terça-feira, 4 de outubro de 2011

Curso - "Escrever um livro: por onde começar?"

Tantas vezes temos algo para contar, mas precisamos de incentivo e orientação. Esta é uma viagem pela escrita do livro, desde a esquematização às personagens, cenários, diálogos e enredo. Da ficção à não-ficção, vamos dar corpo às nossas ideias, e pô-las em prática.

A nova edição começa no próximo dia 12.


sábado, 24 de setembro de 2011

Neurose

- Para que lado se move a bailarina?
- Concorda com impostos para os ricos: sim/não
- Venha perder peso com as estrelas de cinema
- Um hamster irritantíssimo às voltas numa roda

Que têm estas coisas todas em comum? Para os que não usam regularmente o Hotmail, provavelmente nada.
Para os outros, porém, esta situação é já demasiado familiar, e seguramente não contribui para o estado de espírito zen de uma pessoa normal.



É impossível, hoje em dia, abrir a caixa de correio sem me deparar com estes banners multicoloridos, que piscam, guincham, e giram sem parar, no visor; perturbando completamente a minha capacidade de concentração e o desenvolvimento da minha sanidade mental. São eles baratas, ratos, bailarinas, e que sei eu mais deploráveis figurinhas; impossivelmente energéticas e totalmente estúpidas.
E pergunto-me: será que sempre foi assim, e eu só agora me tornei sensível a este tipo de publicidades cibernéticas? Será que algo mudou na minha personalidade, que me fez envelhecer por dentro e me tornou particularmente irritável, ao ponto de dedicar um post inteiro a isto? Mas eu já uso o Hotmail há anos! E nunca me lembro de ter experienciado um sentimento tão intenso de raiva face a uma coisa destas. Aliás, não me lembro de qual foi a última vez em que experienciei um sentimento de raiva tão forte, de todo, em relação a qualquer coisa.
Como se não bastasse, se carregarmos muitas vezes na cruzinha que nos permite eliminar o anúncio, aparece, regra geral, outro anúncio. Mas desta vez da própria Microsoft, a informar-nos que é possível remover os banners graças à instalação de um programa qualquer, pago. Gente esperta.
Mortifica-me pensar que cada vez que me distraio e, por engano, carrego no dito banner colorido, estou a redireccionar-me para as páginas correspondentes e, por consequência, a dar dinheiro ao Hotmail. Estou a ficar muito deprimida com a situação.
Gostava de lançar aqui um apelo aos responsáveis: sei que colocam publicidades deste tipo por uma questão de financiamento; sim, eu sei, a vida está cara para todos. O simples anúncio de texto discreto com como forma de rentabilidade perde a sua força, contra a concorrência dos Gmails, Yahoo mails e afins. Mas os bonecos coloridos e piscantes não são a solução.
Arriscam-se a perder mais dinheiro com clientes que fecham as suas contas (eu, uma potencial candidata) do que com os milhões de cliques acidentais nos bonequinhos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

“De qualquer maneira, não há democracia em país nenhum”

Já todos ouvimos este tipo de argumento em algum lado. É a última instância do debate contra o apoio internacional da revolta nas oligarquias e ditaduras do mundo árabe. O que se passou na Líbia foi o exemplo mais recente.
Aquilo que foram manifestações relativamente pacíficas em países como a Tunísia ou Egipto, no desembocar das quais os seus lideres aceitaram a derrota com (relativa) facilidade; não aconteceu na Líbia. Aí, vimos um louco disparar desalmadamente sobre os civis desarmados, achando que, desta vez também, obteria o fechar de olhos da comunidade internacional.
Ora é, obviamente, uma hipocrisia ver aqueles que tinham pactuado com Khadafi, sedentos do seu petróleo, agora condená-lo tão veementemente, apenas pela mesma razão – vide a França. Mas será que por isso devia deixar de haver intervenção? Olhemos para nós. Embora em situações muito diferentes, há sempre paralelismos que se podem fazer. Caso o 25 de Abril tivesse sido conseguido graças a interesses de fora, isso tê-lo-ia, automaticamente, deslegitimado? É uma pergunta difícil, mas a resposta parece-me ser, apesar de tudo, não. Aliás porque, quer queiramos quer não, todas as revoluções têm o apoio de interesses que nada têm que ver com os motivos oficiais das mesmas. É a vida.

No terreno, estamos a falar de pessoas. Eram pessoas em desvantagem considerável, que estavam a ser massivamente reprimidas e assassinadas. A única coisa que queriam eram viver num pais onde a sua voz fosse ouvida, e onde pudessem ser eles a escolher o seu próprio regime. Podem dizer o que quiserem sobre os motivos, mas a verdade é que a NATO os ajudou, pelo menos a vislumbrar a hipótese de um futuro diferente e melhor. A visão maniqueísta do mundo segundo a qual “os maus” (os americanos, e quem estiver com eles) estão a tentar lixar “os bons” (quem quer se seja que esteja contra os americanos) parece-me ultrapassada. Nada é assim tão simples.
Mas é aqui que entra o argumento dos iluminados, segundo os quais “de qualquer maneira, não há democracia em país nenhum”. “E nós também não vivemos numa democracia, ou achas que sim? – dizem eles – Não, isto está tudo controlado, somos todos uns fantoches”. Que não vivemos numa democracia completa, eu aceito; que somos muitas vezes controlados por organismos que na verdade não elegemos, também. Mas esquecem-se de que os líbios estavam numa situação muito pior do que a nossa, vivendo em situações muito mais desigualitárias; e argumentar que eles não têm direito a querer uma democracia só porque “de qualquer maneira, não há democracia em lado nenhum” é de um egoísmo tremendo. O facto de acharem que a democracia é uma farsa – como pode por vezes ser – não impede que não se possa lutar por ela. Se nós lutámos, não há diferença nenhuma em que os líbios também o façam. Ou serão os árabes vitimas de uma terrível e misteriosa especificidade (genética? Só faltava) que os impede de tentar ter o que nós temos? Não, porque nós não somos os únicos que têm direito a querer um futuro melhor.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Momento copy paste

De Vim Porque me Pagavam, de Golgona Anghel, retenho muita coisa. Um livro de poesia, no mínimo, espectacular.
Gostava de escolher um poema, mas como não me consigo decidir, deixo aqui a sua nota prévia (ou citação de abertura, como preferirem) da autoria de Fabián Casas.

"Esperando que la aspirina empiece a trabajar; (...)
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos
me pregunto en que momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal."

terça-feira, 30 de agosto de 2011

É já no dia 6 de Setembro que começa mais uma edição do curso "Escrever um livro: por onde começar?", dado por mim, na Escrever Escrever!
Saibam mais aqui.



domingo, 21 de agosto de 2011

Londres, o rescaldo



Aqui está uma entrevista elucidativa, que nos mostra a perspectiva daqueles que estiveram na origem de alguns actos de vandalismo.

Segundo o famoso blogger David Allen Green, todos temos tendência a olhar para este género de tumultos como para uma confirmação da nossa opinião política já previamente construída: seja ela um preconceito racial ou social (no caso dos conservadores de extrema direita) seja uma questão social latente (no caso da esquerda). Porque no fundo, quando confrontados com estes acontecimentos, todos acham que sabem o que realmente os causou. E assim sendo, estes motins nada mais fazem do que confirmar e reforçar os preconceitos já existentes.

Nesse sentido, o seu suposto efeito desejado (chamar a atenção para, ou a revolta contra, uma determinada ordem social) não teria sido alcançado, mas sim o seu oposto.

No entanto, penso que valerá a pena olhar para a entrevista, e ver um pouco além da atitude displicente destes rapazes para quem estes foram apenas “dias como qualquer outro”. E reflectir um pouco, como o sugere a reportagem, sobre o facto de os mesmos, ainda que perfeitamente conscientes da situação de risco (alguém, incluindo a policia, podia identificá-los através destas imagens) terem querido dar uma voz ao protesto. Mesmo tratando-se de actos perfeitamente selvagens e egoístas, a verdade é que as causas não podem ser ignoradas. Citando o próprio repórter: “o facto de estarem isolados não é uma desculpa, mas sim parte do contexto”.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Se não podes vencê-los, junta-te a eles

“- Vamos correr?
- ‘Bora.
- Para onde?
- Para a praia!”
Parece uma ideia genial, não parece? Mas não é.

Primeiro erro estratégico: “vou cedo, para apanhar a praia vazia”.

Já pintava o cenário idílico de um areal extenso, a costa serena e límpida, e escassos banhistas aqui e ali, começando a surgir por entre as brumas matinais.
Mas a minha ingenuidade, constato, não tem limites, no que toca a planos lúdico-desportivos estivais.
Sou também levada a concluir que a minha ideia de “cedo” pode ser o “normal” dos outros (e, assim sendo, eu não sou uma pessoa normal).

Penetrava eu nas belas dunas, quando, em vez da célebre maresia que tanto enche os pulmões de oxigénio, fustigou-me as narinas um cheiro a lula frita e cebola refogada. Mas não me deixei derrotar. Depois de meses de vida sedentária, decidira revoltar-me, e obrigar-me a praticar o desporto de que todos necessitamos. E sim, é Verão, como tal há que aproveitar ao máximo os atributos do nosso clima. O facto de não ver o mar há quase dois meses chocava a adolescente fútil de cujos vestígios sobrevivem moribundos em mim, que se queria bronzeada e saudável, e para quem a desculpa “estou cheia de trabalho” não servia.

Na areia, lutando para encontrar espaço para a toalha, constatei que o horizonte se desdobrava em centenas de guarda-sóis coloridos. O cheiro a lulas misturava-se agora com um aroma a suores mistos e cremes solares. Instalei-me ao lado de uma família de emigrantes luso-franceses, e escutando o som do seu radiofone a pilhas da última geração, suspirei. No ranking de cenários idílicos, este não estava certamente entre os primeiros.
Mas ia correr, disso ninguém me podia impedir. A parte da motivação estava ultrapassada, e agora seria demasiado mau perder o momentum.
Dei então início a uma gincana que se poderia comparar a uma prova de equitação olímpica, versão Ser Humano. Para avançar dois metros tinha de saltar por cima das senhoras brancas e volumosas sentadas de chapéu à beira-mar, das crianças semi-nuas que corriam suicidáriamente na minha direcção, e desviar-me das barrigas proeminentes de alguns banhistas mais adeptos da lula guisada. Sentia que estava num jogo de computador, em que eu era o desafortunado personagem principal. E não estava a passar de nível.

Será que a população portuguesa triplicou nos últimos meses? Perguntei-me.

Ou será simplesmente que, no Verão, o português comum passa cem por cento do seu tempo na praia, como se fosse outro trabalho qualquer, ao qual ele sente a necessidade de se dedicar com o mesmo afinco? A segunda, penso, é a resposta correcta. Por isso, resolvi não ir contra o sistema. Afinal, eu também sou portuguesa. No meu próximo dia livre, não vou esquecer que às nove em ponto tenho de estar na areia, mas não para correr. Na mala do carro levo o guarda-sol e a lancheira com sandes de rojões e minis. Faço também questão de levar a cadeira desdobrável, e os putos (que não tenho, mas arranjo uns). O desporto, esse, fica mais para Setembro.