domingo, 30 de setembro de 2012

Quando estamos doentes


tudo acontece mais devagarinho. O tempo escorre, lento, e as coisas afinal já não têm tanta importância. Podemos fazer aquele telefonema mais tarde, os compromissos na agenda são adiados e as pessoas podem esperar, porque estamos doentes.
Quando estamos doentes, gostamos mais da cama e podemos ouvir a música que queremos. Parece que cantam para nós e dizem para não ficarmos assim.
Quando estamos doentes, sempre bêbados: a cabeça comprime o cérebro ou os comprimidos fazem isso por ela. Os olhos brilham e ardem e de repente percebemos exactamente o nosso corpo. Ele já não é estranho nem descartável. É um corpo que chora.
Quando estamos doentes, pedimos mimos. E quando não há ninguém para os dar, mimamo-nos a nós mesmos (por isso é que há os chocolates, e nesse caso ficamos ainda mais doentes).
Tornamo-nos peritos em medicação, somos uma farmácia ambulante e cronometrada, ciente do tempo de vida de cada componente farmacológico. Temos frio e calor, depois frio, e calor, e frio e calor. Queixamo-nos muito mas depois fingimos que está tudo bem, para podermos sair a fazer coisas, porque é aborrecido estarmos doentes. Mas depois – claro – ficamos mais doentes.
Quando estamos doentes, isso é chato. Porque tudo planeado e afinal a vida vem-nos lembrar que nós não controlamos nada. Há coisas a ferver dentro de nós, bactérias que têm motivos próprios e nada podemos fazer.
Mas uma pausa é por vezes o que falta para perceber que nem tudo tem de ser assim, tão rapidamente assim. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A personalidade go with the flow


As novas medidas de austeridade anunciadas pelo governo, associadas ao Facebook, proporcionaram espaço a uma plataforma expressiva que detesto especialmente e à qual me permito chamar personalidade go with the flow.
Aos adeptos deste tipo podíamos vê-los, por exemplo, a defender um sistema político ultra-liberal ainda há coisa de um ano, porque estava vagamente na moda. No entanto, desde há duas semanas para cá, algo muda radicalmente na vida destas almas, que começam para aí a berrar
- É uma vergonha, pá! Ladrões, devolvam-nos o nosso dinheiro!
Não falo daqueles particularmente decepcionados pelo actual governo, porque este lhes mentiu à descarada, isso é diferente. O meu alvo, aqui, são os infelizes que nem sequer sabem porque é que vão para a rua gritar, mas no fundo até sabem: é porque os amigos estão lá.
Os adeptos da personalidade go with the flow são pessoas que nunca arriscaram nem vão arriscar exprimir uma opinião diferente e muito menos contraditória à da maioria. Quando estava na moda dizer bem do primeiro ministro, eles diziam. Agora que está na moda estar indignado, eles afinal também estão bastante indignados.

Mas isto não se reduz, nem por sombras, a uma atitude politica.

Geralmente, este tipo de gente nunca exprimirá um gosto literário, musical ou outro, caso o mesmo não esteja assegurado como sendo consensualmente cool. Eles vão aos concertos da moda porque “aliás, sempre gostei muito desta banda (mas só por acaso agora estou a falar dela)”, eles “sempre disseram que aquele restaurante era um dos melhores de Lisboa, mesmo antes de ganhar fama” (apesar de nunca lá terem ido). E outras idiotices que tais.
Isso é, por motivos óbvios, muito seguro e proporciona um certo modo de vida confortável. Um go with the flow nunca poderá ficar mal, em situação alguma.
Por outro lado, sabe que é medíocre e nunca logrará nada na vida, a não ser à custa dos outros, das suas ideias e da sua coragem.
Não estou a dizer que isto seja algo tipicamente português, até porque não foi por acaso que o Hitler chegou ao poder pelo voto democrático.
Entristece-me, no entanto, a insegurança humana. Se todos tivéssemos a decência de expressar aquilo em que acreditamos livremente, em vez que ir atrás da carneirada só porque isso nos faz sentir mais integrados, acho sinceramente que o mundo seria um lugar muito mais habitável. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Esses homossexuais que fumam ganzas e que andaram a viver acima das suas possibilidades


- Esta gente quer é fumar ganzas e não fazer nenhum – dizia ele, com um bom e bem servido copo de vinho na mão.
Era uma casa de classe média alta, cujos proprietários, felizmente e tal como eu, nunca tinham passado dificuldades financeiras. Não eram nem mais nem menos inteligentes do que o normal. Não eram nem mais nem menos extraordinários do que qualquer humano. No entanto, davam-se ao luxo de moralizar sobre a vida de todo um povo, como se o fossem.
Gritar na rua? Eles deviam era ir trabalhar, eles deviam era ter tirado um curso de jeito, eles deveriam.

Eles não deveriam fumar ganzas, mas embebedar-se já sim. Eles não deveriam ser homossexuais, ou pelo menos expor a sua identidade demasiado livremente. Eles deveriam mas era ir trabalhar, apesar de não terem emprego, de terem filhos doentes, eventualmente fome, eventualmente desesperados.
“Eles” - para alguns - têm um laço comum e cabem todos na mesma definição, já agora: são aqueles que defendem os mais fracos, é fácil.
(E tal como se sabe, todos os que defendem os mais fracos fumam ganzas.)

É só que às vezes me pergunto quem poderá ainda acreditar que estamos num bom caminho para qualquer coisa e lembro-me deste tipo de conversas a que já assisti. As pessoas que defendem o buraco que estamos a cavar, elas existem.
Não são apenas sombras aqueles que desprezam e generalizam a gente com quem se cruzam todos os dias.
Eles existem, aqueles que se estão nas tintas para toda a gente excepto os próprios. Aqueles que não conseguem conceber um estilo de vida ou uma origem para além da sua. E é contra isso que temos de lutar. Porque a verdade é simples: eles lutam contra nós todos os dias.
Através dos direitos que nos tiram e dizem nunca terem sido nossos, através das taxas imaginárias que nos fazem pagar sem termos qualquer dever de o fazer. Eles lutam.

Tendo em conta de quem nem todos temos as mesmas oportunidades, tendo em conta que nem todos temos as mesmas qualidades ou apetências, acredito num Estado justo, que distribua a riqueza igualitariamente. Não acredito numa sociedade selvagem em que cada um vai por si, simplesmente porque não partimos todos do mesmo ponto.
E é por isso.
Contra eles, como já foi provado, a passividade não resulta. E não tenhamos medo de lhes fazer mal, porque eles já provaram que não têm medo de nos fazer mal a nós.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Hoje, Passos anuncia novas medidas de austeridade


"There will be no curiosity, no enjoyment of the process of life. All competing pleasures will be destroyed. But always—do not forget this, Winston—always there will be the intoxication of power, constantly increasing and constantly growing subtler. Always, at every moment, there will be the thrill of victory, the sensation of trampling on an enemy who is helpless. If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face—forever."
—Part III, Chapter III, Nineteen Eighty-Four - George Orwell

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A televisão e o fenómeno sócio-normativo


Não iria ao ponto de encarar a televisão hoje em dia como o monstro que alguns nela vêm. Não aconselharia o mundo inteiro a ver-se livre de todas as suas respectivas. No entanto, vejo-me obrigada a partilhar o que aconteceu na minha vida desde que não tenho este aparelho em casa.
Ao princípio, veio o pânico. Durante dois anos tive-a e agora ela morreu. Era do século passado, coitada. E agora? Como vejo as notícias? Como sei o que se passa no mundo? Como vou sobreviver? Algo horrível se iria produzir, pensei, vou-me desintegrar.
Nada disso.
A única coisa que mudou é que posso escolher. Quero saber mais sobre um determinado assunto que me interessa? Pesquiso na internet. Há uma série/documentário que gostaria de ver (não acontece assim tantas vezes, mas é possível)? Vejo online. Quero ficar informada? Leio os jornais ou os sites. De facto, é isto. Percebi também que ganhava tempo, porque não tinha de aturar anúncios e outras porcarias que não me interessava ver, mas que mesmo assim me impingiam (nasceu um bebé com três braços em Oliveira de Azeméis, foi batido o record guiness para a maior omeleta de repolho do mundo, são tudo coisas que me passam agora ao lado).

Ou seja, o grande efeito que a televisão têm hoje em dia nas pessoas é o de escolher por elas. Os nossos interesses são-nos ditados por uma entidade exterior, que nos entra, com cada vez mais intensidade, em casa. Há canais para todos os targets e para cada hora do dia e ninguém está a salvo. 
As pessoas chateiam menos o sistema, ficando sossegadinhas. Com as camadas idosas, por exemplo, vejo que funciona como um tipo de conformização, que as impede de andar por aí a mostrar o seu sofrimento pelas ruas, como faziam dantes (há quem ache muito incómodo o sofrimento dos outros).
Resumindo, o que quero dizer é que não vejo este aparelho como um monstro nem acho que seja completamente negativo ter um. No entanto, é preciso um cuidado e uma presença de espírito enormes, coisas que nem sempre temos (eu não sei se tenho) para não sermos sugados pela espiral do sistema que nos diz o que fazer, o que pensar e o que tolerar.
Porque em geral, é como um avatar de vida. É esse o efeito. É esse o efeito da televisão.