frita e cebola refogada. Mas não me deixei derrotar. Depois de meses de vida sedentária, decidira revoltar-me, e obrigar-me a praticar o desporto de que todos necessitamos. E sim, é Verão, como tal há que aproveitar ao máximo os atributos do nosso clima. O facto de não ver o mar há quase dois meses chocava a adolescente fútil de cujos vestígios sobrevivem moribundos em mim, que se queria bronzeada e saudável, e para quem a desculpa “estou cheia de trabalho” não servia.
Na areia, lutando para encontrar espaço para a toalha, constatei que o horizonte se desdobrava em centenas de guarda-sóis coloridos. O cheiro a lulas misturava-se agora com um aroma a suores mistos e cremes solares. Instalei-me ao lado de uma família de emigrantes luso-franceses, e escutando o som do seu radiofone a pilhas da última geração, suspirei. No ranking de cenários idílicos, este não estava certamente entre os primeiros.
Mas ia correr, disso ninguém me podia impedir. A parte da motivação estava ultrapassada, e agora seria demasiado mau perder o momentum.
Dei então início a uma gincana que se poderia comparar a uma prova de equitação olímpica, versão Ser Humano. Para avançar dois metros tinha de saltar por cima das senhoras brancas e volumosas sentadas de chapéu à beira-mar, das crianças semi-nuas que corriam suicidáriamente na minha direcção, e desviar-me das barrigas proeminentes de alguns banhistas mais adeptos da lula guisada. Sentia que estava num jogo de computador, em que eu era o desafortunado personagem principal. E não estava a passar de nível.
Será que a população portuguesa triplicou nos últimos meses? Perguntei-me.
Ou será simplesmente que, no Verão, o português comum passa cem por cento do seu tempo na praia, como se fosse outro trabalho qualquer, ao qual ele sente a necessidade de se dedicar com o mesmo afinco? A segunda, penso, é a resposta correcta. Por isso, resolvi não ir contra o sistema. Afinal, eu também sou portuguesa. No meu próximo dia livre, não vou esquecer que às nove em ponto tenho de estar na areia, mas não para correr. Na mala do carro levo o guarda-sol e a lancheira com sandes de rojões e minis. Faço também questão de levar a cadeira desdobrável, e os putos (que não tenho, mas arranjo uns). O desporto, esse, fica mais para Setembro.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
O tuga no "estrangeiro"
Os jornais abarrotam com a tragédia que abalou o mundo. Praticamente uma centena de jovens inocentes foi morta graças à mente pervertida de um maníaco, em prol de um ideal perverso e sem nexo. No entanto, para os noticiários portugueses, apenas uma e só uma coisa interessa: recolher a opinião do tuga no local.
Pouco importam os peritos, psicólogos e presidentes; pouco importam as vítimas, ou mesmo as suas famílias. Querem saber como a Noruega está a reagir a esta crise? Vão à internet procurar. A nós, o que nos interessa mesmo saber é o que um português qualquer, que estava na cidade por acaso e que nem sequer tem nada a ver com o assunto, pensa sobre aquela matéria. Porque, note-se, isso é muito mais importante. Em geral, quando algo grande acontece a nível internacional, os jornalistas dedicam o seu tempo de pesquisa e os seus recursos a procurar, não factos interessantes ou informativos, mas sim portugueses. Simplesmente isso: portugueses.
“Chamo-me Joel da Silva, por acaso estava aqui de férias em Oslo e, realmente, olhe que isto é uma grande desgraça, anda tudo muito desanimado. Os meus filhos e a minha mulher até disseram que...” Ai sim? Temos realmente orgulho naquele individuo aleatório, e no chorrilho de bitaites desinformados que ele tem a comunicar-nos. Dedicamos-lhe um tempo de antena infinito, em conversas telefónicas de má qualidade e sem interesse, porque ele é o nosso herói: ele é “o português que estava lá a passar férias”.
Não que eu tenha alguma coisa contra os portugueses que passem férias na Noruega. Fico extremamente feliz por eles, embora pressinta que os seus planos de lazer tenham sido ligeiramente abalados. Mas isto para constatar que o nosso orgulho nacional se resume, de facto, apenas a isso. Desde os tempos idos da emigração setentista, que qualquer compatriota que venha de fora é considerado uma espécie de herói, um sobrevivente desbravador de novas terras, um bravo descobridor do além. Mesmo que se trate do maior burgesso à face do planeta. “Estar no estrangeiro” confere-lhe, imediatamente, outro estatuto.
Foi por isso que ficámos tão contentes com a notícia de que o reactor nuclear da Bobadela e o Durão Barroso estavam na “lista negra” de Anders Breivik. Digam o que disserem, era indisfarçável o entusiasmo dos repórteres pelo facto de constarmos, nós também, numa base de dados internacional de qualquer espécie; mesmo que neste caso a de um lunático homicida. Podemos patinhar no fundo de um poço financeiro sem esperança, afundados em dívidas e dominados pela crise. Mas estar na lista de alvos a abater de um maluco, isso, oh isso, não, ninguém nos tira!
Pouco importam os peritos, psicólogos e presidentes; pouco importam as vítimas, ou mesmo as suas famílias. Querem saber como a Noruega está a reagir a esta crise? Vão à internet procurar. A nós, o que nos interessa mesmo saber é o que um português qualquer, que estava na cidade por acaso e que nem sequer tem nada a ver com o assunto, pensa sobre aquela matéria. Porque, note-se, isso é muito mais importante. Em geral, quando algo grande acontece a nível internacional, os jornalistas dedicam o seu tempo de pesquisa e os seus recursos a procurar, não factos interessantes ou informativos, mas sim portugueses. Simplesmente isso: portugueses.
“Chamo-me Joel da Silva, por acaso estava aqui de férias em Oslo e, realmente, olhe que isto é uma grande desgraça, anda tudo muito desanimado. Os meus filhos e a minha mulher até disseram que...” Ai sim? Temos realmente orgulho naquele individuo aleatório, e no chorrilho de bitaites desinformados que ele tem a comunicar-nos. Dedicamos-lhe um tempo de antena infinito, em conversas telefónicas de má qualidade e sem interesse, porque ele é o nosso herói: ele é “o português que estava lá a passar férias”.
Não que eu tenha alguma coisa contra os portugueses que passem férias na Noruega. Fico extremamente feliz por eles, embora pressinta que os seus planos de lazer tenham sido ligeiramente abalados. Mas isto para constatar que o nosso orgulho nacional se resume, de facto, apenas a isso. Desde os tempos idos da emigração setentista, que qualquer compatriota que venha de fora é considerado uma espécie de herói, um sobrevivente desbravador de novas terras, um bravo descobridor do além. Mesmo que se trate do maior burgesso à face do planeta. “Estar no estrangeiro” confere-lhe, imediatamente, outro estatuto.
Foi por isso que ficámos tão contentes com a notícia de que o reactor nuclear da Bobadela e o Durão Barroso estavam na “lista negra” de Anders Breivik. Digam o que disserem, era indisfarçável o entusiasmo dos repórteres pelo facto de constarmos, nós também, numa base de dados internacional de qualquer espécie; mesmo que neste caso a de um lunático homicida. Podemos patinhar no fundo de um poço financeiro sem esperança, afundados em dívidas e dominados pela crise. Mas estar na lista de alvos a abater de um maluco, isso, oh isso, não, ninguém nos tira!
terça-feira, 12 de julho de 2011
Memoriae
Tome um ao jantar – sentenciou ele, com a sua impaciência muito jovem, olhando displicentemente o relógio, porque afinal de contas teria uma vida lá fora, longe dos armários e cheiro a remédios. A rotina não era nova. Já há muito se me criara o hábito de tragar como sobremesa a salada colorida de ácidos e enzimas que não fazem senão retardar aquilo que para todos é inevitável. A diferença deste residia no facto de ser o prenuncio de algo mais considerável. Uma atrofia generalizada, com perda neuronal específica em certas zonas do hipocampo, vulgarmente conhecida por Alzheimer.
A morte é uma ceifeira metódica. Primeiro leva-nos os amigos, depois a mulher, e agora até os gatos parecem miar com mais vagar, como se antevissem o que aí vem. Chamo-me José, tenho 86 anos, e lembro-me da casa que construi, com as próprias mãos, ao mudar-me para Lisboa. Situava-se num morro meio careca, vagamente semeado de habitações, no tempo em que o Campo Grande ainda era de facto composto por campo. Com paciência e determinação, como dizia o meu pai, se conseguem as coisas. Toda a minha vida segui esse lema, e hoje concluo que fui um homem bom. Cedo, porém, não recordarei quem sou. Os primeiros sintomas: esquecimento, confusão, irritabilidade. Tudo coisas que não me fazem diferença, já que tenho na memoria com exactidão o quarto de Beja onde nasci. Os berros e a parteira, esses, talvez não. Mas de nada lhes serve. Usam como prova o facto de por vezes me esquecer das caras e pessoas. No outro dia apareceu cá o Esteves e sem querer confundi-o com o meu falecido irmão. Interpretaram isso como um sinal. Dizem que um dia não poderei fazer as necessidades sozinho, ou sequer sair da própria cama sem a ajuda de um enfermeiro. Atiraram-me com essa palavra: demência. De todos os modos, foi por isso que me levaram a Catarina.
O carro vermelho que tem a Amélia lá dentro chegou numa tempestade carburadora. Sete anos passaram depressa, mas ela continua igual. Não sei se está com o mesmo homem, ou sequer se já saiu da tal instituição. Para o juiz deve servir já que prefere uma drogada a um velho que qualquer dia não sabe nem como cagar. Tiraram-me a minha menina. E reduziram à ausência estes anos todos em que, diriam os espertos, tentei compensar com uma neta as falhas na educação de uma filha. Não é fácil. Ninguém nos ensina a ser pais. Mal damos por nós o tempo passou e fizemos tudo errado, ou pelo menos foi o que ela disse. Que fiz tudo errado.
Posso estar chéché, mas ver, lá isso continuo a ver bem. Daqui lobrigo o lacinho cor-de-rosa que lhe ofereci pelo Natal. Está cada vez mais longe, e cedo não passará de uma mancha, junto com o fumo do carro vermelho. No regaço, espero que ainda traga o Botas, e que não lhe arranque de uma vez os olhos de botão já descaídos. Dizem que estes miúdos de hoje preferem os brinquedos modernos, mas a minha Catarina sempre se contentou com as coisas parcas da vida. Vou-me sentar aqui a ver afastar-se o que resta daquilo que fui. Cedo tudo não passará de uma rotina remendada por lapsos e lacunas. Dizem que vou esquecer a própria fala. Dizem que vou esquecer quem sou. Talvez a morte seja isso, o desaparecimento completo das palavras, até já não haver nada capaz de provar que um dia existimos.
A morte é uma ceifeira metódica. Primeiro leva-nos os amigos, depois a mulher, e agora até os gatos parecem miar com mais vagar, como se antevissem o que aí vem. Chamo-me José, tenho 86 anos, e lembro-me da casa que construi, com as próprias mãos, ao mudar-me para Lisboa. Situava-se num morro meio careca, vagamente semeado de habitações, no tempo em que o Campo Grande ainda era de facto composto por campo. Com paciência e determinação, como dizia o meu pai, se conseguem as coisas. Toda a minha vida segui esse lema, e hoje concluo que fui um homem bom. Cedo, porém, não recordarei quem sou. Os primeiros sintomas: esquecimento, confusão, irritabilidade. Tudo coisas que não me fazem diferença, já que tenho na memoria com exactidão o quarto de Beja onde nasci. Os berros e a parteira, esses, talvez não. Mas de nada lhes serve. Usam como prova o facto de por vezes me esquecer das caras e pessoas. No outro dia apareceu cá o Esteves e sem querer confundi-o com o meu falecido irmão. Interpretaram isso como um sinal. Dizem que um dia não poderei fazer as necessidades sozinho, ou sequer sair da própria cama sem a ajuda de um enfermeiro. Atiraram-me com essa palavra: demência. De todos os modos, foi por isso que me levaram a Catarina.
O carro vermelho que tem a Amélia lá dentro chegou numa tempestade carburadora. Sete anos passaram depressa, mas ela continua igual. Não sei se está com o mesmo homem, ou sequer se já saiu da tal instituição. Para o juiz deve servir já que prefere uma drogada a um velho que qualquer dia não sabe nem como cagar. Tiraram-me a minha menina. E reduziram à ausência estes anos todos em que, diriam os espertos, tentei compensar com uma neta as falhas na educação de uma filha. Não é fácil. Ninguém nos ensina a ser pais. Mal damos por nós o tempo passou e fizemos tudo errado, ou pelo menos foi o que ela disse. Que fiz tudo errado.
Posso estar chéché, mas ver, lá isso continuo a ver bem. Daqui lobrigo o lacinho cor-de-rosa que lhe ofereci pelo Natal. Está cada vez mais longe, e cedo não passará de uma mancha, junto com o fumo do carro vermelho. No regaço, espero que ainda traga o Botas, e que não lhe arranque de uma vez os olhos de botão já descaídos. Dizem que estes miúdos de hoje preferem os brinquedos modernos, mas a minha Catarina sempre se contentou com as coisas parcas da vida. Vou-me sentar aqui a ver afastar-se o que resta daquilo que fui. Cedo tudo não passará de uma rotina remendada por lapsos e lacunas. Dizem que vou esquecer a própria fala. Dizem que vou esquecer quem sou. Talvez a morte seja isso, o desaparecimento completo das palavras, até já não haver nada capaz de provar que um dia existimos.
domingo, 3 de julho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
Estás deprimido? Fica mais.

Gosto do meu país. E, em momentos de maior exaltação patriótica, chego mesmo a achar que somos uma nação de pessoas bem formadas e inteligentes, com ambição e carácter, capazes de grandes feitos. Porém, toda a minha esperança se esvai, quando vejo o "Perdidos na Tribo".
Para dizer a verdade, os programas de entretenimento portugueses já são sempre como a versão Auchan Polegar do seu correspondente estrangeiro: o formato está lá, o sabor e a qualidade é que talvez não. É claro que usar a palavra "qualidade" quando de fala de um reality show pode ser um pouco perigoso. Mas enfim.
A verdade é que, talvez por um instinto simplório e provinciano que me é difícil de controlar, certos programas, quando vistos em canais internacionais, nem me parecem assim taus maus. Os interpretes do Biggest Loser, por exemplo, eram, na minha perspectiva, uns simpáticos gordinhos americanos que suavam arduamente para caberem nas suas roupas preferidas e, com muito esforço e afinco, lá conseguiam emagrecer. Sentia alguma simpatia para com eles. Eram pessoas sofridas e combativas. Ao ver o Peso Pesado, o correspondente em português, porém, o meu estômago vira-se do avesso, como quem é compelido a engolir, sem respirar, cinco garrafões de Tide Máquina. É que os vários bandos de idiotas (perdão, concorrentes) pareciam muito mais fixes quando falavam "estrangeiro".
Não sei se Perdidos na Tribo também é um formato estrangeiro. Mas suponho que sim. Faz parte daquela onda moderna de programas da vida real em que os participantes têm de "fazer qualquer coisa".
É que finalmente, ao fim de dez anos do que adivinho ter sido um aguerrido debate intelectual, os directores de programas de canais generalistas perceberam que para atrair a curiosidade dos telespectadores talvez fosse preciso ir um pouco mais além do que estava a acontecer. Não bastava, por incrível que pudesse parecer, colocar uma dúzia de inúteis (perdão, concorrentes) numa casa a olhar uns para os outros e a babarem-se, soltando ocasionalmente sons guturais. Era preciso que acontecessem também coisas.
Mas que coisas? É que se, por um lado, há que entreter o comum telespectador; por outro, torna-se imperativo não confundi-lo, com informações demasiado complexas, e que os obriguem a formular aqueles factos altamente perigosos a que chamamos "pensamentos".
Quero acreditar que cada desgraça atinge o seu fim num determinado momento catártico e, como tal, os reality shows estão neste momento em pleno estado terminal de apoteóse no que diz respeito às tentativas desesperadas para captar a atenção dos telespectadores. Já não basta estarem numa quinta, ou mesmo terem um segredo; agora, o desespero é tal que chegou o momento de irem importunar os pobres nativos de países em vias de desenvolvimento, com as mesmas tarefas absurdas e aborrecidas de sempre. É incrível, mas tem de ser um sinal: nem quando são filmados do outro lado do mundo , estes programas têm interesse. Será que isso não quererá dizer qualquer coisa? Teimo em acreditar que sim.
domingo, 12 de junho de 2011
A nova era
Chegando ao nono ano, e vendo que os pais não lhe podiam dar a possibilidade de prosseguir os estudos, Sofia entrou como empregada numa cadeia de fast-food. Trabalhava as 40 horas semanais, 50, às vezes, para ganhar 500 euros.
Aos 17, e embora estivesse a tomar a pílula contraceptiva, uma gravidez inesperada e um futuro filho que não podia sustentar obrigou-a a fazer um aborto numa clínica ilegal, graças ao qual uma complicação lhe tirou para sempre a possibilidade de engravidar.
Percebeu que a sua carreira só progrediria se adquirisse mais educação. Mas a restauração, como se sabe, quase não permite horários "normais". Aos 30, e com um pouco mais de tempo, resolveu começar a completar uma formação profissional. Hoje, é gerente de loja, e recebe finalmente os tão almejados 700 euros.
Sofia é, para uns, apenas uma caricatura. Mas cruzo-me todos os dias com ela na rua. Pode não ser tão trabalhadora, ou perseverante. Pode ter sido uma aluna mediana. Pode até ter sido medíocre. Mas se como eu, e outros tantos conhecidos, tivesse nascido num meio economico-social favorável, poderia ser CEO de uma empresa, e ganhar meio milhão de euros por ano. Podia, não estou a dizer que o fizesse. Podia, mas não poderá. Podia ainda , apesar disso, estar a fugir aos impostos, e ainda a pressionar governos para ser ainda menos tributada nas suas actividades, e distribuir prémios milionários sem razão aparente. Podia estar a dizer que tudo o que tinha fora conseguido através do mérito. Mas, provavelmente (salvo honrosas excepções) não seria só mérito, mas também o facto de ter nascido no lugar certo à hora certa.
O dinheiro está cá, Portugal é um dos países da Europa onde é mais fácil fazer (muito) dinheiro. É também fácil esbanjá-lo, em obras públicas que só aproveitam a quem as constrói. Só não está nos lugares certos.
Com este novo governo, mais do que nunca, cada um vai "ganhar o que merece", ou seja, segundo a lógica neo-liberal (mascara atrás da qual se esconde muitas vezes o maior conservadorismo), consoante a procura no mercado para o serviço que presta, sem regras nem limites. É muito fácil fazer dinheiro, só é preciso é ter bastante para começar.
As pessoas qualificadas ganham mais do que as outras, e ainda bem. Há que estimular a economia nesse sentido. Apenas defendo limites para esses ganhos, uma tributação justa e proporcional, que permita um amparo mínimo a quem mais precisa para sobreviver. Não é nada de novo, apenas o é neste pais.
Tanto eu, como muitos ex-colegas de curso, nunca teríamos conseguido pagar os estudos se não fosse a ajuda dos nossos pais, ou seja, se não tivéssemos nascido numa estrutura económica suficientemente sustentada, que nos permitiu acesso a uma carreira mais remunerada. Noutros países teríamos acesso privilegiado à saúde, ajudas na educação e na renda da casa; mas cá não. Se não fossem os pais desses meus colegas, metade deles estaria a lavar pratos na pizza hut. Mas hoje escolheram virar as costas e fechar os olhos, num negacionismo egoísta que só se entende como sendo uma cegueira social absoluta, própria de país em que o tão ultrapassado conceito de "classes" ainda existe. Só se entende porque, para eles, Sofia é apenas um número, e não uma pessoa real.
Para muita gente, se Sofia for despedida e não conseguir outro emprego tão cedo, é só mais uma "preguiçosa" que "apenas não quer trabalhar". Se estiver dois anos numa lista de espera de um hospital público será por culpa própria, porque “quer chular o sistema”. O seu diploma, como o disse o novo Primeiro Ministro, é um “certificado de ignorância”. O azar de ser mulher numa sociedade ainda um pouco machista e de não poder sustentar um filho é um “crime contra a vida” (como defende o futuro ministro Paulo Portas).
A precariedade de Sofia, e o facto de não ter estudado, vai impedi-la de contribuir em toda a sua capacidade para o crescimento económico do país. Sim, o corte nos ditos “chupistas” e “inúteis da sociedade” só os vai tornar mais dependentes. Não é preciso ir muito longe, veja-se o exemplo da Grécia.
Liberalizar pode ser positivo quando é feito com moderação, em certas áreas, pois leva a uma evolução qualitativa, própria da concorrência saudável. Selvaticamente, porém, apenas contribuirá para uma sociedade mais desigual, com (ainda) menos igualdade de oportunidades. Estará tudo bem para quem tem sorte, mas quem não tem, tivesse. Bem vindos ao país mais africano da Europa.
Aos 17, e embora estivesse a tomar a pílula contraceptiva, uma gravidez inesperada e um futuro filho que não podia sustentar obrigou-a a fazer um aborto numa clínica ilegal, graças ao qual uma complicação lhe tirou para sempre a possibilidade de engravidar.
Percebeu que a sua carreira só progrediria se adquirisse mais educação. Mas a restauração, como se sabe, quase não permite horários "normais". Aos 30, e com um pouco mais de tempo, resolveu começar a completar uma formação profissional. Hoje, é gerente de loja, e recebe finalmente os tão almejados 700 euros.
Sofia é, para uns, apenas uma caricatura. Mas cruzo-me todos os dias com ela na rua. Pode não ser tão trabalhadora, ou perseverante. Pode ter sido uma aluna mediana. Pode até ter sido medíocre. Mas se como eu, e outros tantos conhecidos, tivesse nascido num meio economico-social favorável, poderia ser CEO de uma empresa, e ganhar meio milhão de euros por ano. Podia, não estou a dizer que o fizesse. Podia, mas não poderá. Podia ainda , apesar disso, estar a fugir aos impostos, e ainda a pressionar governos para ser ainda menos tributada nas suas actividades, e distribuir prémios milionários sem razão aparente. Podia estar a dizer que tudo o que tinha fora conseguido através do mérito. Mas, provavelmente (salvo honrosas excepções) não seria só mérito, mas também o facto de ter nascido no lugar certo à hora certa.
O dinheiro está cá, Portugal é um dos países da Europa onde é mais fácil fazer (muito) dinheiro. É também fácil esbanjá-lo, em obras públicas que só aproveitam a quem as constrói. Só não está nos lugares certos.
Com este novo governo, mais do que nunca, cada um vai "ganhar o que merece", ou seja, segundo a lógica neo-liberal (mascara atrás da qual se esconde muitas vezes o maior conservadorismo), consoante a procura no mercado para o serviço que presta, sem regras nem limites. É muito fácil fazer dinheiro, só é preciso é ter bastante para começar.
As pessoas qualificadas ganham mais do que as outras, e ainda bem. Há que estimular a economia nesse sentido. Apenas defendo limites para esses ganhos, uma tributação justa e proporcional, que permita um amparo mínimo a quem mais precisa para sobreviver. Não é nada de novo, apenas o é neste pais.
Tanto eu, como muitos ex-colegas de curso, nunca teríamos conseguido pagar os estudos se não fosse a ajuda dos nossos pais, ou seja, se não tivéssemos nascido numa estrutura económica suficientemente sustentada, que nos permitiu acesso a uma carreira mais remunerada. Noutros países teríamos acesso privilegiado à saúde, ajudas na educação e na renda da casa; mas cá não. Se não fossem os pais desses meus colegas, metade deles estaria a lavar pratos na pizza hut. Mas hoje escolheram virar as costas e fechar os olhos, num negacionismo egoísta que só se entende como sendo uma cegueira social absoluta, própria de país em que o tão ultrapassado conceito de "classes" ainda existe. Só se entende porque, para eles, Sofia é apenas um número, e não uma pessoa real.
Para muita gente, se Sofia for despedida e não conseguir outro emprego tão cedo, é só mais uma "preguiçosa" que "apenas não quer trabalhar". Se estiver dois anos numa lista de espera de um hospital público será por culpa própria, porque “quer chular o sistema”. O seu diploma, como o disse o novo Primeiro Ministro, é um “certificado de ignorância”. O azar de ser mulher numa sociedade ainda um pouco machista e de não poder sustentar um filho é um “crime contra a vida” (como defende o futuro ministro Paulo Portas).
A precariedade de Sofia, e o facto de não ter estudado, vai impedi-la de contribuir em toda a sua capacidade para o crescimento económico do país. Sim, o corte nos ditos “chupistas” e “inúteis da sociedade” só os vai tornar mais dependentes. Não é preciso ir muito longe, veja-se o exemplo da Grécia.
Liberalizar pode ser positivo quando é feito com moderação, em certas áreas, pois leva a uma evolução qualitativa, própria da concorrência saudável. Selvaticamente, porém, apenas contribuirá para uma sociedade mais desigual, com (ainda) menos igualdade de oportunidades. Estará tudo bem para quem tem sorte, mas quem não tem, tivesse. Bem vindos ao país mais africano da Europa.
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