sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Pseudo-intelectuais: manual de instruções



Quando se é aspirante a escritor, sobretudo antes de se ter algum livro publicado, costumam surgir vários problemas por parte de outrem: ridicularização, menosprezo, condescendência, são alguns exemplos. Regra geral, as pessoas tendem a não levar os sonhos dos outros a sério, sobretudo quando estes são pouco convencionais. Há, no entanto, uma categoria que verifico tratar-se de uma praga em muitos meios sociais e que me tem vindo a perseguir até agora.

O que é um pseudo-intelectual? Normalmente, uma pessoa que gostaria de escrever mas não escreve, ou gostaria de pintar mas não pinta, etc. Contudo, age como se percebesse muito do assunto, tentando rebaixar os outros, para se defender da enorme mágoa que é ser-se um frustrado total.
Manifestações de pseudo-intelectualismo são, por exemplo, afirmações como:
- “Sim, dizem-me que eu daria um excelente escritor, mas não o posso ser, devido aos inúmeros compromissos super-importantes que assumi e que me impedem de me dedicar a assuntos tão comezinhos neste momento.” (Nós não tínhamos perguntado nada);
ou
- “O quê, não conheces o (introduzir o nome de um escritor obscuro, sobre o qual nunca ninguém tenha ouvido falar, que soe a algo do género “Wilks Andresbleiben” ou “Schuffen Karmalovski”)?” Seguida de um esgar de repugna e profundo espanto. Supostamente, isto quererá dizer que, segundo a opinião deles, o interlocutor nem sequer deveria existir, muito menos escrever.
Quem geralmente lida com estas situações são, mais ou menos por esta ordem:
- autores aspirantes, ainda não publicados;
- autores não consagrados;
- mulheres autoras (muitos partem do princípio que estas últimas só são capazes de literatura light e/ou balelas poéticas pseudo-românticas sem interesse literário, porque se trata de um ser “diferente” – eufemismo para “inferior”);
- jovens autores.
No fundo, qualquer pessoa que se encontre numa posição de relativa fragilidade e portanto propícia a ataques daqueles que precisem de chatear os outros para se sentirem bem consigo mesmos.

O contra-ataque, na minha opinião, é responder uma barbaridade qualquer igualmente disparatada, do género: “Ai eu cá para escrever preciso de praticar sexo tântrico durante pelo menos quatro horas, caso contrário, a inspiração não me vem. É muito exaustivo.” Ou ainda, retorquir com mais do mesmo: “Olha que eu agora ando a ler um autor muito bom, aliás, há quem lhe chame o grande mestre da nossa geração, chama-se (inventar um nome completamente estapafúrdio como “Blunks Trotelieu” ou “Jameson Bronkradunt”), o quê, não conheces? A sério? Oh, que horror...”
Garantidamente, a pessoa vai andar o dia a seguir em fúria a gastar um tempo louco, procurando o dito nome pelas livrarias e pela internet. Assim, se não o impedimos de prosseguir no seu método, pelo menos, chateámo-lo um pouco. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Cuidado, acho que vais cair.


Com o risco assumido de que vou fazer um comentário provinciano, preciso de admitir que o conceito de moda em Portugal chega sempre um pouco desmembrado, relativamente ao resto do mundo. Quando, em certos países, como em França, a moda é um conceito bastante plástico que dá azo a várias derivações criativas; noutros países da Europa, como na Holanda, toda a gente se está mais ou menos nas tintas para o assunto; em Portugal, assistimos sempre ao mesmo conformismo, dentro do qual são introduzidos ocasionalmente elementos soltos, progressivamente adaptados por toda a população sem grandes variantes.
Estou a falar, por exemplo, dos saltos enormes de stiletto, que já apareceram há algum tempo, mas que só agora me aprouve  referir. (Sei que houve uma altura em que o meu comentário seria muito mais actual mas que se lixe, é o meu blogue.)
Adiante.
Hoje em dia, nos passeios acidentados de Lisboa, assistimos a pobres elementos do sexo feminino que se tentam içar, tais cabritas montesas, pelas sete colinas acima. Ou saltam dolorosamente, como aranhiços em sofrimento, de pernas dobradas perante a anti-naturalidade do seu desequilíbrio, julgando que estão a protagonizar a maior das elegâncias.
Mas não estão.
Se há algum efeito, geralmente causado, é o da pena.
 Para quê sofrer dessa maneira? E sobretudo: para agradar a quem? A si mesmas não é de certeza.

Por uma questão de principio e de conforto, deixei os saltos. Não tenho nada contra quem os use, impor escolhas aos outros não é o meu género, mas nada me impede de reflectir sobre a problemática... Que seca ter de usar aquilo!
Era, para mim, o mesmo que obrigarem-me a bater com uma panela várias vezes por dia na cara, sob o pretexto de eu parecer sexy a fazer isso.
Ora, afinal, não quero ser sexy nem agradar a um conceito de estética que me é imposto arbitrariamente. É bem mais divertido assim.

O que temos aqui, com os stillettos, é o conceito do il fault souffrir pour être belle levado ao extremo da catástofe: é que, neste caso, “souffrir” implica coisas tão potencialmente dramáticas como deslocar o tornozelo ou bater com os dentes no passeio. Meninas, por isso, se querem estar na moda, é melhor mesmo ter o Inem em tecla rápida no vosso iphone mega-ultra-tripla-tec-nec-super.
(O quê, ainda não têm um iphone mega-ultra-tripla-tec-nec-super?)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pessoas que guardam o lencinho do ranho no bolso


Estava-se a ver que isto ia acontecer. Normalmente, nunca é alguém muito próximo, ou se é, trata-se de um familiar, género um tio ou um avô. Estávamos a falar com ele, a conversa até corria bem. Da vidinha, nada de novo, etcetera. Até que bimbas! Saca do lencinho. Assoa-se (algum barulho vem sempre associado, não sei porquê), dobra a porcaria do lencinho metodicamente, com um ar sobranceiro. E volta a colocá-lo no bolso. É provável que ache que está a fazer um favor à humanidade, do género: olhem para mim, eu escolhi não gastar papel, através deste método super inteligente de guardar um pedaço de tecido cheio de ranho no bolso da minha camisa. No fundo, estamos a assistir a uma conservatória de ranho putrefacto, que se vai andar a passear no bolso de alguém, até uma altura indefinida (provavelmente por já estar tão nojento, tão nojento, que nem aquele seu proprietário, com aqueles seus hábitos nojentos, consegue mais suportá-lo). Ora, no meu humilde ponto de vista, guardar o lencinho do ranhoca no bolso – e depois voltar a usá-lo e depois voltar a guardá-lo – é basicamente a mesma coisa do que, por exemplo, nunca lavar as mãos para poupar água. Só que pior, porque a quantidade de detritos humanos com a qual o ser humano se passeia é superior. Usem o Cleanex, meus caros, transformem o mundo à vossa volta num local mais habitável. Vão ver que não arrependem. Se calhar até fazem mais amigos por causa disso, ou, pelo menos, não os afastam tanto. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

domingo, 29 de julho de 2012

Metro,


quatro da tarde. Pessoas por todo o lado, pessoas que não gostam de andar de metro. Eu oiço música, porque assim só presto atenção ao que me interessa. É como uma redoma selectiva, enquadramento paralelo em que os outros só o são através de uma montra. Eles, os manequins cheios de roupa e eu um comprador feliz. Compro o que quero, só isso.
Entro. Gosto de olhar para as pessoas no metro, mas não demasiado tempo. Não sou louca. Nada disso, apenas imagino de onde vêm e porquê esse sofrimento. Porque as meninas mais bonitas são aquelas que parecem sofrer mais, no metro. Enfim.
E têm objectos incríveis no colo, que carregam consigo como grilhões de prisão perpétua. As malas, que não são apenas malas mas biombos de dor, detalhes da vida que levam mas não gostam de levar. Cabelos, pedaços enormes de células mortas, amassados à pressa pelos passos do dia. Os cabelos a cair. As mãos a cair. Os anéis que não querem dizer nada. Estão comprometidas com alguém de quem não gostam, só porque tiveram filhos juntos. Mas só tiveram filhos porque acharam que as coisas assim iam melhorar. E é tudo. E isso é horrível, porque as crianças não têm culpa, mas mesmo assim, às vezes perguntam-se que mal pode fazer, se elas nunca vão chegar a saber. Pois não? Elas nunca vão chegar a saber, ou como poderiam, não há palavras, apenas silêncios. E os silêncios não querem dizer nada. Ou querem.
Mas as crianças sabem e aquelas que vão para a escola no metro também. É fácil distinguir as que sabem das que não sabem. Porque as primeira largam um lastro de dor.
Dá também para distinguir as pessoas que costumam andar de metro e aquelas que lá vagueiam, apenas esporádicas. Primeiro, a Baixa-Chiado, por exemplo, está cheia de esporádicos. Turistas, surfistas adolescentes e yuppies que ficaram sem a carta por andar bêbados no Bairro Alto no fim-de-semana passado. Já no Terreiro do Paço, não. Porque os que vêm de barco do Barreiro não costumam andar de táxi nem a pé. Não há ninguém a carregar o Cartão 7 Colinas, porque todos têm passes. Por que raio haveríamos de andar de barco e depois mais nada, não é? Não andamos a passear, não fazemos isto pelo gozo. Passe, esse documento que implica uma vida inteira metida dentro do metro.
Finalmente, o ar livre. E as formigas espalham-se pelo oxigénio como se não o conhecessem ainda. E como se não tivessem estado encostadas umas às outras, sentindo o suor, o bafo, a dor umas das outras. Roçando-se mutuamente nas suas roupas coçadas. Analisando-se, como todos os animais que se encontram demasiado perto por acidente. É como um grupo enorme de estranhos, todos juntos, num elevador. Adeus, desconhecidos.