sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A sul de nenhum norte

Dois poemas para a revista literária "A sul de nenhum norte", de Janeiro:



AB123

Um dia, perguntas-me porquê
e eu
- coisas, sim, fiz coisas
porque estas mãos jorram torrentes e estas flores não param de morrer
as dálias estampadas num lençol amarelo
onde estivemos muitas vezes
com gente que apenas veio por uma noite
- coisas
sim, fiz coisas
e depois enrolei uma manta nos pés
não endireitei as costas, como me aconselhou o retrato
que olho de perfil, enquanto me abraço, a chover.
E lá fora é apenas Agosto
ou inverno, já não me lembro
Tantas vezes quis sair em silêncio
em vez disso, tropecei sempre nos objectos.


Hoje de manhã

pegaste no teu Mein Kampf
vestiste o roupão, sujo
Havia ainda um resto de branca à cabeceira
que com um gesto mole, limpaste
com os dedos dormentes, que importa
A esta hora, já não te satisfaziam verdades siderais
preferes contemplar a ingratidão dos outros com lentes de verdade
Saíste para comprar o jornal
tropeçaste por almofadas
sujas de ti
e eu virei-me para o lado
o gato saltou por cima
e eu virei-me para o outro lado
encontrei ainda Gin, na garrafa partida
magoei os dedos nos vidros
sempre tive bons pés para esse efeito
e é chato acordar na prisão.


Fazer dowload aqui. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Fevereiro, na Escrever Escrever

Escrever um livro: por onde começar?

- manhã
- pós-laboral


Oficina de romancistas: dos clássicos ao estilo literário

- manhã


Escrever um livro: por onde começar? Nível 2

- pós-laboral.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Adeus


Uma amizade é como um namoro, só que mais forte. Pelo menos, para mim, sempre foi. Desde miúda que tive bastante facilidade em trocar de namorado e recuperar de desgostos amorosos. E ao passo que as minhas amigas sofriam horrores pelos seus namoradinhos, eu ficava era mesmo chateada quando me chateava com elas. Era disso que não conseguia recuperar bem, porque era aí que, para mim, se dava a verdadeira partilha.
O Nuno foi bastante importante para mim, nesta fase da vida. Esteve lá quando acabei com uma relação duradoura e quase sem eu me aperceber disso tornou-se numa peça chave de todo um processo/patamar pelo qual passei ultimamente e que acabou por findar um certo paradigma pessoal. Agora, vai-se embora, viver para Copenhaga.
Quando recebi a notícia, a minha primeira reacção foi de felicidade, claro. Sei que ele nunca viveu fora e ansiava por uma experiência deste tipo e também sei que é uma oportunidade única e maravilhosa para qualquer um. Lembrei-me das minhas viagens e estadia em Amesterdão e de como a minha vida teria sido desinteressante sem estas. No entanto, depois da excitação inicial, fica a pergunta: e agora? Não me apetece fazer tudo outra vez, não me apetece andar à procura de outro Nuno!
Finalmente, percebo o que os meus amigos sentiram quando eu me fui embora: um misto de contentamento, inveja e tristeza. É injusto quando criamos com alguém uma partilha especial e depois essa pessoa se vai embora. Tendo viajado, já me aconteceu muitas vezes. Também já me fui embora e deixei pessoas que depois mudaram. Também mudei.
Tudo muda e ninguém é garantido. Não há lugares seguros e isso acaba por nos fazer evoluir. Mas que nos vemos por aí, vemos com certeza. E agora vou acabar com os clichés reconfortantes e vou só ali chorar um bocadinho, com licença. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Escrever sai à rua: escrita criativa no CCB



Este workshop pretende quebrar as fronteiras entre Artes Plásticas e Literatura, numa “mixórdia” de palavras, sons, objetos, telas e cores.
Aqui descobrimos as personagens, diálogos e cenários do museu. Aprendemos que o escritor não tem de ficar em casa para encontrar a sua musa, já que algumas das grandes ideias literárias nascem justamente da observação. Que história se esconderá por detrás daquele quadro, daquela instalação, daquele senhor tão estranho? Num lugar tão cheio de estímulos, é impossível ficar de caneta parada!



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As Partículas Elementares



Será possível ser-se extremamente badalhoco – a um ponto que roça o incomodativo – e mesmo assim escrever-se de uma maneira genial? A resposta é sim, mas só se formos Michel Houellebceq.

Este é o segundo livro que conheço do autor e devo admitir que o primeiro que li – O Mapa e o Território (2010) – não me preparou para o que se me ia seguir. Há quem diga que este romance provocou tamanho escândalo, aquando da sua publicação em 1998, que Houellebecq, consciente das necessidades de alargar o seu público-alvo, adoptou de seguida um tom mais puritano, como estratégia para o prémio Goncourt (o mais importante premio francês), que acabou por ganhar. Embora estas especulações me pareçam artisticamente calculistas, não pude deixar de encontrar um pequeno fundamento para as mesmas ao ler As Partículas Elementares (1998). Mergulhamos numa aventura sem retorno pontuada de acontecimentos catastróficos e uma listagem das várias maneiras de masturbação pública possíveis. Fica-se preso assim entre um querer atirar com o livro para a retrete e um não conseguir deixar de o devorar, que só as obras geniais conseguem.
A dimensão psicológica das personagens é-nos explanada segundo um processo de dissecação emocional, que se relaciona com o facto de uma delas ser um biólogo investigador; mas cuja plena razão de ser apenas nos é dada a perceber mais tarde, no epílogo. Tem, de facto, um dos melhores finais que já li. É um daqueles livros em que se percebe que o mesmo foi pensado durante todo o processo da escrita, se é que não foi a própria razão da mesma.
Bruno e Michel são dois irmãos cuja vida falhou, mas, como o autor no-lo dá a entender, o mesmo se passa com cada um de nós. É um relato frio e estranho, completamente diferente de O Mapa e o Território, mas semelhante na medida da sua análise da inevitável solidão humana. O germe do desligamento sentimental explode aqui em toda a força e ninguém é poupado. Para ler com whisky e Água das Pedras (estes podem, dependendo das alturas, ser utilizados em conjunto ou separadamente).