quinta-feira, 14 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
"Lecturing" nos supermercados
Sou completamente a favor de uma boa educação alimentar.
Sobretudo quando, com o tempo já quente, se começa a vislumbrar entre os
portugueses uma ou outra carne menos apelativa. No entanto, penso existirem
certas grandes superfícies a levar o conceito demasiado à letra. Para aqueles
que ainda não repararam, há agora, em alguns supermercados, cartõezinhos discretos situados ao lado dos
produtos género frutas e hortícolas com, supostamente, informação útil sobre os
mesmos. Sabia que a alface tem imensa
fibra e é muito rica em potássio?
Que promover a saúde dos alimentos se revela bom para o marketing, claro. Mas será que eu, ao
comprar meio quilo de batatas, preciso mesmo de saber que estas são uma grande
fonte de fósforo e vitamina A? Não.
Pelo menos, a mim, não me serve de nada. Aliás, chateia-me.
Faz lembrar aqueles senhores que ficam à porta dos restaurantes do Bairro Alto,
a tentar fazer-nos entrar para os respectivos estabelecimentos. Se por acaso me
apetecesse entrar ali, deixou de me apetecer. “Sim, entre aqui, temos um caldo
verde muito bom. Sim, sim, aqui.” Bem, a sério? Ah, então pronto, se o senhor o
diz é porque deve ser verdade, já que a sua opinião é completamente imparcial e
desinteressada sobre esta questão em particular?
Passa-se um pouco o mesmo com os legumes e etcéteras no
supermercado: é irritante que me estejam a tentar ensinar até que ponto as
minhas laranjas têm vitamina C. Se eu já estou para comprar a porcaria
das laranjas, é porque em principio devo saber isso à partida.
Nisto, sou um pouco saudosista em relação ao tempo dos meus
avós: uma batata era apenas uma batata e uma pêra era só uma pêra. Comia-se,
porque fazia bem, mas não se ficava completamente obcecado com as propriedades
antioxidantes de tudo o que nos aparecia à frente. Há, nos dias que correm,
muito boa gente que se sabe aproveitar desse tipo de manias, e bem.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Despentes (2): a violação como arma politica
Já aqui referi Virginie Despentes* e o seu ensaio sobre
prostituição, violação e pornografia. Gostava de falar, desta vez, do segundo
tema.
Violação igual a vergonha. Mas vergonha de quê, exactamente?
De se ter sido sujeita a um dos crimes mais traumatizantes, apenas possível
pela submissão do outro pela força, sexualmente. Quando alguém é assaltado ou
espancado, o sentimento não é o mesmo: pode-se mencioná-lo livremente sem se
ser catalogada.
Despentes, que foi violada, fala-nos da sua experiência na
primeira pessoa. Defende que este tipo de crimes apenas são possíveis porque
representam exactamente o tipo de relação desigual entre géneros que vivemos
ainda hoje. Se não vejamos.
A literatura, religião, cinema, são apenas alguns exemplos dos
veículos que formam o ideal da mulher submissa. O nosso imaginário sexual
colectivo é fundado na fêmea que espera, passiva, o seu amante. A Bela Adormecida
e o seu príncipe, a Rapunzel na sua torre. Nenhuma delas faz, propriamente,
nada de especial. Não é por acaso: se fizesse, isso retirar-lhes-ia a sua
feminilidade. Consequência disso é grande o número de mulheres que se sente
excitada pela violação (homens também, suponho, só que no sentido cómodo
inverso). É sintomático, não casual.
Depois de evocar, por exemplo, as imagens das mártires, Despentes
escreve: “No mundo
judaico-cristão, é melhor ser-se forçada a ter relações sexuais do que tomada
por puta, já no-lo fizeram entender suficientes vezes. Não existe uma
predisposição feminina natural ao masoquismo, tal não vem das nossas hormonas
nem do tempo das cavernas, mas sim de um determinado sistema cultural e tem
implicações incómodas no exercício da própria independência.” O que faz com que
muitas vezes a violação se camufle com outros nomes (“ela merecia isto e
aquilo”, “só uma porca para fazer aqueloutro”) o que só acontece porque a
sociedade actual nos forma para esse tipo de submissão.
Despentes reflecte, por exemplo, sobre o facto de que,
quando uma mulher é violada, ninguém gosta que ela se manifeste muito sobre o
assunto. Sub-repticiamente, espera-se que tenha uma vida terrível a seguir, que
ganhe, por exemplo, 20 quilos, ou nunca mais consiga ter uma relação com um
homem. Se não acontece nada disso, então é porque “gostou”...
Assim sendo, o número de violações oficial (no nosso pais e
no mundo) está bem longe de corresponder ao número real. Muitas mulheres andam
mergulhadas na vergonha e no medo, e o que é pior: encarando isso como a ordem
natural das coisas, um segredo sobre o qual não fica bem falar. A vergonha cai
sobre a vítima e não sobre o agressor.
Defende-se aqui, portanto, um sistema em que à mulher não
seja constantemente impingida a ideia de que, para ser aceite socialmente, deve
ser frágil e dócil, tímida e resignada, não fazer muitas ondas, tudo para
agradar. A igualdade de direitos e a prevenção criminal começam na educação. Um
direito a reagir, a defender-se.
* Referido aqui
domingo, 3 de junho de 2012
Gato Persa Social Club na estrada
Esta semana:
Dia 5, terça-feira, às 11h na Biblioteca Afonso Lopes Vieira, Leiria (para alunos do secundário, mas quem quiser aparecer, também pode).
Dia 7, quinta-feira, na Festcul, Barreiro.
E dia 9, sábado, na Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás, na Figueira da Foz:
- 14h30, worskshop de Escrita Criativa
- 17h, apresentação do livro Gato Persa Social Club.
Dia 5, terça-feira, às 11h na Biblioteca Afonso Lopes Vieira, Leiria (para alunos do secundário, mas quem quiser aparecer, também pode).
Dia 7, quinta-feira, na Festcul, Barreiro.
E dia 9, sábado, na Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás, na Figueira da Foz:
- 14h30, worskshop de Escrita Criativa
- 17h, apresentação do livro Gato Persa Social Club.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
A Grécia, nós
Aproximam-se as eleições (dia 17 de Junho) neste país, e chamo a atenção para dois documentos onde podemos encontrar opiniões informadas sobre um caso que é o espelho do que se passa aqui. Somos nós! A mesma coisa está a acontecer à economia portuguesa e não podemos assistir impassíveis.
De olhos postos na Grécia, aguardo com expectativa os resultados. Será o momento para um povo que, ao contrário do nosso, decide fazer ouvir mais alto a sua voz? Veremos.
Entretanto, recomendo:
De olhos postos na Grécia, aguardo com expectativa os resultados. Será o momento para um povo que, ao contrário do nosso, decide fazer ouvir mais alto a sua voz? Veremos.
Entretanto, recomendo:
- Um artigo bastante interessante de Slavoj Zizek sobre a Europa e os gregos:
- E um excelente documentário, dos mesmos autores do já célebre Dividócracia, aquele que, basicamente, punha em causa a própria legalidade da dívida.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Bom dia, universo (tudo bem)
Hoje não vou levar trabalho para casa nem vou trabalhar em
casa, porque casa é casa.
Não abro o computador, nem olho, nem penso. Porque hoje,
sim, hoje, vou ”@‰¶.
Se me telefonarem, não estou. Se chamarem, não ouvi.
Vou ficar na cama até o sol já ir alto. Deambular sem ir a lado
nenhum e falar com pessoas ao calhas, porque achamos sempre que somos
simpáticos por algum motivo mas não tem de ser assim.
Hoje vou fazer tudo mal. Vou começar pelo fim. E depois
lembrar-me do meio, mas só quando forem horas de acabar. Vou trocar os nomes da
gente e dizer o que penso e ser quem me apetece, para depois me enganar. Hoje
não te vou tentar agradar. Vou vestir-me de nua. Vou aparecer demasiado. Não
vai ser suposto, mas vai acontecer.
Hoje não me vou preocupar em provar
sei lá o quê
Hoje vais gritar que não me conheces, ou que não me moldaste
assim. Mundo. Mas, é difícil estar do lado de quem corre e salta e não dorme,
e não anda a passo mas a galope.
Nas crinas da terra faz sempre mais frio, mas hoje foi o dia
em que não vesti gabardine.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
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