Ou serei?
Talvez uma das perguntas que mais se faz aos escritores seja
- Aquelas personagem és tu?
Falta de imaginação, curiosidade, tentativa de perceber para
além do texto? Porventura, um misto dos três.
Desfaçamos esta ambiguidade.
A personagem de um romance, seja ela qual for, é sempre o
autor. Um esboço ambíguo daquilo que ele seria, ou gostaria ser, ou detestaria
e teria pavor. Falo por mim. Desde o velho que diz palavrões para o ar à porta do
talho à senhora obesa com o caniche da padaria, somos todos sempre eu. Não é
preciso chamar o Pessoa, a esquizofrenia literária é um facto à escala global. Porque eu falo,
imagino e faço coisas. Eu sinto, amo
e fodo. Não posso sentir a dor dos outros. Por isso, muitas dores ao
mesmo tempo.
Quando ponho alguém a saltar do prédio, ponho-me a mim a
saltar do prédio e nesse sentido é sempre o que eu experienciaria. A minha
bochecha a esmagar-se no passeio, mesmo que ela nunca se tenha esmagado contra
um passeio.
Quando escrevo, vomito as palavras que um dia me
aconteceram.
Uma personagem, por outro lado, nunca pode ser eu. Pela
simples razão de que ninguém é suficientemente interessante para construir uma
figura de ficção. Esta é o fio de uma vida demasiado divagada. Consequência
directa do enredo que o antecede, é aquele a quem queremos que aconteçam as
coisas interessantes que nunca protagonizaremos. Ele é aquele que queremos que
salte do prédio, por isso é preciso arranjar maneira de o fazer subir as
escadas, ou o elevador, ou o guindaste.
É aquele que é
(como já tão bem no-lo disseram antes).
Por isso, sim. E não.
E vai ser sempre sim e não ao mesmo tempo. A personagem és
tu? É uma pergunta parva, porque sou sempre mas não sou e sou e não sou
esouenãosouesouenãomasmasmassouesoumasnãosoumassoumasnãosouesoumasnãosoumassouenãosou.



