De Vim Porque me Pagavam, de Golgona Anghel, retenho muita coisa. Um livro de poesia, no mínimo, espectacular.
Gostava de escolher um poema, mas como não me consigo decidir, deixo aqui a sua nota prévia (ou citação de abertura, como preferirem) da autoria de Fabián Casas.
"Esperando que la aspirina empiece a trabajar; (...)
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos
me pregunto en que momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal."
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
terça-feira, 30 de agosto de 2011
É já no dia 6 de Setembro que começa mais uma edição do curso "Escrever um livro: por onde começar?", dado por mim, na Escrever Escrever!
Saibam mais aqui.
Saibam mais aqui.
domingo, 21 de agosto de 2011
Londres, o rescaldo
Aqui está uma entrevista elucidativa, que nos mostra a perspectiva daqueles que estiveram na origem de alguns actos de vandalismo.
Segundo o famoso blogger David Allen Green, todos temos tendência a olhar para este género de tumultos como para uma confirmação da nossa opinião política já previamente construída: seja ela um preconceito racial ou social (no caso dos conservadores de extrema direita) seja uma questão social latente (no caso da esquerda). Porque no fundo, quando confrontados com estes acontecimentos, todos acham que sabem o que realmente os causou. E assim sendo, estes motins nada mais fazem do que confirmar e reforçar os preconceitos já existentes.
Nesse sentido, o seu suposto efeito desejado (chamar a atenção para, ou a revolta contra, uma determinada ordem social) não teria sido alcançado, mas sim o seu oposto.
No entanto, penso que valerá a pena olhar para a entrevista, e ver um pouco além da atitude displicente destes rapazes para quem estes foram apenas “dias como qualquer outro”. E reflectir um pouco, como o sugere a reportagem, sobre o facto de os mesmos, ainda que perfeitamente conscientes da situação de risco (alguém, incluindo a policia, podia identificá-los através destas imagens) terem querido dar uma voz ao protesto. Mesmo tratando-se de actos perfeitamente selvagens e egoístas, a verdade é que as causas não podem ser ignoradas. Citando o próprio repórter: “o facto de estarem isolados não é uma desculpa, mas sim parte do contexto”.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Se não podes vencê-los, junta-te a eles
“- Vamos correr?
- ‘Bora.
- Para onde?
- Para a praia!”
Parece uma ideia genial, não parece? Mas não é.
Primeiro erro estratégico: “vou cedo, para apanhar a praia vazia”.
Já pintava o cenário idílico de um areal extenso, a costa serena e límpida, e escassos banhistas aqui e ali, começando a surgir por entre as brumas matinais.
Mas a minha ingenuidade, constato, não tem limites, no que toca a planos lúdico-desportivos estivais.
Sou também levada a concluir que a minha ideia de “cedo” pode ser o “normal” dos outros (e, assim sendo, eu não sou uma pessoa normal).
Penetrava eu nas belas dunas, quando, em vez da célebre maresia que tanto enche os pulmões de oxigénio, fustigou-me as narinas um cheiro a lula frita e cebola refogada. Mas não me deixei derrotar. Depois de meses de vida sedentária, decidira revoltar-me, e obrigar-me a praticar o desporto de que todos necessitamos. E sim, é Verão, como tal há que aproveitar ao máximo os atributos do nosso clima. O facto de não ver o mar há quase dois meses chocava a adolescente fútil de cujos vestígios sobrevivem moribundos em mim, que se queria bronzeada e saudável, e para quem a desculpa “estou cheia de trabalho” não servia.
Na areia, lutando para encontrar espaço para a toalha, constatei que o horizonte se desdobrava em centenas de guarda-sóis coloridos. O cheiro a lulas misturava-se agora com um aroma a suores mistos e cremes solares. Instalei-me ao lado de uma família de emigrantes luso-franceses, e escutando o som do seu radiofone a pilhas da última geração, suspirei. No ranking de cenários idílicos, este não estava certamente entre os primeiros.
Mas ia correr, disso ninguém me podia impedir. A parte da motivação estava ultrapassada, e agora seria demasiado mau perder o momentum.
Dei então início a uma gincana que se poderia comparar a uma prova de equitação olímpica, versão Ser Humano. Para avançar dois metros tinha de saltar por cima das senhoras brancas e volumosas sentadas de chapéu à beira-mar, das crianças semi-nuas que corriam suicidáriamente na minha direcção, e desviar-me das barrigas proeminentes de alguns banhistas mais adeptos da lula guisada. Sentia que estava num jogo de computador, em que eu era o desafortunado personagem principal. E não estava a passar de nível.
Será que a população portuguesa triplicou nos últimos meses? Perguntei-me.
Ou será simplesmente que, no Verão, o português comum passa cem por cento do seu tempo na praia, como se fosse outro trabalho qualquer, ao qual ele sente a necessidade de se dedicar com o mesmo afinco? A segunda, penso, é a resposta correcta. Por isso, resolvi não ir contra o sistema. Afinal, eu também sou portuguesa. No meu próximo dia livre, não vou esquecer que às nove em ponto tenho de estar na areia, mas não para correr. Na mala do carro levo o guarda-sol e a lancheira com sandes de rojões e minis. Faço também questão de levar a cadeira desdobrável, e os putos (que não tenho, mas arranjo uns). O desporto, esse, fica mais para Setembro.
- ‘Bora.
- Para onde?
- Para a praia!”
Parece uma ideia genial, não parece? Mas não é.
Primeiro erro estratégico: “vou cedo, para apanhar a praia vazia”.
Já pintava o cenário idílico de um areal extenso, a costa serena e límpida, e escassos banhistas aqui e ali, começando a surgir por entre as brumas matinais.
Mas a minha ingenuidade, constato, não tem limites, no que toca a planos lúdico-desportivos estivais.
Sou também levada a concluir que a minha ideia de “cedo” pode ser o “normal” dos outros (e, assim sendo, eu não sou uma pessoa normal).
Penetrava eu nas belas dunas, quando, em vez da célebre maresia que tanto enche os pulmões de oxigénio, fustigou-me as narinas um cheiro a lula frita e cebola refogada. Mas não me deixei derrotar. Depois de meses de vida sedentária, decidira revoltar-me, e obrigar-me a praticar o desporto de que todos necessitamos. E sim, é Verão, como tal há que aproveitar ao máximo os atributos do nosso clima. O facto de não ver o mar há quase dois meses chocava a adolescente fútil de cujos vestígios sobrevivem moribundos em mim, que se queria bronzeada e saudável, e para quem a desculpa “estou cheia de trabalho” não servia.
Na areia, lutando para encontrar espaço para a toalha, constatei que o horizonte se desdobrava em centenas de guarda-sóis coloridos. O cheiro a lulas misturava-se agora com um aroma a suores mistos e cremes solares. Instalei-me ao lado de uma família de emigrantes luso-franceses, e escutando o som do seu radiofone a pilhas da última geração, suspirei. No ranking de cenários idílicos, este não estava certamente entre os primeiros.
Mas ia correr, disso ninguém me podia impedir. A parte da motivação estava ultrapassada, e agora seria demasiado mau perder o momentum.
Dei então início a uma gincana que se poderia comparar a uma prova de equitação olímpica, versão Ser Humano. Para avançar dois metros tinha de saltar por cima das senhoras brancas e volumosas sentadas de chapéu à beira-mar, das crianças semi-nuas que corriam suicidáriamente na minha direcção, e desviar-me das barrigas proeminentes de alguns banhistas mais adeptos da lula guisada. Sentia que estava num jogo de computador, em que eu era o desafortunado personagem principal. E não estava a passar de nível.
Será que a população portuguesa triplicou nos últimos meses? Perguntei-me.
Ou será simplesmente que, no Verão, o português comum passa cem por cento do seu tempo na praia, como se fosse outro trabalho qualquer, ao qual ele sente a necessidade de se dedicar com o mesmo afinco? A segunda, penso, é a resposta correcta. Por isso, resolvi não ir contra o sistema. Afinal, eu também sou portuguesa. No meu próximo dia livre, não vou esquecer que às nove em ponto tenho de estar na areia, mas não para correr. Na mala do carro levo o guarda-sol e a lancheira com sandes de rojões e minis. Faço também questão de levar a cadeira desdobrável, e os putos (que não tenho, mas arranjo uns). O desporto, esse, fica mais para Setembro.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
O tuga no "estrangeiro"
Os jornais abarrotam com a tragédia que abalou o mundo. Praticamente uma centena de jovens inocentes foi morta graças à mente pervertida de um maníaco, em prol de um ideal perverso e sem nexo. No entanto, para os noticiários portugueses, apenas uma e só uma coisa interessa: recolher a opinião do tuga no local.
Pouco importam os peritos, psicólogos e presidentes; pouco importam as vítimas, ou mesmo as suas famílias. Querem saber como a Noruega está a reagir a esta crise? Vão à internet procurar. A nós, o que nos interessa mesmo saber é o que um português qualquer, que estava na cidade por acaso e que nem sequer tem nada a ver com o assunto, pensa sobre aquela matéria. Porque, note-se, isso é muito mais importante. Em geral, quando algo grande acontece a nível internacional, os jornalistas dedicam o seu tempo de pesquisa e os seus recursos a procurar, não factos interessantes ou informativos, mas sim portugueses. Simplesmente isso: portugueses.
“Chamo-me Joel da Silva, por acaso estava aqui de férias em Oslo e, realmente, olhe que isto é uma grande desgraça, anda tudo muito desanimado. Os meus filhos e a minha mulher até disseram que...” Ai sim? Temos realmente orgulho naquele individuo aleatório, e no chorrilho de bitaites desinformados que ele tem a comunicar-nos. Dedicamos-lhe um tempo de antena infinito, em conversas telefónicas de má qualidade e sem interesse, porque ele é o nosso herói: ele é “o português que estava lá a passar férias”.
Não que eu tenha alguma coisa contra os portugueses que passem férias na Noruega. Fico extremamente feliz por eles, embora pressinta que os seus planos de lazer tenham sido ligeiramente abalados. Mas isto para constatar que o nosso orgulho nacional se resume, de facto, apenas a isso. Desde os tempos idos da emigração setentista, que qualquer compatriota que venha de fora é considerado uma espécie de herói, um sobrevivente desbravador de novas terras, um bravo descobridor do além. Mesmo que se trate do maior burgesso à face do planeta. “Estar no estrangeiro” confere-lhe, imediatamente, outro estatuto.
Foi por isso que ficámos tão contentes com a notícia de que o reactor nuclear da Bobadela e o Durão Barroso estavam na “lista negra” de Anders Breivik. Digam o que disserem, era indisfarçável o entusiasmo dos repórteres pelo facto de constarmos, nós também, numa base de dados internacional de qualquer espécie; mesmo que neste caso a de um lunático homicida. Podemos patinhar no fundo de um poço financeiro sem esperança, afundados em dívidas e dominados pela crise. Mas estar na lista de alvos a abater de um maluco, isso, oh isso, não, ninguém nos tira!
Pouco importam os peritos, psicólogos e presidentes; pouco importam as vítimas, ou mesmo as suas famílias. Querem saber como a Noruega está a reagir a esta crise? Vão à internet procurar. A nós, o que nos interessa mesmo saber é o que um português qualquer, que estava na cidade por acaso e que nem sequer tem nada a ver com o assunto, pensa sobre aquela matéria. Porque, note-se, isso é muito mais importante. Em geral, quando algo grande acontece a nível internacional, os jornalistas dedicam o seu tempo de pesquisa e os seus recursos a procurar, não factos interessantes ou informativos, mas sim portugueses. Simplesmente isso: portugueses.
“Chamo-me Joel da Silva, por acaso estava aqui de férias em Oslo e, realmente, olhe que isto é uma grande desgraça, anda tudo muito desanimado. Os meus filhos e a minha mulher até disseram que...” Ai sim? Temos realmente orgulho naquele individuo aleatório, e no chorrilho de bitaites desinformados que ele tem a comunicar-nos. Dedicamos-lhe um tempo de antena infinito, em conversas telefónicas de má qualidade e sem interesse, porque ele é o nosso herói: ele é “o português que estava lá a passar férias”.
Não que eu tenha alguma coisa contra os portugueses que passem férias na Noruega. Fico extremamente feliz por eles, embora pressinta que os seus planos de lazer tenham sido ligeiramente abalados. Mas isto para constatar que o nosso orgulho nacional se resume, de facto, apenas a isso. Desde os tempos idos da emigração setentista, que qualquer compatriota que venha de fora é considerado uma espécie de herói, um sobrevivente desbravador de novas terras, um bravo descobridor do além. Mesmo que se trate do maior burgesso à face do planeta. “Estar no estrangeiro” confere-lhe, imediatamente, outro estatuto.
Foi por isso que ficámos tão contentes com a notícia de que o reactor nuclear da Bobadela e o Durão Barroso estavam na “lista negra” de Anders Breivik. Digam o que disserem, era indisfarçável o entusiasmo dos repórteres pelo facto de constarmos, nós também, numa base de dados internacional de qualquer espécie; mesmo que neste caso a de um lunático homicida. Podemos patinhar no fundo de um poço financeiro sem esperança, afundados em dívidas e dominados pela crise. Mas estar na lista de alvos a abater de um maluco, isso, oh isso, não, ninguém nos tira!
terça-feira, 12 de julho de 2011
Memoriae
Tome um ao jantar – sentenciou ele, com a sua impaciência muito jovem, olhando displicentemente o relógio, porque afinal de contas teria uma vida lá fora, longe dos armários e cheiro a remédios. A rotina não era nova. Já há muito se me criara o hábito de tragar como sobremesa a salada colorida de ácidos e enzimas que não fazem senão retardar aquilo que para todos é inevitável. A diferença deste residia no facto de ser o prenuncio de algo mais considerável. Uma atrofia generalizada, com perda neuronal específica em certas zonas do hipocampo, vulgarmente conhecida por Alzheimer.
A morte é uma ceifeira metódica. Primeiro leva-nos os amigos, depois a mulher, e agora até os gatos parecem miar com mais vagar, como se antevissem o que aí vem. Chamo-me José, tenho 86 anos, e lembro-me da casa que construi, com as próprias mãos, ao mudar-me para Lisboa. Situava-se num morro meio careca, vagamente semeado de habitações, no tempo em que o Campo Grande ainda era de facto composto por campo. Com paciência e determinação, como dizia o meu pai, se conseguem as coisas. Toda a minha vida segui esse lema, e hoje concluo que fui um homem bom. Cedo, porém, não recordarei quem sou. Os primeiros sintomas: esquecimento, confusão, irritabilidade. Tudo coisas que não me fazem diferença, já que tenho na memoria com exactidão o quarto de Beja onde nasci. Os berros e a parteira, esses, talvez não. Mas de nada lhes serve. Usam como prova o facto de por vezes me esquecer das caras e pessoas. No outro dia apareceu cá o Esteves e sem querer confundi-o com o meu falecido irmão. Interpretaram isso como um sinal. Dizem que um dia não poderei fazer as necessidades sozinho, ou sequer sair da própria cama sem a ajuda de um enfermeiro. Atiraram-me com essa palavra: demência. De todos os modos, foi por isso que me levaram a Catarina.
O carro vermelho que tem a Amélia lá dentro chegou numa tempestade carburadora. Sete anos passaram depressa, mas ela continua igual. Não sei se está com o mesmo homem, ou sequer se já saiu da tal instituição. Para o juiz deve servir já que prefere uma drogada a um velho que qualquer dia não sabe nem como cagar. Tiraram-me a minha menina. E reduziram à ausência estes anos todos em que, diriam os espertos, tentei compensar com uma neta as falhas na educação de uma filha. Não é fácil. Ninguém nos ensina a ser pais. Mal damos por nós o tempo passou e fizemos tudo errado, ou pelo menos foi o que ela disse. Que fiz tudo errado.
Posso estar chéché, mas ver, lá isso continuo a ver bem. Daqui lobrigo o lacinho cor-de-rosa que lhe ofereci pelo Natal. Está cada vez mais longe, e cedo não passará de uma mancha, junto com o fumo do carro vermelho. No regaço, espero que ainda traga o Botas, e que não lhe arranque de uma vez os olhos de botão já descaídos. Dizem que estes miúdos de hoje preferem os brinquedos modernos, mas a minha Catarina sempre se contentou com as coisas parcas da vida. Vou-me sentar aqui a ver afastar-se o que resta daquilo que fui. Cedo tudo não passará de uma rotina remendada por lapsos e lacunas. Dizem que vou esquecer a própria fala. Dizem que vou esquecer quem sou. Talvez a morte seja isso, o desaparecimento completo das palavras, até já não haver nada capaz de provar que um dia existimos.
A morte é uma ceifeira metódica. Primeiro leva-nos os amigos, depois a mulher, e agora até os gatos parecem miar com mais vagar, como se antevissem o que aí vem. Chamo-me José, tenho 86 anos, e lembro-me da casa que construi, com as próprias mãos, ao mudar-me para Lisboa. Situava-se num morro meio careca, vagamente semeado de habitações, no tempo em que o Campo Grande ainda era de facto composto por campo. Com paciência e determinação, como dizia o meu pai, se conseguem as coisas. Toda a minha vida segui esse lema, e hoje concluo que fui um homem bom. Cedo, porém, não recordarei quem sou. Os primeiros sintomas: esquecimento, confusão, irritabilidade. Tudo coisas que não me fazem diferença, já que tenho na memoria com exactidão o quarto de Beja onde nasci. Os berros e a parteira, esses, talvez não. Mas de nada lhes serve. Usam como prova o facto de por vezes me esquecer das caras e pessoas. No outro dia apareceu cá o Esteves e sem querer confundi-o com o meu falecido irmão. Interpretaram isso como um sinal. Dizem que um dia não poderei fazer as necessidades sozinho, ou sequer sair da própria cama sem a ajuda de um enfermeiro. Atiraram-me com essa palavra: demência. De todos os modos, foi por isso que me levaram a Catarina.
O carro vermelho que tem a Amélia lá dentro chegou numa tempestade carburadora. Sete anos passaram depressa, mas ela continua igual. Não sei se está com o mesmo homem, ou sequer se já saiu da tal instituição. Para o juiz deve servir já que prefere uma drogada a um velho que qualquer dia não sabe nem como cagar. Tiraram-me a minha menina. E reduziram à ausência estes anos todos em que, diriam os espertos, tentei compensar com uma neta as falhas na educação de uma filha. Não é fácil. Ninguém nos ensina a ser pais. Mal damos por nós o tempo passou e fizemos tudo errado, ou pelo menos foi o que ela disse. Que fiz tudo errado.
Posso estar chéché, mas ver, lá isso continuo a ver bem. Daqui lobrigo o lacinho cor-de-rosa que lhe ofereci pelo Natal. Está cada vez mais longe, e cedo não passará de uma mancha, junto com o fumo do carro vermelho. No regaço, espero que ainda traga o Botas, e que não lhe arranque de uma vez os olhos de botão já descaídos. Dizem que estes miúdos de hoje preferem os brinquedos modernos, mas a minha Catarina sempre se contentou com as coisas parcas da vida. Vou-me sentar aqui a ver afastar-se o que resta daquilo que fui. Cedo tudo não passará de uma rotina remendada por lapsos e lacunas. Dizem que vou esquecer a própria fala. Dizem que vou esquecer quem sou. Talvez a morte seja isso, o desaparecimento completo das palavras, até já não haver nada capaz de provar que um dia existimos.
domingo, 3 de julho de 2011
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