segunda-feira, 6 de maio de 2013

Escrita Criativa no Martim Moniz

Hindi, árabe, mandarim, urdu. Açafrão, gengibre, saris, objetos brilhantes fáceis ou difíceis de identificar. Há muito por onde escolher e os sentidos não param. Martim Moniz é a magia de dois continentes fundidos numa só Lisboa, uma cidade alternativa dentro da capital, na qual se viaja sem viajar. Aqui, impossível é não soltarmos o contador de histórias que há em nós. 
Venha mergulhar nesta constelação estonteante de objetos, sabores, sons, cores; enquanto dá largas à imaginação e à caneta. Vamos fazer jus às palavras de Mahatma Gandhi: «Não quero que a minha casa seja cercada de muros nem que as minhas janelas sejam tapadas. Quero que as culturas de todas as terras sejam sopradas para dentro da minha casa, o mais livremente possível.



Sábado dia 18 de Maio - inscrições e mais informações:

http://escreverescrever.com/verEdicao.php?id_edicao=2434&mes=05



terça-feira, 23 de abril de 2013

A televisão e nós: o grande ménage à trois colectivo


Não me levem a mal, eu não tenho nada contra as pessoas que gostam de ver televisão. Pelo contrário, considero-a um acessório lúdico como outro qualquer, tão útil como uma ventoinha ou um vibrador. Critico, no entanto, a importância que este objecto de aparência inofensiva assume nas relações amorosas, ao ponto de se tornar num terceiro elemento mecânico, com pretensões a resolver todo o tipo de contendas e dilemas interpessoais.

Ao principio, está tudo bem, parece. Conhecemos uma pessoa interessante, vamos lá a casa ver um filme, coiso e tal, pronto. Sem problemas.
Pouco a pouco, no entanto, ela torna-se num escape de conforto quando tudo começa a correr mal. Afinal descobre-se que não se tem nada em comum? Não há problema, põem-se as noticias e diz-se mal dos políticos. Não tem uma conversa de jeito: vamos ver um filme? Ai está a ter um ataque de ciúmes outra vez? adoro esta série, por favor, é o último episódio.
Sem mesmo disso nos apercebermos, a televisão começa a ocupar um lugar central nas nossas vidas, um pouco como um acréscimo ou um órgão adicional do casal, sem o qual o último já não se consegue viver. Pior: é, tristemente, por vezes, aquilo que nos mantém juntos. Porque serve uma desculpa para tudo, resolve todos os problemas e no fundo, se virmos bem, acaba por adiar muitas das separações. Estamos demasiado ocupados com outra coisa para nos concentrarmos nos nossos próprios problemas e então vai correndo tudo bem até faltar a luz.

Perguntei-me o que é que as pessoas faziam quando não havia televisão e a resposta não tardou a vir: faziam filhos, conversavam, embebedavam-se, iam a festas, planeavam guerras, ou deitavam-se cedo para acordar às 5 da manhã. Nada disso me parece nem mau nem particularmente melhor. A televisão é apenas o ménage à trois da era pós-moderna, temos de nos contentar com isso e esperar que – se é que já não o faz – a mesma nunca venha a assumir nenhum papel estranho de teor sexual nos assuntos domésticos.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Oficina de Romancistas

Neste mês de Maio, na Escrever Escrever, há também Oficina de Romancistas.




Aqui, aproveita-se o grande material literário para criar um estilo próprio. Este curso tem mais do que um “professor”, aliás, tem muitos: de Tolstoi a Nabokov, de Garcia Marquez a Bolaño, de Faulkner a Roth... Vamos experimentar estilos e géneros diferentes, desde os clássicos à modernidade, aprendendo assim os elementos de base do romance de um modo prático e dinâmico. 


Inscrições:
http://www.escreverescrever.com/verEdicao.php?id_edicao=2425&mes=05

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Oh meu Deus, a senhora da bicicleta está a olhar para mim (outra vez)


Descobri um novo desporto chamado spinning. A maioria dos comuns mortais já o fez há dez anos mas eu, como costumo andar distraída, só agora me apercebi dele e dos seus benefícios.
Para os que nunca experimentaram, o spinning consiste em fazer de conta que se anda numa biclicleta, que na verdade está presa ao chão mas que nos obriga a fazer esforços loucos e suar como um cavalo, fingindo que andamos a tentar subir montanhas ao mesmo tempo que fugimos de um tractor enfurecido ou coisa que o valha. Claro que, segundo alguns, isto é uma actividade sintomática da sociedade urbano-depressiva em que vivemos, que nos faz criar todo um mundo de ilusão sem sentido, quando no fundo devíamos era andar aí ao ar livre a correr com os passarinhos. Não discordo, mas estou-me nas tintas, porque de qualquer maneira não é esse o ponto que quero focar agora.
Gostava era de falar aqui dos meus progressos na actividade do spinning, dos quais descobri que me orgulho bastante.
Devo dizer que as primeiras aulas foram duras para o meu ego. Estava eu nos píncaros, muito orgulhosa da minha actividade, quando ouvi a voz da professora a ressoar pela sala inteira: “Teresa, ao menos tenta fazer alguma coisa.” Cai das nuvens. Alguma coisa? Mas eu achava que estava a fazer tudo bem! Passado o momento de agonia, decidi que tinha de me esforçar. Demorei algum tempo a perceber que estava na verdade a fazer tudo mal e que os reparos não eram despropositados: não sabia colocar o assento correctamente, encontrava-me mal posicionada e raramente me conseguia manter ao ritmo dos meus colegas. Resumindo, era uma nulidade. Escondia—me atrás de uns e de outros, mas a professora encontrava-me sempre e berrava repreensões suadas na minha direcção, através do seu microfone. Muito humilhante. Sou uma intelectual, no entanto, na hora da verdade, é sempre o físico que nos julga. É sempre assim, na grande selva da vida.
Mas eis que ontem o mundo se iluminou em grandeza; pela primeira vez, a professora de spinning fez-me o sinal de polegar levantado, do outro lado na sala. E hoje, nem acreditei na minha felicidade: ela fez-me o sinal outra vez! Quererá isto dizer que a minha prática de spinning se está a tornar “fixe”?!
Quando tudo correr mal, não me vou suicidar: vou fazer spinning. Eis alguma coisa em que, pelo menos, sou devidamente apreciada. 

domingo, 7 de abril de 2013

Homofobia ao contrário


Nas discussões sobre identidade sexual, ouvem-se, comummente, todo o tipo de aberrações, já se sabe. Os comentários homofóbicos são, infelizmente, quase sempre os mesmos e muito pouco originais: há aquele que “não se importa que os outros façam escolhas diferentes das dele, mas desde que se escondam, para não o incomodar muito”, os que usam expressões como “contra-natura” (entenda-se, por “natura”, a construída por eles, não a dos animais certamente), ou ainda o “já agora, por que não legalizar também a poligamia?”.
Mas há um tipo que acho ainda mais interessante. É aquele que elogia exacerbadamente “os homossexuais”, como se tivesse à partida algo a temer e colocando-os todos na mesma categoria.

“Os homossexuais têm muito mais gosto do que os outros”
“Os homossexuais são muito mais sensíveis, no bom sentido, claro”
“Lá no meu trabalho, conheço um e gosto imenso dele”
“Tenho uma amiga que tem montes de amigos assim”
“Tenho uma prima lésbica, que é super inteligente, tirou um mestrado e tudo”
Isto, claro, denota uma certa atitude trabalhada por detrás. Uma falta de à-vontade enorme, seguida de um impulso para a esconder, por desejo de integração social. Que, segundo a minha opinião, se deve reflectir num pensamento qualquer do género:
“Ok, a mim mete-me imensa impressão essa coisa de haverem pessoas que não se regem pelo ideal de família que me incutiu a sociedade e que sou demasiado fechado para questionar, mas, como me fica mal exprimi-lo e além disso, quero que me considerem um porreiro e tal, vou fingir que estou mesmo, mesmo na boa com o assunto”. Ora, nota-se perfeitamente que essa pessoa não está nada, nada na boa com o assunto.
Quem diz estas coisas, para mim, encontra-se um bocadinho ao nível daqueles que acham que uma determinada cor de pele ou nacionalidade determina o quão afável a pessoa em questão é.

Já era tempo de deixar de dividir as pessoas por categorias e grupos. Por esta altura, já deveria ser óbvio o facto de cada individuo ter a sua personalidade, independentemente de como exprime a sua sexualidade. Noto um certo desconforto, agora que estas últimas questões são trazidas para a praça pública com frequência. Espero que, um dia, a identidade sexual deixe de ser tema de controvérsia. Acho que é uma questão de tempo, mas até lá ter-se-á muitos comentários interessantes para ouvir. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Benfica em Poesia

É já no próximo domingo, pelas 16h30, a cerimónia de entrega do prémio do concurso Benfica em Poesia, do qual fui júri.
No Auditório Carlos Paredes - Junta de Freguesia de Benfica.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Pensamentos

"Não há nada mais vexatório do que ser, por exemplo, rico, de boas famílias, de aspecto atraente, razoavelmente instruído, nada tolo, bom até; e não obstante, não ter qualquer talento, nenhuma característica pessoal ou até singularidade, não pensar nada por si; enfim, ser positivamente "como toda a gente"."
                                                                                                     Fiodor Dostoievski - O Idiota

quarta-feira, 27 de março de 2013

Tenho “bué de cenas” na minha cabeça


Saio de casa para fazer um intervalo no trabalho, sento-me na pastelaria, com um livro, para comer um croissant com uma meia de leite. Tudo estava perfeito, até perceber que há uma intrusa no meu panorama. É uma pessoa daquelas que conhecemos mais ou menos e que normalmente é amiga dos nossos amigos. O género de gente de quem não gostamos particularmente e que também não gosta particularmente de nós, mas com a qual nos sentimos de uma certa forma obrigados a fazer conversa de chacha se a virmos na rua.
Só que desta vez ela resolve sentar-se à minha frente. A conversa começa de uma forma desajeitada, claro, já que não temos nada para dizer uma à outra. Falamos das respectivas profissões. Digo que escrevo e logo o seu olhar se enleva, revira os olhos e começa a esbracejar docemente. “Ai eu também escreveria – diz – quando era criança tinha uma vida interior muito grande e blá, blá, blá. Mas agora não tenho tempo porque blá, blá. Se calhar, quando for de férias, ou me reformar, blá. Sabes, tenho bué de cenas da minha cabeça.” – declara, com um ar importante.

Quem se dedica à escrita tem de se preparar para que partam do principio de que não faz um chaveiro, que lhe telefonem ao meio dia e lhe perguntem se ainda estava a dormir, que achem que por trabalhar em casa está sempre disponível e que assumam que tudo o que tem lhe cai do céu – porque muitas pessoas, de facto, só vêm o que está num escaparate ou num ordenado. Depois, também tem de aguentar o pessoal que tem “bué de cenas” na cabeça, mas que, vá-se lá saber porquê, nunca as partilha com o mundo.  Mas faz questão de nos falar das mesmas, para percebermos bem que, se as pusesse no papel, elas seriam tão ou mais interessantes do que as nossas.
Partindo, claro, do princípio de que a escrita não é um trabalho, mas sim qualquer coisa que se eventualmente leva a cabo quando se reformar ou quando já não se tem nada para fazer. Parece-me óbvio. Eu também estou a pensar ser, por exemplo, pintora, quando me reformar, ou for de férias. Penso que será perfeitamente possível, em tipo, um mês, passar de não entender um caracol do ofício a ser uma profissional do mesmo. Basta mandar umas pinceladas e tal, fazer uns bonecos e está feito. É que me parece que teria bué de cenas para mostrar.
Mas, tipo, mesmo bué de cenas. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Escrever um livro na Páscoa

E que tal aproveitar este feriado para... começar a escrever aquele livro que tanto deseja?

É já na próxima Sexta-feira e Sábado, o curso Escrever um livro: por onde começar? Especial de Páscoa. Ainda há lugares, mas não por muito tempo!

Informações aqui

sexta-feira, 22 de março de 2013

Lembranças

Para começar bem o fim de semana, gostava de deixar aqui uma referência bem marcante da minha infância.
A série chamava-se Paradise e vem da geração Macgiver. Só que era muito mais interessante e completa. Numa qualquer aldeia perdida do Texas, Ethan Cord dava porrada nos malvados e seduzia as donzelas e montava a cavalo, e, e... Tudo. No fundo, Ethan Cord era o máximo.
Este cowboy, por quem todas as meninas se apaixonavam, era a companhia obrigatória das minhas horas do lanche passadas em frente à televisão, comendo cereais com leite.
Já diversas vezes me tinha lembrado dele ao longo da existência, mas só no outro dia senti a saudade necessária para ir ao Youtube relembrá-lo.
Tem qualquer coisa de heróico, mas moral e caseiro ao mesmo tempo.
Que nostálgico. Vejam.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Trastorno narcisista da personalidade? Not interested.


Tudo começa com uma cerveja ao início da noite. Explica-me que trabalhou numa marca de óculos de sol. Claro que isto não é senão uma desculpa para me mostrar os seus óculos, que supostamente custariam 500 euros, mas que, como foram feitos expressamente para ele, foram de graça e ainda têm as suas duas iniciais gravadas na aste. Oh não – penso eu, eis mais um que vai passar a noite a gabar-se. E assim foi. Este meu novo amigo, durante as três horas em que estivemos juntos, só me falou de roupa, do preço das coisas grátis que lhe ofereciam e das marcas que usava. Não sei se estava ao corrente do facto de isso ser profundamente insuportável. Suponho que não.

Serve esta introdução para me queixar das pessoas que sentem este tipo de necessidade de gabar-se. Seja sobre bens materiais, sobre quão bons são a exercer a sua profissão ou sobre outro tipo de atributos quaisquer dos quais se achem muito detentores. Pergunto-me sempre se há aqui alguma fragilidade qualquer ou uma insegurança profunda. Porque, normalmente, há. Quando somos obrigados a levar uma seca de não sei quantas horas sobre o quão bom é o outro, normalmente, é porque o outro, no fundo, não se acha assim tão bom e pensa que, convencendo-nos de que o é, se vai também convencer a si mesmo. Isto, escusado será para alguns dizer, é muito irritante.

Nas escolas americanas de escrita de ficção, ensina-se uma velha máxima chamada “show, don’t tell”, que nos diz basicamente que o leitor não acredita em nós se dissermos alguma coisa, apenas se o mostrarmos, pintando-lhe assim uma imagem visual que ele mais facilmente irá interiorizar. Deste modo, não me basta, por exemplo, dizer que “a praia é bonita”, porque isso não significa nada; devo, isso sim, descrever a tal praia, de modo a provar a minha afirmação. Na vida, muitas vezes, passa-se o mesmo, na medida em que estamos mais sujeitos a acreditar nas faculdades dos outros se eles no-las mostrarem; por oposição ao estarem o tempo todo a evocá-las oralmente. Parece-me, assim de repente, que alguém beneficiaria de umas aulas de escrita criativa. 

terça-feira, 12 de março de 2013

"Nunca paguei por uma bebida"


Entre as várias figuras características que uma pessoa pode encontrar na noite e que, já por inerência, primam na sua maioria por se exprimirem através da superficialidade, há um grupo muito particular que me chama a atenção. O das “babes” que, já adultas, se gabam de não pagar nada.
“Ai eu nunca pago nada naquele bar”, “Ai cá a mim oferecem-me sempre bebidas” – dizem elas, com um orgulho que acho ser, aos trinta anos, um bocado preocupante e deslocado.
É, ainda, sinal de quem claramente não vê o que está por detrás do conceito.

Percebo, no entanto, por que o dizem. Isso divide imediatamente, segundo as suas perspectivas, o mundo feminino entre duas categorias: as feias (a quem supostamente ninguém paga bebidas) e as bonitas (a quem as pessoas já pagam bebidas).
Tenho 28 anos e ganho o meu próprio salário. Arrisco dizer que sou interessante e sempre fui atraente. Se me apetecesse, aceitava que me oferecessem coisas. É claro que já aceitei várias vezes, enquanto nova, por inadvertência ou por ser conveniente. Mas cresci e desenvolvi um cérebro. Parece-me claro o facto de achar muito melhor ser eu a pagar as minhas próprias bebedeiras, sem para isso esta dependente de nenhum homem nojento.
E atenção, isto sem qualquer tipo de misandria: gosto muito dos meus amigos homens. Simplesmente é um bocado óbvia a ideia que está por detrás da atitude de se oferecer uma bebida a uma mulher. Nunca passaria pela cabeça de um homem gabar-se de que lhe pagam bebidas, por alguma razão. Note-se: porque isso o rebaixaria para um patamar que não lhe é interessante.

Por favor, parem de se gabar de algo que não faz sentido. É muito mais apelativo ver uma mulher bonita a pagar a sua própria conta do que a deixar-se fazer por um gajo qualquer. E isto vale para as vossas noites, a vossa casa, a vossa roupa e a vossa vida em geral.