quarta-feira, 16 de novembro de 2011
sábado, 29 de outubro de 2011
Duarte, o Engenhocas
Duarte Lima, claramente, nunca viu o CSI Miami. É essa a conclusão que todos nós, portugueses, somos obrigados a tirar ao depararmo-nos com os fundamentos da sua acusação por homicídio no caso Rosalina Ribeiro.
Que se mate alguém, ainda por cima uma pessoa inocente e indefesa é, óbvio, um acto monstruoso e deplorável. Mas deixar pistas que até uma criança de dez anos conseguiria esconder é já, simplesmente, estúpido.
Todos nós vimos como os criminosos actuam nos filmes. Escondem-se por detrás de álibis fortíssimos, engendram mortes rocambolescas, algumas de modo a que possam parecer suicídio. Apagam cuidadosamente as pistas, mudam de identidade, mudam de sexo se for preciso. Usam máscaras, escovinhas, ácido sulfúrico.
Porém, para Duarte Lima, tudo isto pareceu um luxo desnecessário. Ele ia, simplesmente, fazê-lo à moda antiga: dirigir-se à senhora, dar-lhe uns bons tiros na cabeça e voltar para casa como se nada fosse. Entretanto, deixaria o corpo no meio da rua, sei lá, podia ser que ninguém reparasse.
Ora, alguém o devia ter avisado.
Com toda a simpatia pela senhora Rosalina, cujo óbito lamento profundamente, e pelos seus familiares e amigos; não posso no entanto deixar de pensar em algumas sugestões que me pareceriam ter sido úteis a Duarte Lima, alguém que se me afigura confuso e um pouco perdido nesta coisa complicada de assassinar os outros a sangue frio.
1) Primeiro, não se viaja para o Brasil na mesma altura em que se planeia matar a pessoa. Manda-se alguém ir para lá e fazê-lo por nós, enquanto combinamos umas férias com amigos no lugar exactamente oposto do globo, como Phuket ou Phnom Penh.
2) Se for mesmo necessário ir-se ao local verificar que a missão foi bem cumprida, tentar não fazer coisas estranhas que chamem a atenção dos demais, tais como alugar um carro em Belo Horizonte e viajar durante cinco horas até ao Rio, e com ele visitar o local do crime um dia antes do mesmo, na esperança de que ninguém nunca descubra o dito carro.
3) Tentar não telefonar à vitima no dia da matança, sobretudo se for de outros telefones, pois isso pode levantar certas suspeitas.
4) Incriminar uma pessoa inventada de nome “Giselle” não parece suficientemente convincente. Invente-se outra, de preferência alguém que, de facto, exista.
5) Finalmente, se sentirmos como necessário eliminar a vítima com as próprias mãos, porque somos perfeccionistas e não confiamos em mais ninguém, enfim, o ideal seria não telefonar para uma loja de carabinas de caça do próprio quarto de hotel no dia do assassínio, como tão brilhantemente o fez o senhor Lima.
Fica para uma próxima, Duarte. Bem se diz que nunca se consegue fazer tudo bem logo à primeira.
Que se mate alguém, ainda por cima uma pessoa inocente e indefesa é, óbvio, um acto monstruoso e deplorável. Mas deixar pistas que até uma criança de dez anos conseguiria esconder é já, simplesmente, estúpido.
Todos nós vimos como os criminosos actuam nos filmes. Escondem-se por detrás de álibis fortíssimos, engendram mortes rocambolescas, algumas de modo a que possam parecer suicídio. Apagam cuidadosamente as pistas, mudam de identidade, mudam de sexo se for preciso. Usam máscaras, escovinhas, ácido sulfúrico.
Porém, para Duarte Lima, tudo isto pareceu um luxo desnecessário. Ele ia, simplesmente, fazê-lo à moda antiga: dirigir-se à senhora, dar-lhe uns bons tiros na cabeça e voltar para casa como se nada fosse. Entretanto, deixaria o corpo no meio da rua, sei lá, podia ser que ninguém reparasse.
Ora, alguém o devia ter avisado.
Com toda a simpatia pela senhora Rosalina, cujo óbito lamento profundamente, e pelos seus familiares e amigos; não posso no entanto deixar de pensar em algumas sugestões que me pareceriam ter sido úteis a Duarte Lima, alguém que se me afigura confuso e um pouco perdido nesta coisa complicada de assassinar os outros a sangue frio.
1) Primeiro, não se viaja para o Brasil na mesma altura em que se planeia matar a pessoa. Manda-se alguém ir para lá e fazê-lo por nós, enquanto combinamos umas férias com amigos no lugar exactamente oposto do globo, como Phuket ou Phnom Penh.
2) Se for mesmo necessário ir-se ao local verificar que a missão foi bem cumprida, tentar não fazer coisas estranhas que chamem a atenção dos demais, tais como alugar um carro em Belo Horizonte e viajar durante cinco horas até ao Rio, e com ele visitar o local do crime um dia antes do mesmo, na esperança de que ninguém nunca descubra o dito carro.
3) Tentar não telefonar à vitima no dia da matança, sobretudo se for de outros telefones, pois isso pode levantar certas suspeitas.
4) Incriminar uma pessoa inventada de nome “Giselle” não parece suficientemente convincente. Invente-se outra, de preferência alguém que, de facto, exista.
5) Finalmente, se sentirmos como necessário eliminar a vítima com as próprias mãos, porque somos perfeccionistas e não confiamos em mais ninguém, enfim, o ideal seria não telefonar para uma loja de carabinas de caça do próprio quarto de hotel no dia do assassínio, como tão brilhantemente o fez o senhor Lima.
Fica para uma próxima, Duarte. Bem se diz que nunca se consegue fazer tudo bem logo à primeira.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Una boda muy especial
Ir para Sevilha de carro é sempre má ideia, quando são duas da tarde e estão 38 graus. No lugar do morto, que fez jus à sua designação, percorri o Alentejo sem sombra e sem ar condicionado, à beira da insolação. Chaparros, azinheiras e oliveiras derretiam sob o astro abrasador. As vacas magras pastavam a erva queimada de um Outubro anormal. Quando começaram as dores de cabeça, e os suores frios, deduzimos que talvez fosse boa ideia parar. Mas só para pôr gasolina em Espanha.
Pelas calçadas redondas arrastámos as malas com as melhores roupas, ou pelo menos aquelas menos susceptíveis de chegarem amarrotadas. Que excitação. Vamos a um casamento andaluz.
Voltar a Sevilha, para mim, trazia várias memorias de infância, quase todas relacionadas com comida. Dos verões de pasmaceira passados com os meus pais, aos 13 anos, no Algarve, retive aquelas pequenas viagens ao outro lado da fronteira, um quebrar na morosa rotina familiar. À memória vinha-me o sumo de orchata, os caramelos El Caserio e “aquelas batatas fritas tipo esferovite que não têm sal nenhum”. A excitação de fazer compras no El Corte Inglês, as bodegas, e o portunhol do meu pai. É tão bom poder ir a outro país em apenas algumas horas de carro.
As casas são de um género colonial que me faz lembrar o centro antigo de algumas cidades colombianas. Sabendo que, no sentido correcto, é Bogotá que recorda Sevilha, e nunca o contrário. A influência árabe também está por toda a parte: nas arcadas, nos ladrilhos das portas, e até na Catedral. Sevilha é sinuosa e arrastada, convexa, fluida em ruelas perdidas, e descansa animada sob a sombra dos jardins.
O casório espanhol começa cedo, pela hora de almoço. Meninas da cidade de vestidos berrantes cumprem o costume de usar um chapéu, ou uma flor no cabelo. Um adereço arriscado, que tanto pode estar na origem de elegâncias extremas como de algumas araras bailarinas. O copo de água tem tinto verano à fartura, e algo parecido com vinho do Porto, mas que na realidade é Manzanilla, ou coisa que o valha. A festa foi longa, longa, longa. No fim, só os portugueses aguentaram, espanhóis nem vê-los; quem disse que são eles o povo mais animado? Claramente, o Amanhã de Manhã ganhou ao A Fuego Lento. Alguns aventureiros ainda se arrastaram até ao Groucho, o bar da moda. E no dia seguinte, o calor da viagem aguentou-se bem, já que era mais tarde, e estávamos todos praticamente a dormir.
Pelas calçadas redondas arrastámos as malas com as melhores roupas, ou pelo menos aquelas menos susceptíveis de chegarem amarrotadas. Que excitação. Vamos a um casamento andaluz.
Voltar a Sevilha, para mim, trazia várias memorias de infância, quase todas relacionadas com comida. Dos verões de pasmaceira passados com os meus pais, aos 13 anos, no Algarve, retive aquelas pequenas viagens ao outro lado da fronteira, um quebrar na morosa rotina familiar. À memória vinha-me o sumo de orchata, os caramelos El Caserio e “aquelas batatas fritas tipo esferovite que não têm sal nenhum”. A excitação de fazer compras no El Corte Inglês, as bodegas, e o portunhol do meu pai. É tão bom poder ir a outro país em apenas algumas horas de carro.
As casas são de um género colonial que me faz lembrar o centro antigo de algumas cidades colombianas. Sabendo que, no sentido correcto, é Bogotá que recorda Sevilha, e nunca o contrário. A influência árabe também está por toda a parte: nas arcadas, nos ladrilhos das portas, e até na Catedral. Sevilha é sinuosa e arrastada, convexa, fluida em ruelas perdidas, e descansa animada sob a sombra dos jardins.
O casório espanhol começa cedo, pela hora de almoço. Meninas da cidade de vestidos berrantes cumprem o costume de usar um chapéu, ou uma flor no cabelo. Um adereço arriscado, que tanto pode estar na origem de elegâncias extremas como de algumas araras bailarinas. O copo de água tem tinto verano à fartura, e algo parecido com vinho do Porto, mas que na realidade é Manzanilla, ou coisa que o valha. A festa foi longa, longa, longa. No fim, só os portugueses aguentaram, espanhóis nem vê-los; quem disse que são eles o povo mais animado? Claramente, o Amanhã de Manhã ganhou ao A Fuego Lento. Alguns aventureiros ainda se arrastaram até ao Groucho, o bar da moda. E no dia seguinte, o calor da viagem aguentou-se bem, já que era mais tarde, e estávamos todos praticamente a dormir.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Curso - "Escrever um livro: por onde começar?"
Tantas vezes temos algo para contar, mas precisamos de incentivo e orientação. Esta é uma viagem pela escrita do livro, desde a esquematização às personagens, cenários, diálogos e enredo. Da ficção à não-ficção, vamos dar corpo às nossas ideias, e pô-las em prática.
A nova edição começa no próximo dia 12.
A nova edição começa no próximo dia 12.
sábado, 24 de setembro de 2011
Neurose
- Para que lado se move a bailarina?
- Concorda com impostos para os ricos: sim/não
- Venha perder peso com as estrelas de cinema
- Um hamster irritantíssimo às voltas numa roda
Que têm estas coisas todas em comum? Para os que não usam regularmente o Hotmail, provavelmente nada.
Para os outros, porém, esta situação é já demasiado familiar, e seguramente não contribui para o estado de espírito zen de uma pessoa normal.

É impossível, hoje em dia, abrir a caixa de correio sem me deparar com estes banners multicoloridos, que piscam, guincham, e giram sem parar, no visor; perturbando completamente a minha capacidade de concentração e o desenvolvimento da minha sanidade mental. São eles baratas, ratos, bailarinas, e que sei eu mais deploráveis figurinhas; impossivelmente energéticas e totalmente estúpidas.
E pergunto-me: será que sempre foi assim, e eu só agora me tornei sensível a este tipo de publicidades cibernéticas? Será que algo mudou na minha personalidade, que me fez envelhecer por dentro e me tornou particularmente irritável, ao ponto de dedicar um post inteiro a isto? Mas eu já uso o Hotmail há anos! E nunca me lembro de ter experienciado um sentimento tão intenso de raiva face a uma coisa destas. Aliás, não me lembro de qual foi a última vez em que experienciei um sentimento de raiva tão forte, de todo, em relação a qualquer coisa.
Como se não bastasse, se carregarmos muitas vezes na cruzinha que nos permite eliminar o anúncio, aparece, regra geral, outro anúncio. Mas desta vez da própria Microsoft, a informar-nos que é possível remover os banners graças à instalação de um programa qualquer, pago. Gente esperta.
Mortifica-me pensar que cada vez que me distraio e, por engano, carrego no dito banner colorido, estou a redireccionar-me para as páginas correspondentes e, por consequência, a dar dinheiro ao Hotmail. Estou a ficar muito deprimida com a situação.
Gostava de lançar aqui um apelo aos responsáveis: sei que colocam publicidades deste tipo por uma questão de financiamento; sim, eu sei, a vida está cara para todos. O simples anúncio de texto discreto com como forma de rentabilidade perde a sua força, contra a concorrência dos Gmails, Yahoo mails e afins. Mas os bonecos coloridos e piscantes não são a solução.
Arriscam-se a perder mais dinheiro com clientes que fecham as suas contas (eu, uma potencial candidata) do que com os milhões de cliques acidentais nos bonequinhos.
- Concorda com impostos para os ricos: sim/não
- Venha perder peso com as estrelas de cinema
- Um hamster irritantíssimo às voltas numa roda
Que têm estas coisas todas em comum? Para os que não usam regularmente o Hotmail, provavelmente nada.
Para os outros, porém, esta situação é já demasiado familiar, e seguramente não contribui para o estado de espírito zen de uma pessoa normal.

É impossível, hoje em dia, abrir a caixa de correio sem me deparar com estes banners multicoloridos, que piscam, guincham, e giram sem parar, no visor; perturbando completamente a minha capacidade de concentração e o desenvolvimento da minha sanidade mental. São eles baratas, ratos, bailarinas, e que sei eu mais deploráveis figurinhas; impossivelmente energéticas e totalmente estúpidas.
E pergunto-me: será que sempre foi assim, e eu só agora me tornei sensível a este tipo de publicidades cibernéticas? Será que algo mudou na minha personalidade, que me fez envelhecer por dentro e me tornou particularmente irritável, ao ponto de dedicar um post inteiro a isto? Mas eu já uso o Hotmail há anos! E nunca me lembro de ter experienciado um sentimento tão intenso de raiva face a uma coisa destas. Aliás, não me lembro de qual foi a última vez em que experienciei um sentimento de raiva tão forte, de todo, em relação a qualquer coisa.
Como se não bastasse, se carregarmos muitas vezes na cruzinha que nos permite eliminar o anúncio, aparece, regra geral, outro anúncio. Mas desta vez da própria Microsoft, a informar-nos que é possível remover os banners graças à instalação de um programa qualquer, pago. Gente esperta.
Mortifica-me pensar que cada vez que me distraio e, por engano, carrego no dito banner colorido, estou a redireccionar-me para as páginas correspondentes e, por consequência, a dar dinheiro ao Hotmail. Estou a ficar muito deprimida com a situação.
Gostava de lançar aqui um apelo aos responsáveis: sei que colocam publicidades deste tipo por uma questão de financiamento; sim, eu sei, a vida está cara para todos. O simples anúncio de texto discreto com como forma de rentabilidade perde a sua força, contra a concorrência dos Gmails, Yahoo mails e afins. Mas os bonecos coloridos e piscantes não são a solução.
Arriscam-se a perder mais dinheiro com clientes que fecham as suas contas (eu, uma potencial candidata) do que com os milhões de cliques acidentais nos bonequinhos.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
“De qualquer maneira, não há democracia em país nenhum”
Já todos ouvimos este tipo de argumento em algum lado. É a última instância do debate contra o apoio internacional da revolta nas oligarquias e ditaduras do mundo árabe. O que se passou na Líbia foi o exemplo mais recente.
Aquilo que foram manifestações relativamente pacíficas em países como a Tunísia ou Egipto, no desembocar das quais os seus lideres aceitaram a derrota com (relativa) facilidade; não aconteceu na Líbia. Aí, vimos um louco disparar desalmadamente sobre os civis desarmados, achando que, desta vez também, obteria o fechar de olhos da comunidade internacional.
Ora é, obviamente, uma hipocrisia ver aqueles que tinham pactuado com Khadafi, sedentos do seu petróleo, agora condená-lo tão veementemente, apenas pela mesma razão – vide a França. Mas será que por isso devia deixar de haver intervenção? Olhemos para nós. Embora em situações muito diferentes, há sempre paralelismos que se podem fazer. Caso o 25 de Abril tivesse sido conseguido graças a interesses de fora, isso tê-lo-ia, automaticamente, deslegitimado? É uma pergunta difícil, mas a resposta parece-me ser, apesar de tudo, não. Aliás porque, quer queiramos quer não, todas as revoluções têm o apoio de interesses que nada têm que ver com os motivos oficiais das mesmas. É a vida.
No terreno, estamos a falar de pessoas. Eram pessoas em desvantagem considerável, que estavam a ser massivamente reprimidas e assassinadas. A única coisa que queriam eram viver num pais onde a sua voz fosse ouvida, e onde pudessem ser eles a escolher o seu próprio regime. Podem dizer o que quiserem sobre os motivos, mas a verdade é que a NATO os ajudou, pelo menos a vislumbrar a hipótese de um futuro diferente e melhor. A visão maniqueísta do mundo segundo a qual “os maus” (os americanos, e quem estiver com eles) estão a tentar lixar “os bons” (quem quer se seja que esteja contra os americanos) parece-me ultrapassada. Nada é assim tão simples.
Mas é aqui que entra o argumento dos iluminados, segundo os quais “de qualquer maneira, não há democracia em país nenhum”. “E nós também não vivemos numa democracia, ou achas que sim? – dizem eles – Não, isto está tudo controlado, somos todos uns fantoches”. Que não vivemos numa democracia completa, eu aceito; que somos muitas vezes controlados por organismos que na verdade não elegemos, também. Mas esquecem-se de que os líbios estavam numa situação muito pior do que a nossa, vivendo em situações muito mais desigualitárias; e argumentar que eles não têm direito a querer uma democracia só porque “de qualquer maneira, não há democracia em lado nenhum” é de um egoísmo tremendo. O facto de acharem que a democracia é uma farsa – como pode por vezes ser – não impede que não se possa lutar por ela. Se nós lutámos, não há diferença nenhuma em que os líbios também o façam. Ou serão os árabes vitimas de uma terrível e misteriosa especificidade (genética? Só faltava) que os impede de tentar ter o que nós temos? Não, porque nós não somos os únicos que têm direito a querer um futuro melhor.
Aquilo que foram manifestações relativamente pacíficas em países como a Tunísia ou Egipto, no desembocar das quais os seus lideres aceitaram a derrota com (relativa) facilidade; não aconteceu na Líbia. Aí, vimos um louco disparar desalmadamente sobre os civis desarmados, achando que, desta vez também, obteria o fechar de olhos da comunidade internacional.
Ora é, obviamente, uma hipocrisia ver aqueles que tinham pactuado com Khadafi, sedentos do seu petróleo, agora condená-lo tão veementemente, apenas pela mesma razão – vide a França. Mas será que por isso devia deixar de haver intervenção? Olhemos para nós. Embora em situações muito diferentes, há sempre paralelismos que se podem fazer. Caso o 25 de Abril tivesse sido conseguido graças a interesses de fora, isso tê-lo-ia, automaticamente, deslegitimado? É uma pergunta difícil, mas a resposta parece-me ser, apesar de tudo, não. Aliás porque, quer queiramos quer não, todas as revoluções têm o apoio de interesses que nada têm que ver com os motivos oficiais das mesmas. É a vida.
No terreno, estamos a falar de pessoas. Eram pessoas em desvantagem considerável, que estavam a ser massivamente reprimidas e assassinadas. A única coisa que queriam eram viver num pais onde a sua voz fosse ouvida, e onde pudessem ser eles a escolher o seu próprio regime. Podem dizer o que quiserem sobre os motivos, mas a verdade é que a NATO os ajudou, pelo menos a vislumbrar a hipótese de um futuro diferente e melhor. A visão maniqueísta do mundo segundo a qual “os maus” (os americanos, e quem estiver com eles) estão a tentar lixar “os bons” (quem quer se seja que esteja contra os americanos) parece-me ultrapassada. Nada é assim tão simples.
Mas é aqui que entra o argumento dos iluminados, segundo os quais “de qualquer maneira, não há democracia em país nenhum”. “E nós também não vivemos numa democracia, ou achas que sim? – dizem eles – Não, isto está tudo controlado, somos todos uns fantoches”. Que não vivemos numa democracia completa, eu aceito; que somos muitas vezes controlados por organismos que na verdade não elegemos, também. Mas esquecem-se de que os líbios estavam numa situação muito pior do que a nossa, vivendo em situações muito mais desigualitárias; e argumentar que eles não têm direito a querer uma democracia só porque “de qualquer maneira, não há democracia em lado nenhum” é de um egoísmo tremendo. O facto de acharem que a democracia é uma farsa – como pode por vezes ser – não impede que não se possa lutar por ela. Se nós lutámos, não há diferença nenhuma em que os líbios também o façam. Ou serão os árabes vitimas de uma terrível e misteriosa especificidade (genética? Só faltava) que os impede de tentar ter o que nós temos? Não, porque nós não somos os únicos que têm direito a querer um futuro melhor.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Momento copy paste
De Vim Porque me Pagavam, de Golgona Anghel, retenho muita coisa. Um livro de poesia, no mínimo, espectacular.
Gostava de escolher um poema, mas como não me consigo decidir, deixo aqui a sua nota prévia (ou citação de abertura, como preferirem) da autoria de Fabián Casas.
"Esperando que la aspirina empiece a trabajar; (...)
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos
me pregunto en que momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal."
Gostava de escolher um poema, mas como não me consigo decidir, deixo aqui a sua nota prévia (ou citação de abertura, como preferirem) da autoria de Fabián Casas.
"Esperando que la aspirina empiece a trabajar; (...)
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos
me pregunto en que momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal."
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