segunda-feira, 17 de setembro de 2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Esses homossexuais que fumam ganzas e que andaram a viver acima das suas possibilidades


- Esta gente quer é fumar ganzas e não fazer nenhum – dizia ele, com um bom e bem servido copo de vinho na mão.
Era uma casa de classe média alta, cujos proprietários, felizmente e tal como eu, nunca tinham passado dificuldades financeiras. Não eram nem mais nem menos inteligentes do que o normal. Não eram nem mais nem menos extraordinários do que qualquer humano. No entanto, davam-se ao luxo de moralizar sobre a vida de todo um povo, como se o fossem.
Gritar na rua? Eles deviam era ir trabalhar, eles deviam era ter tirado um curso de jeito, eles deveriam.

Eles não deveriam fumar ganzas, mas embebedar-se já sim. Eles não deveriam ser homossexuais, ou pelo menos expor a sua identidade demasiado livremente. Eles deveriam mas era ir trabalhar, apesar de não terem emprego, de terem filhos doentes, eventualmente fome, eventualmente desesperados.
“Eles” - para alguns - têm um laço comum e cabem todos na mesma definição, já agora: são aqueles que defendem os mais fracos, é fácil.
(E tal como se sabe, todos os que defendem os mais fracos fumam ganzas.)

É só que às vezes me pergunto quem poderá ainda acreditar que estamos num bom caminho para qualquer coisa e lembro-me deste tipo de conversas a que já assisti. As pessoas que defendem o buraco que estamos a cavar, elas existem.
Não são apenas sombras aqueles que desprezam e generalizam a gente com quem se cruzam todos os dias.
Eles existem, aqueles que se estão nas tintas para toda a gente excepto os próprios. Aqueles que não conseguem conceber um estilo de vida ou uma origem para além da sua. E é contra isso que temos de lutar. Porque a verdade é simples: eles lutam contra nós todos os dias.
Através dos direitos que nos tiram e dizem nunca terem sido nossos, através das taxas imaginárias que nos fazem pagar sem termos qualquer dever de o fazer. Eles lutam.

Tendo em conta de quem nem todos temos as mesmas oportunidades, tendo em conta que nem todos temos as mesmas qualidades ou apetências, acredito num Estado justo, que distribua a riqueza igualitariamente. Não acredito numa sociedade selvagem em que cada um vai por si, simplesmente porque não partimos todos do mesmo ponto.
E é por isso.
Contra eles, como já foi provado, a passividade não resulta. E não tenhamos medo de lhes fazer mal, porque eles já provaram que não têm medo de nos fazer mal a nós.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Hoje, Passos anuncia novas medidas de austeridade


"There will be no curiosity, no enjoyment of the process of life. All competing pleasures will be destroyed. But always—do not forget this, Winston—always there will be the intoxication of power, constantly increasing and constantly growing subtler. Always, at every moment, there will be the thrill of victory, the sensation of trampling on an enemy who is helpless. If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face—forever."
—Part III, Chapter III, Nineteen Eighty-Four - George Orwell

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A televisão e o fenómeno sócio-normativo


Não iria ao ponto de encarar a televisão hoje em dia como o monstro que alguns nela vêm. Não aconselharia o mundo inteiro a ver-se livre de todas as suas respectivas. No entanto, vejo-me obrigada a partilhar o que aconteceu na minha vida desde que não tenho este aparelho em casa.
Ao princípio, veio o pânico. Durante dois anos tive-a e agora ela morreu. Era do século passado, coitada. E agora? Como vejo as notícias? Como sei o que se passa no mundo? Como vou sobreviver? Algo horrível se iria produzir, pensei, vou-me desintegrar.
Nada disso.
A única coisa que mudou é que posso escolher. Quero saber mais sobre um determinado assunto que me interessa? Pesquiso na internet. Há uma série/documentário que gostaria de ver (não acontece assim tantas vezes, mas é possível)? Vejo online. Quero ficar informada? Leio os jornais ou os sites. De facto, é isto. Percebi também que ganhava tempo, porque não tinha de aturar anúncios e outras porcarias que não me interessava ver, mas que mesmo assim me impingiam (nasceu um bebé com três braços em Oliveira de Azeméis, foi batido o record guiness para a maior omeleta de repolho do mundo, são tudo coisas que me passam agora ao lado).

Ou seja, o grande efeito que a televisão têm hoje em dia nas pessoas é o de escolher por elas. Os nossos interesses são-nos ditados por uma entidade exterior, que nos entra, com cada vez mais intensidade, em casa. Há canais para todos os targets e para cada hora do dia e ninguém está a salvo. 
As pessoas chateiam menos o sistema, ficando sossegadinhas. Com as camadas idosas, por exemplo, vejo que funciona como um tipo de conformização, que as impede de andar por aí a mostrar o seu sofrimento pelas ruas, como faziam dantes (há quem ache muito incómodo o sofrimento dos outros).
Resumindo, o que quero dizer é que não vejo este aparelho como um monstro nem acho que seja completamente negativo ter um. No entanto, é preciso um cuidado e uma presença de espírito enormes, coisas que nem sempre temos (eu não sei se tenho) para não sermos sugados pela espiral do sistema que nos diz o que fazer, o que pensar e o que tolerar.
Porque em geral, é como um avatar de vida. É esse o efeito. É esse o efeito da televisão.