Estava-se a ver que isto ia acontecer. Normalmente, nunca é
alguém muito próximo, ou se é, trata-se de um familiar, género um tio ou um avô.
Estávamos a falar com ele, a conversa até corria bem. Da vidinha, nada de novo,
etcetera. Até que bimbas! Saca do lencinho. Assoa-se (algum barulho vem sempre associado,
não sei porquê), dobra a porcaria do lencinho metodicamente, com um ar
sobranceiro. E volta a colocá-lo no bolso. É provável que ache que está a fazer
um favor à humanidade, do género: olhem para mim, eu escolhi não gastar papel,
através deste método super inteligente de guardar um pedaço de tecido cheio de
ranho no bolso da minha camisa. No fundo, estamos a assistir a uma
conservatória de ranho putrefacto, que se vai andar a passear no bolso de
alguém, até uma altura indefinida (provavelmente por já estar tão nojento, tão
nojento, que nem aquele seu proprietário, com aqueles seus hábitos nojentos, consegue
mais suportá-lo). Ora, no meu humilde ponto de vista, guardar o lencinho do
ranhoca no bolso – e depois voltar a usá-lo e depois voltar a guardá-lo – é
basicamente a mesma coisa do que, por exemplo, nunca lavar as mãos para poupar
água. Só que pior, porque a quantidade de detritos humanos com a qual o ser
humano se passeia é superior. Usem o Cleanex, meus caros, transformem o mundo à
vossa volta num local mais habitável. Vão ver que não arrependem. Se calhar até
fazem mais amigos por causa disso, ou, pelo menos, não os afastam tanto.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
domingo, 29 de julho de 2012
Metro,
quatro da tarde. Pessoas por todo o lado, pessoas que
não gostam de andar de metro. Eu oiço música, porque assim só presto atenção ao
que me interessa. É como uma redoma selectiva, enquadramento paralelo em que os
outros só o são através de uma montra. Eles, os manequins cheios de roupa e eu um
comprador feliz. Compro o que quero, só isso.
Entro. Gosto de olhar para as pessoas no metro, mas não demasiado
tempo. Não sou louca. Nada disso, apenas imagino de onde vêm e porquê esse
sofrimento. Porque as meninas mais bonitas são aquelas que parecem sofrer mais,
no metro. Enfim.
E têm objectos incríveis no colo, que carregam consigo como
grilhões de prisão perpétua. As malas, que não são apenas malas mas biombos
de dor, detalhes da vida que levam mas não gostam de levar. Cabelos, pedaços
enormes de células mortas, amassados à pressa pelos passos do dia. Os cabelos a
cair. As mãos a cair. Os anéis que não querem dizer nada. Estão comprometidas
com alguém de quem não gostam, só porque tiveram filhos juntos. Mas só tiveram
filhos porque acharam que as coisas assim iam melhorar. E é tudo. E isso é
horrível, porque as crianças não têm culpa, mas mesmo assim, às vezes
perguntam-se que mal pode fazer, se elas nunca vão chegar a saber. Pois não?
Elas nunca vão chegar a saber, ou como poderiam, não há palavras, apenas
silêncios. E os silêncios não querem dizer nada. Ou querem.
Mas as crianças sabem e aquelas que vão para a escola no
metro também. É fácil distinguir as que sabem das que não sabem. Porque as
primeira largam um lastro de dor.
Dá também para distinguir as pessoas que costumam andar de
metro e aquelas que lá vagueiam, apenas esporádicas. Primeiro, a Baixa-Chiado,
por exemplo, está cheia de esporádicos. Turistas, surfistas adolescentes e yuppies que ficaram sem a carta por andar bêbados no Bairro Alto no
fim-de-semana passado. Já no Terreiro do Paço, não. Porque os que vêm de barco
do Barreiro não costumam andar de táxi nem a pé. Não há ninguém a carregar o Cartão
7 Colinas, porque todos têm passes. Por que raio haveríamos de andar de barco e
depois mais nada, não é? Não andamos a passear, não fazemos isto pelo gozo. Passe,
esse documento que implica uma vida inteira metida dentro do metro.
Finalmente, o ar livre. E as formigas espalham-se pelo
oxigénio como se não o conhecessem ainda. E como se não tivessem estado
encostadas umas às outras, sentindo o suor, o bafo, a dor umas das outras.
Roçando-se mutuamente nas suas roupas coçadas. Analisando-se, como todos os
animais que se encontram demasiado perto por acidente. É como um grupo enorme
de estranhos, todos juntos, num elevador. Adeus, desconhecidos.
terça-feira, 24 de julho de 2012
O que fica do que passa
Assistimos muitas vezes a críticas ao estado do país por parte de jornalistas, comentadores ou outros espectadores de fora. No entanto, é raro haver alguém de dentro que tenha a coragem e o carácter para o fazer também.
Eis uma análise clara e eficaz por parte de Paulo Morais, ex-vice-presidente da Câmara Municipal do Porto. Desde a corrupção no governo e nas câmaras, às falhas no sistema judicial, entre outros. Um relato na primeira pessoa que nos ajuda a compreender o que realmente se passa e o que deve mudar.
Eis uma análise clara e eficaz por parte de Paulo Morais, ex-vice-presidente da Câmara Municipal do Porto. Desde a corrupção no governo e nas câmaras, às falhas no sistema judicial, entre outros. Um relato na primeira pessoa que nos ajuda a compreender o que realmente se passa e o que deve mudar.
sábado, 21 de julho de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
Há um ano
dei os primeiros passos nesta sala. Não tinha dormido nada e
isto era o mundo. Tinha medo de errar e de não corresponder às expectativas
que, no fundo, eram apenas as minhas. Com tudo ensaiado ao pormenor, os minutos
cronometrados, as cábulas, as dúvidas, a roupa. Como um grande ponto de
interrogação cambaleante lá fui subindo o elevador. E eu era uma zombie que
dizia coisas ensaiadas, certa e rígida, vagamente artificial, com medo de ser
eu, de que não gostassem de mim.
Sim, eu gosto é de escrever e por isso falar é apenas uma
segunda pele. Por necessidade e naquele espaço, acontecia o contrário.
Depois percebi que não tinha de ter medo, que todos ali
traziam qualquer coisa muito íntima para partilhar e era realmente maravilhoso
que o escolhessem fazer comigo. Que eu era como uma caixa onde se guardam os
segredos e um bocadinho também de sonhos.
Há um ano que dou cursos de escrita. E tornou-se, um pouco,
como respirar. Exactamente assim, com duas medidas, retiro o ar dos outros,
para lhos devolver, à minha maneira. Espero estar a fazer-lhes bem. Nunca
gostei muito de pessoas, mas destas sim. Porque há algo que nos une que é
mágico e enorme.
Aquela ali, por exemplo. Jamais nos falaríamos, se nos
cruzássemos na rua, só se chocássemos uma contra a outra. E aí entravamos numa
troca de palavrões e grunhidos, insultos de toda a espécie, sua ...., não vê
por onde olha. (Por acaso não olho. No outro dia, esbarrei de cara contra um poste
porque estava fascinada com uma montra de artigos eróticos e desde então o meu
nariz não tem sido o mesmo.)
Mas não interessa, porque aqui posso conhecê-la e dar-lhe
este bocadinho de mim. Falar sobre a escrita é como remodelar a casa e
acrescentar uma divisão, uma espécie de sala mental em que recebo os outros.
Saber que, do meu quase nada os posso, mesmo assim,
aproximar um pouco mais do que querem ser, enche-me a alma.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
