domingo, 24 de novembro de 2013

Faz sempre sol em San Andres


Ontem entrei numa mercearia e cheirou-me a Colômbia. Perguntei ao homem, imediatamente, que, velho sobre si mesmo, de unhas grandes amarelas, me espiava por cima das suas lentes míopes. Não percebeu a minha questão.
Voltei a expressar-me
- o senhor desculpe, mas aqui cheira a Colômbia
podia ser que viesse de dentro, daquela arrecadação encarquilhada, do mofo intenso que cobria os leites e os ovos fora do prazo. Mas eu não podia provar nada só com o meu olfacto, por isso fiquei ali a olhar, de braços bambos, à espera que ele respondesse.
Não reagiu ao meu comentário, em vez disso começou a empilhar pacotes de cogumelos enlatados na montra, como que para disfarçar o ambiente constrangedor que se instalara. Na televisão, davam uma notícia sobre a subida do IRS e eu continuava a lembrar-me dos vales do Cauca, por onde cavalguei de autocarro, embrulhada numa manta roubada e a ver imagens no ecrã oscilante, enquanto, a intervalos, vomitava desesperadamente pela janela fora. As árvores barbudas e os monólitos desfilavam-me ao lado, eu pensava em muitas coisas que hoje concluo não terem importância. Dizem que os sítios são o que nos resta, pode ser, mas às vezes há caras maiores do que tudo isso.

De lá, guardei uma náusea que me perseguiu até aos dias de hoje, ainda não consigo andar de carro pela serra de Sintra, mesmo que seja eu própria a guiar, chega a ser desesperante. Volta e meia, tenho de parar numa berma e ainda sinto o peso oscilante das montanhas trepando-me pelas vísceras. Dizem que um índio se instalou dentro de mim desde aquela estadia com os Quíchua, temo bem que seja verdade.

- mas diga lá, ainda não me respondeu, o cheiro?
E ele a disfarçar, que não me via. Acabou com os cogumelos e seguiu para a caixa registadora, sempre com aquelas unha enormes a fazer grat grat em tudo o que mexiam. Um cliente chegou e pediu um bagaço, o que é algo de estranhar numa mercearia, mas depois percebi que havia efectivamente uma máquina de café e uma mesa com uns banquinhos magros, por isso talvez de facto fosse possível que aquele estabelecimento tivesse mais utilidades do que as que de início achara.
Cheirava cada vez mais e eu já não conseguia controlar aquilo, num segundo tentava ir-me embora, no outro ficava presa à soleira sem a conseguir transpor.
- pode ajudar-me?
Ele perguntou-me, afinal, o que se passava. Parecia bastante preocupado, quanto mais não fosse porque eu lhe estava a obstruir a passagem à possível clientela.
- sinceramente – continuei eu – não terá de certeza aqui muitos clientes de qualquer maneira, com o estado lastimável em que tem a montra, até pode provocar uma doença a alguém.
O homem parecia cada vez mais chateado, agora que eu tinha feito um ataque directo ao bom nome do seu estabelecimento. Tentou afastar-me com uma vassoura.
Eram bem patéticas as tentativas do senhor, cheio da sua lordose, olhando para cima desesperado e fazendo gestos com a vassoura, que por vezes me chegava a bater, outras não. Esvoaçante, o velho enxotava-me e eu dava pulinhos para um lado e outro. Estava a instalar-se um chavascal na mercearia. O senhor do bagaço procurou intervir, mas encontrava-se demasiado bêbado e apenas conseguiu tornar a pequena luta ainda mais confusa. Tropecei num cacho de bananas e não tive tempo de pôr as mãos à frente da cara, cai de queixo no chão.

Tudo ficou escuro e os barulhos misturaram-se.

Estava outra vez no Cauca, era agora um porco alegre que saltava as vedações. Não tinha medo dos soldados nem das velhas gordas que me tentavam caçar. De repente, percebi que aquele cheiro era universal, é o mesmo cheiro de todas as mercearias do mundo. E conclui que o mundo inteiro é uma mercearia gigante,


a rir, a rir-se de nós.



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A mãe das coisas

A fotógrafa Estelle Valente desafiou-me a fazer um texto a partir deste trabalho seu. O resultado ficou bastante engraçado, é só carregar na fotografia para ver.