quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sábado, em Carnaxide


Prova de Livros
Oficina de Escrita Criativa Um Passeio pela Escrita, por Teresa Lopes Vieira
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16.Fevereiro - 14h30
Biblioteca Municipal de Carnaxide
Teresa Lopes Vieira na sua oficina de escrita criativa, realiza uma viagem ao mundo da escrita que ensina “o que é criar e como fazê-lo através das palavras”, com exercícios para desenferrujar as ideias e a criatividade.
No final, a autora irá apresentar os seus livros e conversar com o público sobre as obras e as viagens que as inspiram. Equador, Colômbia e Egipto são alguns dos cenários das suas histórias.

Público-alvo: Adultos e Jovens (a partir dos 16 anos)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A conversa da crise


Hão-de reparar que, hoje em dia, quem mais se refere queixosamente ao vago termo de “crise” é quem menos faz para que as coisas se resolvam. Não que o cidadão comum, no geral, possa fazer muito, é verdade. Quem não tem mais influência ou disponibilidade pode ir às manifs, derrubar umas cancelas, mandar uns petardos e tal. Estou-me, no entanto, a referir às pessoas que rigorosamente nada fazem, simplesmente passando o dia de cu sentado em casa, mas que mesmo assim não se calam com chavões como “isto está mesmo mal” – que já ninguém suporta.
Sim, já todos percebemos que isto está muito mal e agora? Em vez disso, poderiam apresentar soluções práticas. Que se diga mal do governo, das medidas por ele tomadas, da corrupção generalizada do nosso sistema, do sistema bipartidário que já não funciona, da perversidade dos aparelhos partidários, da falta de transparência da nossa democracia; acho óptimo. Vamos falar sobre isso. Adoro falar sobre isso. Agora para vagos queixumes sobre o “como isto está” já não tenho paciência e já não posso ouvir.
 
Devia haver uma multa para as pessoas que andam para aí a dizer “como isto está”, mas essa não seria paga em dinheiro. O cidadão seria, sim, obrigado a ler todos os jornais que lhe pudessem à frente durante uma semana (coisa, provavelmente, nova na sua vida – por alguma razão se fica por apreciações vagas e nunca chega a criticas concretas) finda a qual deveria passar duas horas a debater, com outro cidadão apanhado no mesmo ilícito, soluções práticas e medidas que gostaria de ver tomadas. Assim, sim.
Mas eu acho que essas pessoas, no fundo, gostam de ser assim. É a conversinha que temos com o senhor do café, é o debafo que se faz à vizinha, mas em relação ao qual não se sente um mínimo de ligação, sim, gostamos disso. Porque é muito mais cómodo mandar bitaites para o ar do que interessar-se, de facto, pelas coisas. Porque é muito mais cómodo ver a novela do que ler, de facto, o jornal. E quem é responsável pelo ponto a que chegámos adora a conversa do “como isto está”. Porque revela aquele fatalismo apassivante que tão bem nos caracteriza e graças ao qual nos deixamos embrutecer e manipular até agora nos termos lixado a sério. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Ser-se profundo e emotivo não faz de nós escritores


Tendo sido formadora na área da escrita criativa há algum tempo, uma das coisas que me choca mais é  a quantidade de aspirantes a escritores que não lêem, nem gostam de ler, nem tencionam nunca fazê-lo. Digo isto sem qualquer tipo de pretensão de me achar melhor do que os outros, tenho noção de que estou em início de carreira (como é óbvio, tenho, eu também, muito para aprender, ler etc.) apenas me choca que alguém que me diga, por exemplo, que está a começar a escrever um livro, esclareça ao fim de alguns minutos de conversa que “pois mas eu não tenho tempo para ler”.
Então e tempo para escrever um livro, já tem?
Podem achar que estou a ser demasiado radical, podem dizer que há pessoas que se inscrevem em cursos de escrita simplesmente por pura diversão, sem qualquer tipo de ambições literárias de extrema exigência. Eu aceito e acho que sim, podemos fazer disto um hobbie, não há mal nenhum, antes pelo contrário. Em termos de passatempo lúdico, parece-me até bastante interessante e saudável. Não é, no entanto, o caso de muita gente que, tencionando de facto publicar alguma coisa (alguns mostrando motivações bastante aguerridas e orgulho extremo no seu trabalho) se recusa a estudar o que foi publicado anteriormente, como se pudesse simplesmente inventar o estilo, aprendendo do zero. Ora – grande novidade – isso não é possível.
Diria mesmo que é incompreensível: se eu não gosto de ler e vou produzir um texto literário, então isso não quererá dizer que eu não vou gostar sequer de me ler a mim mesmo? A menos que vá ao ponto de admitir que apenas a minha própria produção me é aceitável, negando assim todas as outras. Mas nesse caso eu não deveria partir do princípio que os outros estejam interessados no meu material, pois este é produto exclusivo do meu próprio ego e como tal, apenas me vai interessar a mim e eventualmente aos meus amigos.
Isto deveria ser uma coisa óbvia, mas importa esclarecer, só para que fique dito: nunca se consegue criar algo de novo sem aprender com os mestres, ver o que está para trás e assimilar os paradigmas. Uma das tarefas mais difíceis em literatura é ganhar visão objectiva do nosso próprio trabalho e distanciarmo-nos ao máximo do envolvimento emocional que criamos com a linguagem e com a forma. Sem nos conseguirmos situar no panorama literário, não há absolutamente maneira nenhuma de isso acontecer. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

“Se ele fez isso, então é porque não é verdadeiramente teu amigo”


Penso que toda a gente já terá ouvido esta frase pelo menos uma vez na sua vida. O cenário é típico: alguém em quem depositámos confiança faz-nos alguma coisa de que não gostamos, vamos fazer queixinhas a outra pessoa e essa resolve debitar o seu veredicto sobre a amizade em geral, aniquilando todo e qualquer comportamento que ache menos digno, como se fosse ela mesma a moralidade e a ética encarnadas.

Surpreende-me essa capacidade de nos julgarmos uns aos outros e de nos arrogarmos a faculdade de decidir sobre as relações alheias. Uma amizade é uma coisa complexa, tenho vindo a pensar nisso nos últimos tempos e as conclusões a que chego não são, de modo algum, lineares. Conhecemos várias pessoas, ao longo da vida, que nos podem dar várias coisas diferentes. Nós próprios mudamos e criamos necessidades diversas, que se alteram por vezes no mero espaço de um dia. Não é por alguém nos fazer algo de que não gostamos que o devemos imediatamente remeter para a categoria de “conhecido”. Até porque, de qualquer maneira, muita gente nos vai fazer coisas de que não gostamos, incluindo essa pessoa que eventualmente acabou de moralizar a outra amizade.
O que é um amigo? Penso que haverá várias formas de responder a essa questão. Tem de ser alguém que gosta de nós, mas ao mesmo tempo, mesmo que não o saibamos, pode estar connosco por hábito, por solidão, por convenção, por fazer parte do mesmo grupo; essa motivação pode nunca se vir a manifestar concretamente e por muito que nos custe admitir, é mais frequente do que achamos. E o pior é que, da maior parte das vezes, uma coisa não invalida a outra.
Haverá, de facto, milhares de razões que nos ligam aos outros, não sendo nenhuma cem por cento pura. Não quero com isto desacreditar a minha fé no ser humano, apenas dizer que o que nos une nunca é a mais linear das relações nem a bondade pura e altruísta, nós não somos manuais de matemática ambulantes. Há sempre uma infinitude de pressupostos e sentimentos misturados, porque somos complicados.

Também não quero dizer que tenhamos que perdoar tudo, ou de aceitar ser tratados de qualquer maneira. Apenas acho que deveríamos começar a ser menos extremistas e sobretudo deixar de nos julgar constantemente, como se fossemos detentores da verdade absoluta no que diz respeito à relação entre dois seres humanos. Vai haver, de certeza, uma altura em que vamos fazer merda, e aí não vamos querer ouvir que “não somos verdadeiros amigos” de alguém. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Escrever sai à rua

E foi assim o workshop que dei para a Escrever Escrever, no CCB! Uma tarde muito bem passada, misturando artes plásticas e literatura.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Modas


Pode parecer cliché ir a correr comprar o mais recente prémio Nobel (se bem que este me foi oferecido, a pedido, no Natal) mas a verdade é que também se tratou de uma excelente desculpa para me aventurar na, até agora para mim desconhecida, literatura chinesa.
Mo Yan, dizem, sofreu na realidade muitas influências ocidentais, tais como a de Faulkener ou Garcia Marquéz – embora ele próprio diga que não as assimilou directamente, a verdade é que constituíram parte da sua escola literária. Trata-se portanto, presumo, de uma entrada soft na literatura oriental.
Esta é a saga da família Shangguan, protagonizada na primeira pessoa por Jintong, o filho mais novo de uma família de oito irmãs. Mimado e aguardadíssimo, acaba por se tornar num inútil que ainda na idade adulta ainda gosta de beber leite das mamas das mulheres com quem se envolve (podemos, na minha opinião, ver aqui uma certa vertente metafórica típica do Realismo Mágico, que aparece em vários episódios da narrativa). Permite uma visão alargada da História do pais, retratando com enorme vivacidade episódios como a invasão japonesa e a Revolução Cultural, a partir da região de Gaomi, um meio rural e extremamente pobre.
A mãe, Shangguan Lu, que permanece viva através das desgraças, guerras e maleitas físicas; faz lembrar uma Úrsula Buendia, a mulher que tudo aguenta e por quem tudo passa. A mulher, de facto, é a grande pedra basilar do livro, que acaba por lhe ser uma espécie de homenagem. Um romance que demonstra, parafraseando Howard Goldblatt, o falhando de um sistema patriarcal; em que as mulheres são estruturantes na acção, enquanto os homens na sua maior parte não passam de atracções circenses que tornam a narrativa mais colorida.
Marcado por um erotismo violento e intrusivo, com imagens inusitadas, este é um livro que enjoa e faz sorrir. Portanto, nem sempre o facto de um escritor estar na moda é mau sinal.