sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Jantar revivalista e por que escolho não ir


Fui convidada para um jantar de revival, organizado pelos meus ex-colegas de liceu. Andei nesta escola a juventude toda, por isso são pessoas que conheço há muito.
Tentei postar um texto no evento, a explicar a minha recusa, mas, depois de uns problemas técnicos que não o permitiram (era longo demais), resolvi que seria igualmente bom colocá-lo aqui, e pôr lá o link para o blogue.
Até porque as ideias expressas reflectem a minha opinião relativa a eventos deste tipo, no geral. E se achei o caso suficientemente importante escrever tanto, a verdade é que mas vale também publicar aqui.


Olá,

Ia carregar, mais uma vez, no botão de recusar um jantar do liceu e ocorreu-me que seria interessante explicar.
Até porque eu própria me perguntei: será que devia ir? Mas não me apetece ir! Mas por que é que não me apetece ir? Será isto normal?

Então, após alguma reflexão, cheguei à conclusão de que não tenho nada contra estes jantares, nem contra aqueles que os frequentam. No entanto, há razões muito específicas pelas quais eu escolho não ir:

No liceu, fiz amigos. Pessoas com quem me identifiquei, de quem gostei e que gostaram de mim. Continuo a falar e a estar com essas pessoas, e não preciso de um evento à escala da minha antiga escola para me recordar de que ainda quero estar com eles e ainda gosto deles. Simplesmente, quando me apetece fazê-lo, pego no telefone e faço-o.
Nos dias que correm, ainda temos o Facebook, uma maneira de dizer “até te curto, vamo-nos manter em contacto”.
Na minha opinião, é o que acontece às pessoas que querem estar umas com as outras: se querem, estão, se não querem, não estão. Se querem, falam, se não querem, não falam.

Eu não me acho melhor do que ninguém. Simplesmente não tenho paciência para perder uma noite a fingir que “o mundo se meteu entre nós” ou “ando tão atarefada e...ups, já passaram 10 anos!”. Não, porque não acredito nesse tipo de acasos. Amigos são amigos e aqueles que ficam, ficam. Mesmo que trabalhem 12 horas por dia ou que vivam no cu de judas.

Portanto, e muito resumidamente: não me levem a mal, mas se não vos vejo há 15 anos, é porque provavelmente não vos quero ver. E vice-versa.

De cada vez que encontro alguém do Liceu na rua (alguém com quem, por “coincidência”, não tenha combinado nada nos últimos 15 anos), é sempre a mesma conversa: “há tanto tempo”, “temos de combinar alguma coisa”. Mas sabem que mais? Não, não temos.

Aliás, odeio esse tipo de hipocrisia. Odeio quando alguém me diz que vai ligar e não liga, ou ter eu própria de estar nesse tipo de posição em que prometo coisas que não cumpro.

Dos 14 aos 15 anos, fui vítima de bullying. Não estou ressabiada nem guardo rancor, porque não acredito no mal absoluto, nem no bem absoluto. No entanto, também não faço questão de me sentar na mesma mesa do que alguém que, diariamente, me chamava puta e ameaçava de tareia, chamava maricas aos meus amigos e se gabava de bater em mulheres.
Do mesmo modo, não tenho respeito pelas pessoas que lhe foram coniventes ou professores que fecharam os olhos. Nos últimos anos, recebi mensagens (de pessoas que dantes me mandavam mensagens a chamar nomes), como se nada fosse, a perguntar pela minha vida profissional. Há muita estranheza no mundo. Eu faço o máximo para não pactuar com ela.

Enervam-me os jantares de revival, em que fingimos ser todos amigos de pessoas que em tempos detestámos, que nos detestaram ou maltrataram sem razão, que desprezámos ou nos desprezaram –  apenas porque partilhámos a mesma sala de aulas.
Em que se fingem emoções que não se sentem e se dão abraços sem conteúdo, apenas para aparecer bem numa fotografia.
Em que beijamos pessoas que nunca mais vamos beijar.
Em que se pratica o “gozava contigo na escola mas agora somos tão amiguinhos” e o “estive na tua turma 5 anos e nunca te dirigi a palavra, mas agora dá aí o teu cartão porque talvez me dês jeito”.
Não acho que o passado nos defina, mas faz parte de quem somos e negá-lo é negarmo-nos.

Enervam-me os jantares de revival, também porque nunca ninguém vai realmente lá para reviver seja o que for. Quer dizer, não duvido que haja alguns espíritos altamente entusiastas nesse sentido (e entre vocês, pessoas genuinamente bem intencionadas), mas a maioria  vai a essas coisas para jogar ao perdi-dez-quilos-olhem-para-as-minhas-mamas-novas, ao a-minha-profissão-é-melhor-do-que-a-tua ou ao os-meus-filhos-são-mais-giros-do-que-os-teus. E desculpem-me a sinceridade, mas eu estou-me completamente nas tintas para a vossa profissão e para os vossos filhos (as mamas novas ainda vá, mas mesmo assim prefiro as genuínas).  
Não quero saber quem se meteu na droga, quem foi para stripper, ou quem ficou milionário. E vocês também não querem saber de mim, o que é óptimo sinal, porque quer dizer que têm vida própria.

E isto não é um juízo de valor a vosso respeito. Acredito nas vossas boas intenções. Isto é apenas uma explicação de porque é que eu não vou, nada mais. Porque me convidaram e porque o Facebook me pede para explicar.

Bom jantar. Àqueles com quem nunca falo: eu não vos odeio! Apenas me é indiferente saber da vossa vida.
Àqueles com quem quero estar, vão continuar a receber notícias minhas, porque gosto de vocês. É o que eu faço e é aquilo em que acredito.
Beijo. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A opinião do site Segredo dos Livros sobre O Albatroz

"Este é um livro escrito com uma escrita crua, fria e até mesmo filosófica e profunda. É uma das melhores escritas que encontrei nos últimos tempos e isso foi algo que me surpreendeu, conseguindo, assim, envolver-me na história. História essa que me impressionou. Através de um ambiente pesado e negro, onde o arrependimento, a mágoa e a solidão são as palavras-chave, a autora consegue transmitir-nos inúmeros sentimentos, enquanto conta a história de dois irmãos que se adoram, mas se separaram. Agora, ligados pelas infelicidades da vida, acabaram por se descobrir mais parecidos do que pensavam.

É um livro cheio de significados, significados esses ocultos através da estranha história que nos é contada pela autora. Devo dizer que houve momentos em que eu olhava para o desenvolvimento da história e pensava "a sério!?", mas esta história tem por detrás todo um simbolismo que temos que procurar.

Um livro com uma escrita fantástica e que acredito que marque os leitores de uma forma especial."


Para ler na integra aqui:

http://www.segredodoslivros.com/sugestoes-de-leitura/o-albatroz.html

terça-feira, 10 de setembro de 2013

sábado, 7 de setembro de 2013

"O problema é que são muito badalhocos"


Estudos comprovam que 1 em cada 5 portugueses já proferiu esta frase, referindo-se à comunidade gay masculina. 
Ok, estudos não comprovam, fui eu que retirei a estatística da minha fantástica experiência do mundo em geral. Mas mesmo assim, acho que não me enganarei muito nos números.

Poderia agora lançar-me num infinito ditirambo contra a homofobia que ainda está, infelizmente, generalizada na nossa sociedade. Em vez disso, sugiro-vos que andem comigo um pouco atrás na História, para um momento de nostalgia infantil:

Quando cheguei à puberdade, nasceram-me, a mim e às meninas da minha turma, umas coisas chamadas maminhas. Imediatamente, começámos a ser requisitadas para fazer algo chamado “curtir”, prática que consistia nuns beijinhos atrás de uma árvore. A quem respondesse a essa solicitação com frequência, ou apetecesse ir além dos beijinhos, era chamada de “puta”, palavrão esse que era usado com o mais comum dos vagares.
Muito cedo, as raparigas percebem que, para preservar a sua dignidade, terão de manter, quanto aos seus impulsos carnais, um relativo secretismo. Enquanto os seus companheiros serão louvados pelas suas conquistas, o mesmo, com elas, acontece geralmente ao contrário.
Flash-forward para o momento presente:
Estamos no Lux, uma distoteca betinha maioritariamente heterossexual, em que as mulheres são com frequência solicitadas para fazer todo o tipo de porcarias. É muito comum que, mesmo que lhes apeteça, não o façam. Manel atira-se a Maria à descarada. Maria acha Manel atraente e já lhe dava umas cambalhotas, mas pensa “agora não, as minhas amigas estão a ver, e Deus sabe o que vão pensar”. Xavier e Matilde tiveram um date romântico. “Não podes ir para a cama logo na primeira noite, não podes ser fácil”, diz o instinto auto-repressivo de Matilde, formado ao longo de anos de experiência nesta sociedade super igualitária em que vivemos.
Logicamente, a situação acalma-se.
Uma discoteca hetero é um lugar vagamente sensual, no qual a generalidade dos homens tenta fazer avanços à generalidade das mulheres, que, apesar de decotes brutalmente sugestivos e saltos hiper-desconfortáveis que fazem lembrar fantasias fetichistas de alto grau, recuam com caras pudicas e trejeitos coquettes, segundo lhes foi ensinado que era a boa maneira feminina.

Enquanto isso, numa discoteca gay:
João quer dormir com Manel, João dorme com Manel. José quer beijar Mário, José beija Mário. Miguel quer ir fazer coisas porcas, para o jardim, com Josefim. E por que não? Miguel faz coisas porcas, no jardim, com Josefim. Ivan quer dormir com Cláudio, António e Pedro... e adivinhem: Ivan vai dormir com Cláudio, António e Pedro. Sem problema nenhum.
O que se passa muitas vezes é que a noite gay masculina apenas representa a enorme orgia que nós já todos sonhámos pelo menos uma vez que fosse a nossa vida.
E digo isto partindo do princípio de que é claro que as pessoas que se identificam como gays não são todas badalhocas. E isto acontece porque.... as pessoas não são todas badalhocas.

Percebem onde quero chegar, amigos homofóbicos? Não, não há nenhum gene especial de badalhoquice, na homossexualidade. Há, sim, seres humanos que gostam de sexo, porque isso é essencial à perpetuação da espécie. Uns são levados a explorar esse instinto, pela sua educação, outros são levados a reprimi-lo. Tão simples quanto isso. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Namorada bio - namorada light


Toda a gente que já dedicou o mínimo de ponderação ao assunto pode concluir que, nos tempos dos nossos avós, o engate era uma coisa lixada. Primeiro, havia os olhares. Depois, os passeios, os jantares, os bilhetinhos, o jantar com os pais. Demorava-se anos a dar um beijinho que fosse. Havia muita masturbação, sob o olhar judicioso do pároco. E depois havia os bordeis.
Os senhores de antigamente (as senhoras não, porque jamais se ousaria imaginá-las sujeitas a tais ímpetos impuros), coagidos às normas estritas da época, no que dizia respeito ao pudor e ao sexo, eram por assim dizer obrigados a satisfazer os seus impulsos carnais noutro lado.

Nas últimas décadas, como sabemos, tudo mudou. Isso tem um lado positivo. Hoje em dia, a mulher não precisa de se esconder ou de andar a dar satisfações a seja quem for, aborda o tema livremente e melhor: não tem de fingir que não gosta de sexo, o que é um alivio.
No entanto, com a banalização do sexo casual, surgiu também um fenómeno que se espalhou em massas, e a que gosto de chamar a namorada light.
Já todos ouvimos a história. “Ele disse-me coisas carinhosas, mas já não me liga há quatro dias.”; “Ele anda muito ocupado, por isso só me liga a partir das dez da noite ou quando está bêbado.”; e a minha preferida: “Ele dorme comigo, mas diz que não está preparado para uma relação”.
Pior, numa certa medida, em maior ou menor grau, já quase todas as mulheres adultas fizeram parte desse tipo de história. É inevitável.
Com a chegada do sexo fácil, e sendo este encarado com uma coisa cool, é muito mais provável que o mesmo seja aproveitado essencialmente pelos homens. Quer queiramos quer não, a generalidade das mulheres andou a ver demasiados filmes e desenhos animados durante a infância. Enquanto os meninos destruíam pontes com camionetas da Playmobil e recebiam lições de como engatar miúdas por parte de um tio qualquer que bebia demasiado gin à hora de almoço, as meninas viam A Bela Adormecida e A Rainha da Sucata (novelas da Sic: o pior que pode haver em termos de preparação para a vida real). Aí, era-lhes ensinado que existia uma coisa chamada amor à primeira vista e que quando o encontrassem, teriam também um parceiro eterno e iriam ser muito felizes. Não quer dizer que isso não exista (vou saltar agora, por questões práticas, por cima da análise da questionável relação de causalidade entre estes três elementos). Mas, na maior parte das vezes, há pelo menos 8 chances em 10 de ele não ser o Zé-do-bairro que trouxemos no outro sábado para casa depois de uma noite de bebedeira total.

A namorada light é a namorada confusa que, gostando de sexo e tendo decidido ceder aos seus impulsos, achou que tinha encontrado o príncipe encantado e decidiu dar-se a ele na mesma noite, na sua própria adaptação moderna dos contos infantis que ouvia.
No entanto, a menos que a gratificação funcione no seu pleno para os dois lados (o que é uma hipótese obviamente válida) não vale a pena quando apenas uma das partes espera que a situação evolua muito mais - e seria uma hipocrisia negar que esta parte é, na generalidade dos casos, a feminina. Se preciso for, façamos as coisas à moda antiga: afinal, a masturbação e os bordeis ainda estão lá por alguma razão.